Aumentos dos casos de Covid-19 expõe precárias condições dos trabalhadores da saúde no Brasil

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Sindisaúde-RS realizou um ato com faixas na avenida José de Alencar em frente ao Hospital Mãe de Deus, denunciando mais essa situação de precarização. Foto: Redes Sociais

O aumento dos casos da Covid-19 em todo o país trouxe a tona uma situação rotineira enfrentada pelos trabalhadores de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) e da rede privada, a precarização das condições de trabalho. Essa situação pode ser constatada de diversas maneiras, mas atualmente a mais evidente é a falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e a falta de leitos em todo o país. 

Os EPI possuem grande importância, não apenas como proteção ao Covid-19, mas para diversas outras doenças com alto grau de contaminação que ainda são muito comuns em todo o Brasil, como por exemplo tuberculose, meningite, além de evitar o contato com secreções diversas e sangue.

No SUS esse cenário de precarização é crônico e ocorre desde a sua criação na década de 1980, porém se agravou ainda mais após a aprovação da Emenda Constitucional 95 em 2016, chamada pelos trabalhadores de “emenda da morte”. A lei impõe um limite para os orçamentos da saúde e educação por 20 anos, com o intuito de destinar mais recursos para o imperialismo. Enquanto isso, na rede privada essa situação ocorre devido à lógica de lucro baseada principalmente na precarização das condições de trabalho associada ao pagamento de baixos salários, sobretudo para enfermeiros, técnicos de enfermagem, nutricionistas, maqueiros, dentre outros.

Ludmila Outtes, uma das lideranças do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Pernambuco (Seepe), relatou no dia 17 de março que as recomendações técnicas aos trabalhadores da saúde são bem claras para uso de EPI, contudo os trabalhadores estão sendo obrigados a continuar trabalhando sem EPI básicos. Os trabalhadores também denunciam os baixos salários, há cerca de 15 anos não há reajuste salarial.

“O coronavírus chegou a Pernambuco e a Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta o uso de EPI e lavagem de mãos. E o que tem acontecido nos principais hospitais estaduais é a falta desses materiais. O Hospital Correia Picanço está há seis meses com ar-condicionado quebrado. Pacientes e profissionais estão tendo que levar ventilador até mesmo para UTIs, o que é um absurdo para controle de infecção. No Hospital Geral de Areias, só tinha 20 máscaras para todo mundo na noite de segunda-feira. Estamos desesperados, sem saber o que fazer, porque estamos sendo obrigados a trabalhar nessas condições. Houve perda de 76,5% nos últimos 15 anos, sem reajustes; incorporação de gratificação ao salário, como concedido a médicos; pagamento de insalubridade e adicional noturno; e redução na jornada de trabalho para 24h”. 

Em Pernambuco, pacientes e profissionais denunciam falta de estrutura de UTI's no Hospital Correia Picanço. Foto: Divulgação.

Em Porto Alegre (RS) no dia 19 de março o Sindicato dos Profissionais de Enfermagem, Técnicos, Duchistas, Massagistas e Empregados em Hospitais e Casas de Saúde do Rio Grande do Sul (Sindisaúde-RS) realizou um ato com faixas na avenida José de Alencar em frente ao Hospital Mãe de Deus, denunciando mais essa situação de precarização. 

Uma das lideranças sindicais, Júlio César Jesien, relata que ao longo de apenas uma semana o sindicato recebeu cerca de 50 denúncias contra péssimas condições de trabalho. “Apenas em uma manhã chegamos a contabilizar 15 denúncias. Isso sem contar o que nos chega por WhatsApp e e-mail. Não há sequer o básico. Não adianta ter apenas a máscara cirúrgica, tem que ser a máscara do modelo N95. E não estamos falando apenas de proteção adequada para médicos e enfermeiros, mas inclusive para quem trabalha desde a recepção também. Em 2018, já haviam demitido cerca de 350 profissionais. Nos últimos dias, foram mais próximo de 50, mesmo com toda a carência atual e que ainda vai aumentar”.

A trabalhadora Márcia Barbosa, uma das diretoras do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), também relata várias denúncias dos trabalhadores médicos em todo o Estado. “Tivemos muitas reclamações em razão das consultas serem mantidas, com filas de pacientes. E também em relação aos equipamentos. Sobre as máscaras de proteção não estarem sendo devidamente fornecidas. Estamos verificando tudo, indo até os hospitais. Vamos seguir acompanhando”.

Cláudia Franco, uma das diretoras do Sindicato dos Enfermeiros do Rio Grande do Sul (Sergs) também relata o recebimento de várias denúncias de falta de EPI e insumos. “Os profissionais da saúde têm de usar proteção. Mas há instituições que estão achando que não é assim. Estamos recebemos reclamações dos enfermeiros em relação a essa percepção de que não é todo mundo que deve usar máscara. Mas há casos assintomáticos, que preocupam”.

No Rio de Janeiro uma das lideranças do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (SindMed), Alexandre Telles, denunciou no dia 23 de março que além da falta de EPI, os casos de assédio moral têm aumentado. "Vemos os profissionais muito apreensivos, nos chegam queixas de assédio moral. Temos recebido denúncias não só de falta de EPI, mas também de unidades de saúde que não têm sabão para os médicos lavarem as mãos. Por isso, entramos com três ações judiciais de antecipação de tutela para a imediata normalização da disponibilidade desses insumos".

Também no dia 23 de março trabalhadores de várias unidades de saúde e hospitais em São Paulo realizaram várias denúncias para os respectivos sindicatos das categorias. Um dos trabalhadores que preferiu não se identificar denunciou que a justificativa é que nem todos precisam de EPI, recomendação contrária a que ocorre em outros países. “A justificativa é que não tem máscara e que não precisa nesse estágio da propagação do vírus aqui em São Paulo”.

No Hospital Campo Limpo, na zona sul, os trabalhadores mostraram prateleiras sem luvas para procedimento, além do baixo estoque de álcool líquido. Enquanto isso, no Hospital Dr. Carminio Carichio, na zona leste, as prateleiras com kits para o atendimento contra o coronavírus também estão vazias. No prédio da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (COVISA) não há sabão nos banheiros para lavagem das mãos. 

Já no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), na Penha, zona leste, os trabalhadores relataram que não é possível saber a procedência das luvas, pois já chegaram manipuladas. Em outras unidades, como o CRAS Capela do Socorro, zona sul e da Vila Nova Cachoerinha, zona norte, foram enviadas luvas fabricadas em 2013, ou seja, fora do prazo de validade, pois esse material tem prazo de validade apenas de cinco anos.

Um trabalhador da UBS Santo Estevão, zona leste, que preferiu não se identificar, denuncia que trabalhar com falta de EPI é uma falta de respeito com os trabalhadores. “Está todo mundo com medo, se sentindo impotente, vulnerável. A maioria tem filho pequeno, tem pais idosos, que acabam cuidando das crianças. Para mim é uma grande falta de consideração e respeito com o profissional da área da saúde. Fico indignada. Em outros lugares, essas pessoas estão sendo liberadas para home office. Mas quando é funcionário da saúde isso não acontece mesmo a gente sendo mais expostos do que outras áreas”.

Outro trabalhador que também não quis se identificar denuncia que apesar do risco precisam continuar para não perder o emprego. “Estamos acuados. De um lado temos medo por causa do risco de contaminação que corremos, mas, por outro, temos medo de perder o emprego. Seguimos a caminhada pelo amor a profissão e para sustentar nossa família”, disse um terceiro servidor da UBS. 

Outra trabalhadora do Hospital Santa Marcelina, Zona Leste, também optou por não se identificar, relata falta de roupas preventivas, utilizadas em cirurgias, e falta de máscaras. “Não tem roupa preventiva e nem máscara N95 para todos. Só tem máscara comum e não dá para ser trocada no tempo recomendado”

Em 24 de março trabalhadores de saúde dos hospitais públicos de Macapá iniciaram uma campanha nas redes sociais cobrando melhores condições de trabalho e mais EPIs, além da contratação de mais profissionais.

Em Rio Claro, distante cerca de 175 Km de São Paulo – SP, os trabalhadores denunciaram no dia 26 de março a falta de EPIs e de medicamentos, temendo represálias eles preferiram não se identificar. Um dos trabalhadores denuncia a falta de protocolos e treinamento das equipes, além disso trabalhadores considerados do grupo de risco, devido possuírem idade acima de 60 anos, continuam trabalhando. “Rio Claro é a única cidade que não tem um fluxograma ou plano de contingência para o COVID-19. O sistema de saúde não está seguindo as regras propostas pelo CRM ou Corem. Não há proteção para os funcionários que pertencem ao grupo de risco, por exemplo. A mesma equipe que atende uma suspeita de coronavírus atende um infartado.”

Enquanto outra trabalhadora denuncia que além da falta de EPI faltam medicamentos. “Entendemos o momento em que os fabricantes não conseguem suprir a demanda, embora mantenham a produção, mas algumas decisões não fazem sentido. EPI é obrigação fornecer. Estão em falta medicamentos como Dipirona, Dramim, Bricanyl, Omeprazol, Ranitidina, bombinha de Aerolin 1, sem espaçador para as crianças”.

No Hospital Dr. Carminio Carichio, na zona leste, as prateleiras com kits para o atendimento contra o coronavírus estão vazias. Foto: Redes Sociais

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