Palestina: Vulnerabilidade de palestinos ao coronavírus escancara a guerra de agressão imperialista

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Palestinos que trabalham em Israel foram obrigados a decidir entre viver meses separados de suas famílias ou manter seus empregos,
devido ao fechamento das fronteiras. Foto: Mohammad Abu Zaid/Middle East Eye

Em meio a crise causada pelo surto de coronavírus em todo o mundo, a situação vivida pelos palestinos, tanto na Faixa de Gaza sitiada, como nos territórios ocupados e dentro dos próprios limites de Israel, que já é calamitosa, tem se aprofundado ainda mais. O momento, principalmente após o fechamento das fronteiras de Israel, tem exposto para o mundo as condições subumanas a que o povo palestino é submetido sob o regime de ocupação do sionismo israelense, lacaio e principal aliado do imperialismo ianque na região do Oriente Médio Ampliado.

Nas masmorras israelenses

O primeiro caso de coronavírus detectado em palestinos foi relatado a partir das próprias prisões israelenses. A Sociedade de Prisioneiros Palestinos (PPS) denunciou que quatro presos palestinos estão em isolamento na prisão de Megiddo, localizada a noroeste da cidade ocupada de Jenin (Cisjordânia), depois de outro preso ter sido contaminado por um oficial israelense durante sessões de interrogatório, na cidade de Petah Tikva. Em comunicado, o PPS declarou que “Os prisioneiros estão enfrentando hoje o perigo de infecção por guardas e investigadores” israelenses que não seguem o protocolo de higienização.

Outro caso ocorreu na prisão de Ascalão, no sul do país, onde o Comitê de Assuntos de Prisioneiros da Palestina informou que um dos detentos havia estado em contato com um médico israelense contaminado sem ser informado, e se encontrava sem direito ao isolamento.

Na prisão de Ramallah e no centro de detenção Al-Moscobiyeh (“Complexo Russo”, também chamado de “matadouro”), localizados respectivamente na Cisjordânia e na Jerusalém Oriental, ocupadas pelas tropas do sionismo, agentes penitenciários israelenses que haviam sido expostos ao vírus entraram em contato com os prisioneiros palestinos, que foram colocados em quarentena em seguida.

De acordo com a Associação de Apoio e Direitos Humanos dos Presos (Addameer), há cerca de 5 mil prisioneiros palestinos definhando nas masmorras israelenses hoje, muitos deles presos políticos da luta pela autodeterminação da Palestina. A grande preocupação com relação ao coronavírus tem sido a superlotação desses presídios e suas condições insalubres, que ajudam na disseminação da doença, assim como a falta de assistência e de cuidados médicos prestados a esses presos.

Outra exigência dos movimentos palestinos tem sido a libertação imediata das mais de 180 crianças palestinas encarceradas nas prisões israelenses, segundo números da Addameer. Uma  investigação do Defense for Children International - Palestine (“Defesa Internacional para Crianças”, DCIP) descobriu, no início de 2020, dezenas de crianças palestinas encarceradas na prisão de Damon, em Israel. Elas foram abusivamente mantidas em salas pequenas e sem ventilação, bem como sem acesso a banheiros limpos e privados, que deixam-nas ainda mais vulneráveis a se contaminarem.

Na Faixa de Gaza sitiada

No dia 17, quando Israel decretou a maioria de suas medidas para contenção do surto do vírus, o seu ministro da Defesa anunciou o fechamento de todas as fronteiras do país, incluindo as da Cisjordânia e da Faixa de Gaza no que diz respeito ao tráfego comercial, embora alguns pacientes e organizações de ajuda humanitária tenham conseguido a autorização para atravessar nos últimos dias.

Dias depois, o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que governa Gaza, anunciou em 22 de março seus dois primeiros casos confirmados de coronavírus, relativos a dois homens de 79 e 63 anos que retornaram do Paquistão recentemente. Eles foram colocados sob quarentena na cidade de Rafah, na fronteira de Gaza com o Egito, assim como todas as pessoas que estiverem em contato com os dois.

A situação trouxe à tona a discussão sobre o isolamento da Faixa de Gaza, território palestino que se encontra sitiado e sob bloqueio militar tanto por Israel, como pelo Egito (suas únicas duas fronteiras terrestres), desde 2007.

Como consequência do seu isolamento e dos constantes bombardeios sofridos por parte do Exército israelense, Gaza possui um sistema de saúde deficitário, com uma aguda falta de medicamentos e outros itens essenciais, devido às limitações à passagem de produtos e pessoas pelas fronteiras, além de ter tido diversos hospitais destruídos e bombardeados nos últimos 12 anos.

Além da condição precária do sistema de saúde de Gaza, outro fator que agrava a chegada da pandemia ao enclave é a quantidade de pessoas vivendo em campos de refugiados. De uma população de cerca de 1,8 milhões de pessoas, a “Organização das Nações Unidas” (ONU) indica que 14 milhões vivem espalhados nos 8 campos de refugiados existentes em Gaza, o que corresponde a quase 80% da população vivendo com acesso escasso à água, saneamento, emprego e outros recursos básicos.

O Hamas acionou algumas medidas preventivas, ordenando o fechamento dos mercados de rua e salões de festa a partir do dia 20 de março, assim como de todas as escolas. Cerca de 1,3 mil pessoas que haviam retornado do exterior foram colocadas sob quarentena, e equipes de saneamento foram dispostas para pulverizar desinfetantes nas ruas e edifícios públicos do território. Além disso, todos os muçulmanos foram convocados a rezar em casa, em vez das mesquitas, e a não realizar as tradicionais reuniões de luto, em caso de mortes.

Segundo Abdelnasser Soboh, diretor do escritório de Gaza da “Organização Mundial da Saúde” (OMS), o território tem disponíveis 62 ventiladores respiratórios, mas estima que pode vir a precisar de outros 100 se o vírus se instalar. De Israel, Gaza recebeu o envio de míseros 200 kits de testes de coronavírus nos últimos dias, o que é um preparativo mínimo para o caso de um surto prolongado da doença.

E na Palestina ocupada

Na Cisjordânia, onde já somam 60 casos confirmados até agora, segundo o Ministério da Saúde da Palestina, foram determinadas duas semanas de distanciamento social a partir da noite do dia 22, com exceção para os que trabalham nos serviços de saúde, farmácias, mercearias e padarias.

O principal impacto sofrido pelos palestinos da Cisjordânia se deu sobre a força de trabalho, desde que Israel decidiu fechar suas fronteiras no dia 17. Os mais de 100 mil palestinos empregados em Israel que precisam atravessar a fronteira diariamente para poderem trabalhar foram repentinamente obrigados a escolher, em apenas três dias, entre meses separados de suas famílias ou ficarem desempregados, após o ministro da Defesa de Israel, Naftali Bennett, anunciar que qualquer trabalhador palestino que decidisse continuar trabalhando no país seria impedido de voltar para casa por pelo menos um ou dois meses.

O portal Middle East Eye (“Olho do Oriente Médio”) noticiou que há dezenas de milhares de trabalhadores palestinos presos em Israel agora, ao que outras centenas têm atravessado ilegalmente a fronteira, ficando vulneráveis a serem presos e mortos pelas forças de segurança israelenses.

Apenas os empregados nas áreas da construção civil, saúde e agricultura, que foram consideradas como “essenciais”, podem continuar indo e voltando diariamente para casa, ainda que de forma restringida também.

Na Jerusalém Oriental ocupada, apesar da determinação israelense que reduz as atividades do serviço público e proíbe todas as aglomerações de mais de dez pessoas, há denúncias de que as agressões cometidas pela polícia israelense contra a população palestina não apenas não cessaram, como se intensificaram em alguns lugares, como é o caso do bairro palestino de Isawiya.

A organização de defesa dos direitos humanos B’Tselem noticiou que agentes israelenses da Polícia de Fronteira e da Unidade Especial de Patrulhamento têm, mesmo durante o período de quarentena, invadido diariamente o bairro, à noite e principalmente nos fins de semana. Isso tem ocorrido há quase um ano, como continuidade a uma operação iniciada em abril de 2019 noticiada pelo AND, em que os agentes fecham as entradas e saídas, prendendo os moradores, e iniciam confrontos com a população local. Geralmente os alvos selecionados são jovens, em especial os menores de idade, que são levados pelas forças da repressão para sessões onde são interrogados sozinhos e libertados apenas no dia seguinte.

O Centro Legal para os Direitos das Minorias Árabes em Israel também publicou uma nota de denúncia e enviou uma carta ao Ministério da Saúde de Israel atentando para que todas as atualizações e informações sobre o coronavírus em Israel e nos territórios ocupados estavam sendo divulgadas apenas em hebraico (idioma oficial do país), dificultando o acesso a informação de todo o povo palestino que vive nessas regiões para se prevenir, conhecer os sintomas da enfermidade e poder combatê-la com efetividade.

Morador de Isawiya sendo preso e levado por agentes policiais israelenses durante o período de quarentena. Foto: Reprodução de redes sociais.

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