Movimentos palestinos denunciam acordo de coalizão de Israel que iniciará anexação de territórios palestinos em julho

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Palestinos protestam contra o “Acordo do Século” de Trump, na cidade de Hebron, na Palestina, em fevereiro de 2019. Foto: Wisam Hashlamoun/Apa Images

No dia 20 de abril, o atual primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que permanece no cargo após ter ordenado o fechamento do Parlamento e do Judiciário, assinou um acordo de coalizão com Benny Gantz, que saiu vencedor da última farsa eleitoral do país, cujo objetivo é levar a cabo a anexação da Cisjordânia (território palestino) ocupada pelo sionismo. A resolução define que Netanyahu permanecerá como Chefe de Estado por 18 meses, e nomeia Gantz “Primeiro-Ministro Alterno”, que assumiria o cargo oficial por mais um ano e meio após esse período com Netanyahu no posto.

Os termos do acordo prevêem que Israel anexe, a partir de 1º de julho de 2020, pelo menos 30% da chamada Área C da Cisjordânia, incluindo todos os assentamentos israelenses ilegais construídos nela no decorrer das últimas décadas. 

O novo governo que se forma com a definição da coalizão possui uma maioria parlamentar sem precedentes para expandir o território de Israel sobre as regiões da Judeia, Samaria e o vale do rio Jordão, incluindo a antiga cidade de Jericó. 

VALOR ESTRATÉGICO

Em setembro de 2019, quando Netanyahu anunciou sua proposta de anexação, o genocida se referiu às Colinas de Golã - internacionalmente reconhecidas como território da Síria, ocupadas por Israel em 1967 e posteriormente anexadas, em 1981 -, ao vale do Jordão e ao norte do mar Morto como “a fronteira oriental do Estado de Israel”.

A região em questão tem um alto valor estratégico, tanto pelos seus recursos geográficos, quanto no sentido militar. O rio Jordão constitui uma barreira natural entre Israel e a Jordânia, fluindo para o sul do mar da Galiléia e alimentando o mar Morto por seus quase 300 quilômetros de extensão. 

Além disso, uma grande parcela desse território consiste em terras férteis e aráveis, por estarem localizadas no vale de um rio, e possui um enorme potencial para projetos agrícolas e de energia. Já o mar Morto é um dos principais pontos turísticos de todo o Oriente Médio, além de oferecer potencial para extração de sal e minerais. 

No entanto, os parágrafos 28 e 29, as duas seções do acordo de coalizão, sequer mencionam as palavras “Palestina” ou “palestinos”, apesar de afirmarem cinicamente que “O Primeiro Ministro e o Primeiro Ministro Alterno trabalharão juntos e em coordenação para avançar um acordo de paz com todos os nossos vizinhos e para avançar a cooperação regional em uma variedade de esferas econômicas”. 

Proposta de anexação feita por Netanyahu em setembro de 2019. Fonte: The New York Times

'EM TOTAL ACORDO COM O USA’

O parágrafo 28 também afirma que, “No que diz respeito à declaração do presidente Trump [sobre o “plano de paz”], o primeiro-ministro e o primeiro-ministro alternativo agirão em total acordo com o Estados Unidos (USA), inclusive com os americanos em relação aos mapas e ao diálogo internacional sobre o assunto”. 

Escancara-se, assim, o papel cristalino de principal lacaio do imperialismo ianque que Israel possui na esfera regional do Oriente Médio, de completa submissão aos seus interesses geopolíticos. 

O trecho citado refere-se ao chamado “Acordo do Século”, uma absurda proposta travestida de “plano de paz” divulgada pelo cabeça do imperialismo ianque, Donald Trump, no início de 2020. Entre seus múltiplos pontos, o documento dá sinal verde para Israel anexar um terço da Cisjordânia e estabelece uma partilha de verdadeiro cunho colonial do território palestino. 

O projeto do imperialismo ianque prevê a criação de um Estado palestino sob seus conformes, exigindo, por exemplo, que o país fosse proibido de possuir Forças Armadas e se comprometesse com a desmilitarização completa de todos os grupos de Resistência Nacional palestina, como o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que governa a Faixa de Gaza

Outra chantagem prevista é de que tal Estado palestino reconhecesse Israel como um Estado judeu, porém só obteria o reconhecimento de Israel e do USA após um período de quatro anos em que ele deveria se adequar às imposições imperialistas..

Outro ponto absurdo do “acordo do século” define que Jerusalém, considerada sagrada tanto para muçulmanos, quanto para judeus e cristãos, seria a “capital indivisível” de Israel, enquanto à Palestina seria relegada a ter como capital um agregado de várias “áreas” da Jerusalém Oriental, para além da barreira de separação de Israel, que abrangem Kafr 'Aqab e o campo de refugiados de Shuafat e Abu Dis. Além disso, o plano coloca os pontos sagrados para o Islã do Monte do Templo e o complexo de Al-Aqsa sob soberania israelense, rejeitando as antigas reivindicações palestinas de que os sítios ficassem sob custódia da Jordânia.

‘A PALESTINA NÃO ESTÁ À VENDA!’

O Hamas afirmou que o acordo Netanyahu-Gantz “confirma o fracasso do chamado processo de paz”. Fawzi Barhoum, porta-voz do grupo, declarou que o acordo “confirma nossa convicção de que a entidade israelense é inimiga do povo palestino e a maior ameaça para a região”. 

Já Yousef al-Hasaineh, membro da Jihad Islâmica Palestina (PIJ), disse que a resolução “constitui um passo avançado no caminho para a implementação do ‘Acordo do Século’, que tem como alvo a questão palestina”. 

Hanan Ashrawi, membra do Comitê Executivo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP, movimento que capitulou à luta combativa na década de 1980) asseverou, em uma longa declaração, “que os partidos políticos israelenses estão inequivocamente comprometidos com o entrincheiramento e a permanência do conflito, bem como com a opressão perpétua do povo palestino com o total apoio do governo Trump”. 

Ashrawi ainda afirmou que o acordo de unidade “revela as verdadeiras cores dos partidos políticos israelenses e prova sem dúvida a morte da chamada esquerda em Israel”, referindo-se à falida esquerda eleitoreira israelense que, em parte, se traveste de apoiadora dos “direitos humanos” dos palestinos, mas na prática apoia todos os projetos de anexação. 

Os movimentos palestinos mais combativos cobram que o Egito e a Jordânia suspendam suas relações com Israel imediatamente, e postulam que é inaceitável que a Autoridade Nacional Palestina (ANP) ainda não tenha suspendido a coordenação de segurança que possui com as Forças de Defesa de Israel (FDI). 

A ANP, que governa a Cisjordânia, tem se mostrado cada vez mais entregue ao servilismo e subjugada à Israel. Dominado pelo pensamento pacifista do Fatah, principal partido que compõe a ANP, a Autoridade se mostrou incapaz de resistir e impedir o avanço da colonização israelense na Área C da Cisjordânia.  

Segundo o Departamento Central de Estatísticas de Israel, em 2018 havia mais de 430 mil israelenses vivendo nas 121 colônias oficialmente reconhecidas na Área C da Cisjordânia. 

Desde a apresentação do “acordo do século”, dezenas de manifestações ocorreram na Cisjordânia, em Jerusalém e na Faixa de Gaza, bem como em diversos outros países, como o Catar, o Reino Unido, o USA e o Brasil, reivindicando a autodeterminação do povo palestino. Devido a oferta de Trump de 50 bilhões de dólares para a Palestina caso ela se submeta às suas chantagens, a palavra de ordem nos protestos têm sido A Palestina não está à venda! O primeiro protesto de todos a ser registrado aconteceu na noite do dia 24 de janeiro, em que moradores do campo de refugiados de Deheisheh, na Cisjordânia, queimaram pneus e imagens de Trump e Netanyahu.

Manifestantes palestinos queimam imagens de Trump, Mike Pompeo e Benjamin Netanyahu em protesto contra o “acordo do século”. Foto: AFP

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