Governos e polícias agridem os povos com pretexto de coronavírus

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Polícia Queniana força trabalhadores a se deitarem no chão, aglomerados, após ter atirado gás lacrimogêneo contra eles, horas antes do toque de recolher imposto durante a crise sanitária agudizada pelo Coronavírus.

Em diversas partes do mundo, os governos reacionários de diferentes países se utilizam da crise sanitária, econômica e social agudizada pelo novo coronavírus para aumentar a repressão contra o povo. Em países semicoloniais como África do Sul, Quênia e Índia, denúncias, fotos e vídeos mostram policiais utilizando bastões, gás lacrimogêneo, balas de borracha e canhões de água contra o povo. Na ilha Mauritius, foram registrados ainda casos de tortura.

África do Sul

Na África do Sul, em Johanesburgo, a polícia foi gravada gritando com sem-tetos e os agredindo com bastões, minutos após o toque de recolher de três semanas no país ter sido anunciado no dia 27 de março. A polícia e seguranças privados, nessa ocasião, arrombaram a entrada na casa do advogado Elisha Kunene, de 26 anos, que filmava com o irmão, de dentro de casa, os policiais ameaçando queimar os pertences dos desabrigados das redondezas, tendo em vista que a quarentena exige que o governo aloje os desabrigados em locais temporários.

“Eles revistaram a casa toda, tiraram tudo dos nossos bolsos, repreenderam-nos e nos ameaçaram com agressões”, disse o Kunene. “Foi definitivamente uma transgressão e uma busca ilegal”.

Imagens também mostram, no dia 28 de março, soldados usando balaclava chutando e espancando trabalhadores que moram na periferia, que estavam fora de casa. “Você está dizendo que o presidente fala merda? Fora daqui, porra!”, disse um soldado enquanto os espancava.

A polícia também utilizou canhões de água e balas de borracha para dispersar as pessoas que faziam fila fora das lojas de alimentos, uma atividade permitida sob a quarentena no país. Enquanto a pequena-burguesia sul-africana conseguiu, na sua maioria, estocar suprimentos dias antes da quarentena, as filas de espera têm sido longas nos bairros pobres e nas áreas do interior da cidade, onde os trabalhadores não haviam nem recebido seus salários antes do toque. Cerca de 55 pessoas foram presas durante a aplicação da medida do toque de recolher no país. 

Em Ruanda, o primeiro país da África Subsaariana a impor o toque de recolher, acredita-se que a morte de dois homens foi ocasionada pela polícia após a resistência dos mesmos à detenção por “violarem” o toque.

Mauritius

Homem é submetido à tortura pela polícia durante a aplicação do toque de recolher, na ilha de Mauritius

Na ilha de Mauritius, na costa sudeste Africana, após a declaração do toque de recolher, na última semana de março, dois irmãos foram hospitalizados horas após serem detidos e torturados pela polícia durante o toque. 

Vídeos gravados pelos próprios policiais mostram os cães de guarda do velho Estado torturando e abusando verbalmente dos homens ensanguentados e algemados. Um deles está sentado no chão e é ameaçado com uma arma de fogo depois de ter sido salpicado com água. O detido então grita: “Você vai me matar!”. 

A mesma filmagem mostrava o outro homem algemado deitado inerte no chão ao lado de um rasto de sangue. Ele está sendo chutado enquanto uma voz masculina pergunta: “você está morto?”. 

Armas de choque foram utilizadas contra os irmãos, que estavam ensopados em água.

Índia

Já na Índia, vendedores informais e ambulantes, transeuntes, trabalhadores e migrantes que saíam de suas cidades para trabalhar nas capitais foram constantemente espancados com bastões e humilhados pela polícia indiana. As forças de repressão espancaram os vendedores e roubaram suas mercadorias, e nos transeuntes, batiam com bastões e forçaram-os a fazer coisas do tipo agachamentos e flexões na rua. 

 A repressão ostensiva iniciou-se na última semana de março, quando foi imposta a quarentena por 21 dias.

Dois irmãos, vendedores ambulantes na índia, que entregam legumes à domicílio, relataram o abuso policial para o monopólio de imprensa BBC. Suresh, um dos irmãos, conta que os policiais se aproximaram da carroça e começaram a gritar com eles usando uma linguagem abusiva.

Suresh tentou explicar, mas antes de perceber o que estava a acontecer, um dos polícias bateu-lhe com força com um bastão. Ele foi atingido mais algumas vezes e depois forçado a arrumar a carroça e sair. Isso significou uma perda de cerca de 3 mil rúpias (40 dólares) porque ele não conseguiu vender nada.

“Fui atingido com tanta força que ainda hoje estou sofrendo para me sentar. Mas o que dói ainda mais é que foi uma enorme perda para mim, pois só ganho cerca de 300 rúpias por dia em lucros”, disse ele.

Vendedores de legumes como ele estavam “acostumados ao assédio da polícia”, acrescentou ele. “Eu sei o risco do coronavírus e é por isso que nosso papel é mais importante agora do que nunca”, explicou.

Seu irmão disse que fizeram uma pausa por um dia e voltaram ao mercado. “Precisamos sair e fazer dinheiro para as nossas famílias. Mas, mais importante, as pessoas precisam de suprimentos e nós estamos ajudando-as a ficar dentro de casa. Precisamos de apoio e não de espancamentos e abusos”, protesta Ramprasad Shah.

Quênia

A polícia disparou gás lacrimogêneo e canhões de água contra passageiros da balsa no Quênia, durante o primeiro dia do toque de recolher no país, no fim de março. 

Vídeos da repressão brutal mostra muitos transeuntes (entre eles idosos) chorando e vomitando por efeito do gás, o que facilitaria muito mais a propagação do vírus. A repressão aconteceu horas antes do toque de recolher começar, e os trabalhadores que foram atacados dizem que estavam lá justamente para poderem chegar em casa à tempo do toque.

Noutro local, os agentes foram capturados em filmagens agredindo trabalhadores informais e transeuntes com bastões.

O governo do Quênia não revelou quantas pessoas foram detidas durante a repressão, mas, como os tribunais também são afetados por medidas de prevenção ao vírus, todos os casos, exceto os graves, serão agora tratados nas delegacias de polícia. Isso significa que qualquer pessoa detida por violar o toque de recolher obrigatório terá de passar seu tempo em celas cheias.

Os próprios agentes e servidores da saúde do país informaram os jornais locais de que sentem medo de saírem de suas casas para trabalhar, temendo os abusos da polícia. Diante disso, a Sociedade dos Advogados do Quênia anunciou que “evidentemente o Covid-19 será espalhado mais por ações da polícia do que por aqueles que esses alegam ter violado o toque de recolher”.

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