Entre o fascista Bolsonaro e os ‘humanistas’ de ocasião, a resposta certa é apostar na luta das massas

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Cada vez mais isolado, Bolsonaro já passou do jogo de morde-e-assopra às provocações abertas; poderá brevemente saltar delas à tentativa golpista. Seu discurso de ontem, 24, em mais um pronunciamento em cadeia de rádio e televisão (seguindo o conselho de Olavo de Carvalho, usa este expediente como nenhum outro) tem dois objetivos claros: manter coesa sua tropa de choque em risco de erosão e deixar claro aos que trabalham para interditá-lo que não aceitará uma saída negociada do cargo. A eventual abertura de processo de impeachment, que avançou várias quadras depois de ontem, entra no seu cálculo como boa possibilidade de montar palanque, mimetizando a tática adotada, em contexto muito distinto, por seu amo Donald Trump – deste cálculo, participam também os potenciais mortos de Covid-19, para os quais ele e seu séquito estão se lixando. Nesta seara, assistimos a uma odiosa demonstração de darwinismo social como não ocorria desde o século XIX.

Bolsonaro, hoje, não governa. O governo tampouco está nas mãos do tal “gabinete do ódio”, falacionice criada pelos monopólios de comunicação para desviar nossa atenção com Araújos e Damares do verdadeiro morticínio asséptico praticado pelos tecnocratas respeitáveis da “equipe econômica”, estes sim, os verdadeiros responsáveis pelas mortes presentes e futuras no esteio de um SUS sucateado. Lembrem-se de que foi o “democrata” Rodrigo Maia o fiador de uma “reforma da previdência” que manterá nas próximas décadas milhões de pessoas à margem de qualquer seguridade social efetiva, aumentando o número de miseráveis vulneráveis não só a uma pandemia como o Coronavírus, mas mesmo da nossa velha conhecida dengue. É com desprezo que devemos olhar o “humanismo” oportunista de Dória, Witzel, Hasselman, Caiado, Janaína Paschoal, das famílias milionárias que monopolizam os meios de comunicação e outros desta laia, defensores dos diários crimes contra a humanidade praticados, em tempos de “normalidade”, nas periferias esquecidas deste imenso país.

Os generais enfurnados no Planalto, manejando milhões do orçamento, todas as articulações políticas e os serviços de informação são o governo de fato. Não por acaso, é Braga Netto, general da ativa, o coordenador de todas as medidas relacionadas à Covid-19. A “retratação” exigida pela China veio da boca do general Mourão, vice-presidente, que carimbou Eduardo Bolsonaro com a alcunha de “bananinha”, numa pisada dura sobre Jair, que, encurralado, teve que engolir calado. Estes burocratas de alto coturno, aliás, preservaram, a despeito de todos os trabalhadores, aposentadoria integral e pensões vitalícias no contexto da “reforma da previdência”, escárnio tão acintoso que provocou dissensões no interior mesmo dos quarteis. Seu “democratismo” consiste no apoio frívolo a uma democracia formal, oligárquica, consentida desde que o povo aceite ser saqueado passivamente. Ao primeiro sinal de levantamento popular, “o braço forte atuará se for necessário”, como disse ontem o comandante do Exército, em clara advertência às massas para que aceitem caladas as penúrias que se abaterão sobre elas durante e após a quarentena.  

O “Fora Bolsonaro”, gritado nas janelas dos bairros de classe média, desesperada pelo risco iminente de pauperização, é sintoma de agravamento da crise em curso e neste sentido é relevante fenômeno político. Agora, fazer do impeachment de Bolsonaro o centro da tática da luta social neste momento seria um erro grave. Digamos sem meios-termos: seria apenas facilitar a passagem do governo militar de fato a governo militar de direito. Lembremos do Mourão que disse reiteradas vezes que o povo “tem mais direitos do que deveres”, ou que chamou o décimo-terceiro salário de “jabuticaba”. Lembremos das brutais chacinas no Complexo do Alemão e no Haiti, perpetradas pelo “Exército de Caxias”. Jogar fichas no impeachment seria fazer causa comum com a direita civil e militar, criar condições mais favoráveis para que aprovassem suas contrarreformas, em suma, fazer do movimento popular mero apêndice de novo pacto entre as classes dominantes (mais um em nossa história), após o qual viria um novo ciclo de exploração e repressão sobre as massas.

Queremos derrubar não só Bolsonaro, mas todo o sistema putrefato que o gerou. Do ponto de vista tático, devemos defender os direitos pisoteados da população pobre, dos milhões de desempregados, das mulheres trabalhadoras, dos jovens, das donas de casa, dos estudantes, dos operários, dos camponeses, da intelectualidade etc. A luta independente das massas populares, enfim, tendo no seu centro a aliança operário-camponesa; a defesa contundente, sem regatear sacrifícios, dos seus direitos de livre organização e manifestação. Este é o ponto. Viveremos nos próximos anos um verdadeiro tsunami da luta popular no país, derivado de um aprofundamento cataclísmico da crise aguda que já nos assola desde meados da última década (abstraímos aqui a situação internacional, gravíssima também, em particular na América Latina). Mais do que nunca: coragem! Nada será impossível neste contexto, nem mesmo a vitória.

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