Demissão de Moro: a Bolsonaro só resta golpe ou rendição?

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A demissão de Sergio Moro do Ministério da Justiça, na manhã de 24/04, aproximou a pugna palaciana a desfechos perigosos. Bolsonaro suportou Moro até aqui compondo com o governo militar de fato imposto pelo Alto Comando das Forças Armadas (ACFA), que ocupou os postos chaves do Planalto com seus generais. Estreitou-se em demasia a margem para acordos no Palácio. A Bolsonaro está cada vez mais restando escolher: o autogolpe ou a rendição? O seu isolamento político aumentou a pressão pelo impeachment, mas isso pode ser a gota d’água para sublevações em quartéis. Contra o aventureirismo bolsonarista, os generais – instruídos pela Embaixada ianque e a serviço do núcleo do establishment local (camada superior dos banqueiros, do agronegócio, do monopólio de imprensa etc.) – têm mantido o plano contrarrevolucionário de impor um regime de centralização máxima do poder no Executivo, com cobertura legal e aparência de “democracia”, para cujo êxito necessita da normalidade institucional. Mas, na iminência de sublevações de quartéis, os generais e Bolsonaro podem se unir na culminação do golpe contrarrevolucionário preventivo em curso desde a instalação da Operação “Lava Jato”.

 A crise palaciana atual iniciou o movimento de agravamento mais recente quando Bolsonaro exigiu que o comando da Polícia Federal (PF), na mão de um homem de confiança de Moro, Maurício Valeixo, passasse a alguém de sua “completa confiança”, alegando que ninguém o “informa de nada”.

A demissão do idolatrado “superministro” Moro ocorre em novas circunstâncias: 1) pandemia do coronavírus e grande avalanche da crise econômica se avizinhando, 2) revolta dos milhões de desempregados com a merreca de R$ 600 e dos trabalhadores contra redução de salários, suspensão “temporária” de contratos e demissões, além da revolta com a total precaridade do sistema público que deixa as massas ameaçadas pelo verdadeiro morticínio – revoltas que persistem mesmo sob a pressão do “isolamento impositivo”, 3) radicalização do fascista Bolsonaro, participando de atos que pediam regime militar e o Ato Institucional no 5, isto é, poder absoluto ao presidente e fechamento do Congresso e suprema corte; 4)  processos de impeachment e investigações contra Bolsonaro  e seu clã, especialmente seu filho Flávio, e outros tantos.

Conforme afirmamos no Editorial Século XXI e medievo: A falência histórica e política do sistema imperialista, Bolsonaro aproveitava a nova situação do coronavírus e suas consequências na economia em decomposição para difundir a sua agitação de que “o isolamento social não passa de uma conspiração para paralisar a economia e derrubá-lo”, expondo as entranhas palacianas de luta pelo poder. Aceno através do qual Bolsonaro visa, fazendo-se de “perseguido” e “injustiçado”, acumular forças e capital político, formar opinião pública e disputar a liderança das Forças Armadas reacionárias com seu atual Alto Comando, para tomar o poder e instaurar seu regime fascista.

Com sua agitação, Bolsonaro alcançou um isolamento sem igual até aqui nos meios políticos e no seio das classes dominantes mesmas, resultando na instituição, informalmente, duma “presidência operacional” nas mãos do general Braga Netto. Fato repercutido publicamente e nos meios militares. Em compensação, o fascista alcançou alguma repercussão, especialmente entre de pequenos proprietários arruinados e semiarruinados do comércio e serviços, bem como de parte do semiproletariado. Setores populares estes já tendentes a tal adesão ante o embrutecimento e miséria potencializados pela galopante situação do corona-crise.

Aproveitando-se do desgaste das instituições em grande parte da população, principalmente das massas desamparadas e desesperadas, Bolsonaro intentou dar um salto em seu projeto, com a manifestação do dia 19/04, certamente puxada por ele mesmo através de suas escusas ligações. Tal ato golpista e fascista, o qual tratamos já no AND, foi realizado, a propósito, em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília, no dia de sua celebração, com consigna própria: “Intervenção militar com Bolsonaro no poder!”. A agitação encontrou eco nos setores populares já citados, embora não tenha sido capaz de mobilizá-los, ainda.

Ante tal situação de ofensiva tática da extrema-direita e sua repercussão, o ACFA (direita militar sabuja do imperialismo ianque) seguiu orquestrando o monopólio de imprensa (Rede Globo à cabeça) e seus quadros na PF e Ministério Público (especialmente a Força-tarefa da “Lava Jato”) para manter Bolsonaro contra a parede com a chantagem das investigações criminais. Contam, para tanto, com sua coalizão de reacionários de marca maior, como Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre e demais partidos da direita tradicional e, ainda neutralizando o campo da falsa esquerda oportunista, que acoelhado em sua mendicância democrática, torce pela substituição de Bolsonaro por Mourão, fazendo o jogo do também contrarrevolucionário governo de fato dos generais.

Vejamos que, por exemplo, no dia 21/04, o ministro do Supremo, Alexandre de Moraes, atendeu a pedido do procurador-geral, Augusto Aras (que não citou nomeadamente Bolsonaro), e abriu inquérito para investigar quem está por trás dos atos que pedem um golpe militar, inclusive o ato qual participou Bolsonaro. Na decisão do ministro reacionário, é “imprescindível verificar a existência de organizações e esquemas de funcionamento de manifestações contra a democracia e a divulgação em massa de mensagens atentatórias ao regime republicano, bem como as suas formas de gerenciamento, liderança, organização e propagação que visam lesar ou expor a perigo de lesão os direitos fundamentais, a independência dos poderes instituídos e ao Estado Democrático de Direito, trazendo como consequência o nefasto manto do arbítrio e da ditadura”. Tal inquérito, ressalte-se, pode ser usado em investidas contra o movimento popular combativo.

Depois, no dia 23/04 (um dia antes da demissão de Moro) uma equipe da PF vaza que quem está por trás das redes de fake news é Carlos Bolsonaro, o de sempre. Ele é apontado por coordenar os ataques golpistas ao parlamento e à suprema corte. Processos de impeachment agora também juntam-se aos manejos para imobilizar Bolsonaro.

É evidente que todas essas iniciativas golpistas e crimes cometidos pelo clã Bolsonaro são de conhecimento da PF e de todo ACFA há tempos, porém são instrumentos manejado pelos generais para contornar as crises políticas e pressionar Bolsonaro a seguir sua diretriz. Tal diretriz consiste em alcançar maior centralização de poder, subtrair funções do parlamento e da suprema corte, porém mantendo-as em aparente “funcionamento regular”, como meras assessorias do Executivo. Ou seja: um golpe de Estado via “legalidade”, para se assegurar o máximo possível de “legitimidade e estabilidade” – t​al como predicou o então comandante do Exército, general Villas-Boas, em 2017. O golpe preventivo deve levar a cabo as três tarefas reacionárias exigidas pelo imperialismo: criar o ordenamento jurídico e regime político (reestruturação do Estado) necessários a levar a cabo as “reformas” por tirar o país da crise econômica e impulsionar o capitalismo burocrático e enfrentar a fúria popular contida, prestes a explodir, para salvar do colapso geral o sistema de exploração e opressão do povo e de subjugação da Nação.

Uma vez impossibilitados de tutelar Bolsonaro para impedi-lo de lançar o país à desordem social generalizada e radicalização da luta de classes, é provável que os generais tenham “um plano B”, de pressioná-lo a renunciar, ameaçando trazer a público os seus podres e de seus filhos, tais como suas ligações com o sumido corrupto Fabrício, com o executado miliciano Adriano e com o assassinato covarde de Marielle. Casos até agora trancados nas mãos dos generais, para levá-lo a um possível processo de impeachment. Naturalmente esse processo se desenvolve por acúmulos e saltos, e certamente a saída de Moro e o isolamento político de Bolsonaro – que agora perde capital político diante da moralista cruzada anticorrupção das “classes médias” pró-Lava Jato – representa contundente impulso nesta direção.

Vaidoso em demasia, sem estoicismo e estofo para a empreitada para qual foi recrutado, Moro, esse boneco do establishment ianque, não aguentou a parada. Sai do governo contra a vontade e planos dos generais, mas endeusado pela Rede Globo. Não há quem não saiba que sua demissão abre uma situação de fim de legitimidade do governo de amplos setores da sociedade. Bolsonaro não cede, pois vê seu clã ameaçado por iniciativas da PF, e não lhe restou outra atitude do que interferir na PF, ao custo de enxotar Moro. Mantendo vivo seu projeto golpista pôs em xeque a já esfrangalhada estabilidade institucional. Se não abandonar sua agitação, em breve sinalizará que está decidido e trabalhará para criar o momento propício à tentativa de culminar o próprio plano de golpe.

Resta saber se tal isolamento político e desmoralização do bolsonarismo fará o fascista retornar à coleira do ACFA, ainda que momentaneamente, ou se a repercussão relativa que sua agitação alcançou em setores populares e das Forças Armadas o lançará ainda mais na aventura golpista. Com suas hordas de extrema-direita e possível ameaça de sublevação de quartéis, pode ser que Bolsonaro leve o Alto Comando a chegar a um acordo, sob sua hegemonia, por impedir uma perigosa cisão nas Forças Armadas, o que seria também a culminação do golpe militar preventivo.

Nesta luta pelo poder já quase desesperada que afunda o país em crise, não está se decidindo nada a favor do povo e da soberania da Nação. É uma luta desesperada dos grupos de poder representantes das frações das classes dominantes locais, serviçais do imperialismo, principalmente ianque. Estes sanguessugas do povo arrastaram o Brasil para as bordas do abismo. Mas nisto eles atiçaram a Revolução! Revolução Democrática atrasada, pendente, sem a qual o abismo e a barbárie irão se impor, fazendo o inferno de hoje parecer paraíso. Mais do que nunca, cabe aos revolucionários e verdadeiros democratas conclamarem as massas populares, ao preço que lhes custem a pandemia imperialista e a violência bestial da reação, a se lançarem às ruas contra toda esta crosta de malfeitores, fascistas, politicastros corruptos, grandes burgueses e latifundiários, todos eles parasitas do povo trabalhador e vendilhões da Pátria.

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