O Coronavírus no meio das disputas interimperialistas

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O novo Coronavírus fez acirrar a guerra comercial ente USA e China. Kevin Lamarque/Reuters

A epidemia de coronavírus veio para escancarar que, sob o palavrório da economia integrada, da globalização produtiva, da liberdade de comércio e da perda da centralidade dos Estados nacionais, quando toca o sinal da emergência da defesa do ”interesse nacional”, a lei do Estado mais forte prevalece.

Episódio 1 – O papel da China na produção de insumos para a saúde

Como no caso de outras chamadas “cadeias globais de valor”, na saúde, várias indústrias imperialistas se localizaram na China e outros países asiáticos, desde os anos 90, num processo de busca pelos monopólios de mão-de-obra barata e incentivos fiscais que esses países ofereciam e, com isso, aumentaram a taxa de mais-valia visando contornar a crise estrutural do capital iniciada nos anos 70. Essas empresas fazem intensas trocas de produtos que compõe a cadeia produtiva entre suas unidades em diferentes países para atender os mercados, obtendo vantagens competitivas (matérias-primas mais baratas para produzir insumo associadas ao trabalho especializado com menor remuneração). Com a restauração capitalista da China, após a morte do Presidente Mao (1976), se estruturou um processo de associação do capital nacional estatal com os monopólios privados e abertura ao investimento externo direto, gerando um intenso crescimento industrial nesse país. Entretanto, muitas das indústrias lá existentes funcionam como “maquillas “, isto é, montadoras de tecnologia produzida pelos monopólios estado-unidenses e europeus.  Pois, nesse novo modelo produtivo, os monopólios não terceirizam a inovação, que fica sob seu controle, mas a produção do bem final pode ser localizada onde for mais conveniente. Essas indústrias abdicam de produzir bens que possuem uma tecnologia de baixo conhecimento agregado e baixa lucratividade, que passaram a ter vantagens de custo nas indústrias chinesas, que fizeram seus produtos mundialmente competitivos.

O que se atribui de dificuldades de compra de produtos médicos da China tem que ser melhor caracterizado.

No caso de máscaras cirúrgicas, produto de baixa intensidade tecnológica, o Leste da Ásia se tornou um grande mercado para o consumo devido a sucessivas epidemias de virose respiratória, população adensada e hábito do uso regular de máscaras pela população. Essa região responde por 33% do mercado. Os produtores da China e índia lideram o mercado mundial. A China também lidera os mercados de escudos faciais de proteção, roupas, luvas e óculos onde 43% das importações mundiais vêm da China. O baixo custo da produção mantém a liderança do mercado.

No caso dos respiradores pulmonares, a situação é diferente por integrar uma cadeia global valor. A China produz a metade dos respiradores pulmonares no mundo. Porém, mesmo essa metade estaria comprometida pois o país afirma estar com a sua capacidade de fabricação prejudicada devido à proibição, pelos Estados Unidos e por países da União Europeia, da exportação de peças e componentes para a produção. Com isso, as empresas chinesas têm dificuldades para atender à demanda internacional, inclusive do Brasil. No entanto, do ponto de vista do capital, no mundo, 50% do mercado é concentrado em 5 empresas. A principal é a Philips Healthcare (Holanda), seguida por ResMed Inc. (U.S.A.), Medtronic plc (Islândia), Becton, Dickinson and Company (U.S.A.), and Getinge Group (Suécia). A Medtronic, por exemplo, tem uma vasta rede de distribuidores e subsidiárias na Ásia, América Latina e África.

No caso dos testes diagnósticos in vitro, que representam um dos mais dinâmicos e maiores segmentos do mercado de produtos médicos, a tecnologia básica se concentra nos monopólios dos países imperialistas ocidentais e a terceirização da montagem também é fato, gerando a dependência dos insumos para os produtores finais. O coordenador do laboratório de Virologia da UFRJ, que tem feito esforço imenso de produção interna de kits para diagnóstico de Covid-19, se queixava recentemente de não conseguir obter o insumo necessário no mercado internacional.

Em resumo, com exceção de máscaras e produtos de proteção, de tecnologia conhecida e barata, é falso que a China se tornou a monopolista da produção de respiradores e testes diagnósticos para Covid-19. Suas empresas participam de cadeias globais de valor dominadas, em sua maior parte, por multinacionais estadunidenses e europeias com plantas localizadas na China ou em associação com empresas chinesas.

Episódio 2 – A rapinagem de equipamentos e insumos pelos Estados Unidos

Fica claro que a maioria dos países, inclusive os imperialistas europeus e o USA, não se prepararam para a pandemia de coronavírus e, quando a situação estava instalada, correram para adquirir insumos e equipamentos necessários ao seu enfrentamento. Nessa corrida, o USA impôs pelo dinheiro e pela força um “direito de pernada”, ou seja, ser o primeiro a atender suas necessidades usando de quaisquer meios.

Países como Brasil, França e Canadá questionam cancelamentos de pedidos de compras de insumos por empresas chinesas. Segundo notícias publicadas no início de abril, máscaras que chegaram aos Estados Unidos da China haviam sido encomendadas pela França. Autoridades francesas afirmaram que a França não recebeu o material porque os Estados Unidos teriam oferecido um valor três vezes maior por elas. O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, também pediu para que as autoridades investigassem o suposto desvio de máscaras do país para os Estados Unidos. Henrique Mandetta, ex-Ministro da Saúde nessa ocasião, afirmou que compras brasileiras haviam sido canceladas depois que os Estados Unidos negociaram o envio de mais de 20 aviões à China para buscar suas próprias aquisições de equipamentos de proteção. Além disso, um grupo de governadores do Nordeste afirmou que havia comprado 600 aparelhos respiradores chineses, que seriam distribuídos na região, mas a carga foi interditada no aeroporto de Miami. O embaixador da China no Brasil respondeu que os equipamentos haviam sido retidos na alfândega dos EUA e depois revendidos para outra cidade americana.

A própria Organização Mundial da Saúde manifestou preocupação com o fato de, com o aumento da demanda mundial, respondida por aumento de preços dos fabricantes destes produtos, haveria uma desvantagem para os países pobres e de renda média no acesso aos produtos.

Tudo isso somente confirma a constatação de Lenin no início do século XX de que o imperialismo cria hierarquias de poder dentro de uma suposta igualdade de mercado entre quem é dominante, que garantem essa posição por meios econômicos e militares e quem é dominado. E nisso, a superpotência hegemônica, o USA, usou bem de sua posição para defender o seu “interesse nacional”, com métodos que rasgaram a liberdade de comércio e o Direito Internacional. Com isso, acirraram as contradições Inter imperialistas e com as nações subjugadas.

Episódio 3 – EUA promete mandar a sobra dos insumos médicos para o Brasil

Ao contrário da França e do Canadá, não só o governo Bolsonaro/generais não explicou claramente o que ocorreu com os insumos que comprou e foram retidos nos EUA (o que foi cobrado inclusive pelo senador Serra do PSDB!!), como ouviu calado provocações do Secretário de Estado do USA, Mike Pompeo.

Em 14 de abril, ou seja, após os episódios pouco esclarecidos da retenção dos equipamentos brasileiros em Miami, Pompeo veio a público dizer que o Brasil poderá contar com o apoio dos Estados Unidos para conseguir itens importantes no combate ao coronavírus, mas terá de esperar que a situação melhore no território americano. Desculpa esfarrapada que só serve para confirmar o sequestro dos respiradores no aeroporto de Miami e inócua, pois a epidemia no USA vai de vento em popa em paralelo a do Brasil. A não ser que eles queiram empurrar a sucata para o Brasil comprar quando não for mais necessária e ainda posarem de bons samaritanos. E a diplomacia brasileira, sempre achando uma oportunidade para mostrar seu servilismo ao amo, não toma as dores do seu país.

Episódio 4 – A China passa a ser alvo da extrema-direita estadunidense e seus ventríloquos brasileiros

Não é por falta de êxito na aquisição dos insumos chineses que Donald Trump lança uma série de acusações a China. Há que entender o fato situado nas disputas inter-imperialistas e na pugna por ver quem sairá em melhores condições econômicas da profunda crise da economia capitalista mundial que já ocorria antes mesmo do atual episódio do coronavirus. Trump acusa o laboratório de pesquisa de Wuhan (China) de supostamente ter deixado escapar o coronavirus por ele sintetizado, acusação esta repetida pela extrema-direita no Brasil com a alcunha “vírus chinês”. Até o consulado da China no Rio de Janeiro foi pixado com essa acusação por uma organização da extrema-direita. Essa acusação foi desmentida por pesquisadores dos USA em importante revista científica (Nature) dizendo que o vírus era natural, quiçá, com medo dos chineses seguirem na acusação contrária, que o Covid-19 foi sintetizado nos EUA e levado para Wuhan em jogos militares que aconteceram logo antes da epidemia.  A extrema-direita no Brasil espalha que a China criou o vírus para vender equipamentos e insumos, como se parte importante do lucro dessa venda não pertencesse aos monopólios do USA e Europa através das cadeiras globais de valor já mencionadas.

Conclusão

O fato é que há uma mudança no papel do USA em que este país declara claramente a defesa dos seus “interesses nacionais” e abandono da retórica da defesa dos “valores ocidentais”. Salama, importante economista francês, está convencido de que acabaram os dias de um sistema de globalização tal como foi praticado até agora e que o momento nos devolve ao fortalecimento dos interesses específicos dos Estados nacionais. Se esses interesses significarem o retorno da produção, principalmente aquela de alta tecnologia, aos países de origem, começando pela saúde que pode ser considerada área de segurança nacional, é pouco provável que a China siga como importante produtor mundial pois não detém o conjunto da tecnologia. Macron, na França, assinalou recentemente que impulsionará a retomada da produção das empresas francesas no seu território pátrio. O USA poderá sair mais fortalecido assim como a Alemanha, que não conheceu, nos últimos 15 anos, um processo de desindustrialização.  Pelo contrário, sua indústria se fortaleceu. É claro que a China, que se transformou em exportadora de capitais para países dominados, como na exploração de matérias – primas na África, entra na disputa interimperilista mundial e ela própria, como seu grande mercado de consumo, é cobiçada pelas outras potências. A instabilidade mundial e as guerras não reduzirão. O imperialismo é a fase parasitária e agonizante do capitalismo. E última.

Neste novo jogo, a situação dos países dominados que já não era satisfatória, será muito mais dramática. Esses países não tem uma indústria que garanta a segurança nacional na saúde. O regime militar facilitou a dominação do capital externo na área farmacêutica, quebrando as poucas empresas nacionais que haviam antes de 1964. Com a deslocalização dos anos 90 em direção ao Leste da Ásia, houve uma desindustrialização brasileira. Mesmo os projetos de produção interna de medicamentos desenvolvidos nos governos do PT são associados com indústrias multinacionais, posição esta defendida em editorial do jornal O Globo de 11 de maio de 2020 que manifestação preocupação que o interesse gerado pela epidemia de Covid-19 na produção interna de insumos não signifique protecionismo. Na área de equipamento de tecnologias complexas, a dependência da produção de multinacionais é quase total. O Estado brasileiro de grandes burgueses e latifundiários submetidos ao imperialismo, principalmente ianque, não têm interesse e estatura para liderar uma transformação que garanta a segurança de acesso a insumos médicos indispensáveis para a saúde do povo. Nem gerido pela extrema-direita e direita, caso atual onde nos restará as sobras de Mike Pompeo, nem pelo oportunismo (PT, Pecedobê) cuja adesão ao modelo associado ao imperialismo, mesmo com bravatas de nacionalismo, já foi notória. O interesse nacional só será obra das classes, de fato, nacionais: o proletariado, o campesinato, a pequena burguesia e a burguesia nacional, caso de posicione de forma patriótica, no desenvolvimento de uma indústria centrada no Estado e sob a direção de um Estado controlado por essas classes.

*Maria de Fátima Siliansky de Andreazzi é Presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos, Professora Adjunta da Faculdade de Medicina e do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da UFRJ

Sites consultados:

https://www.prnewswire.com/

https://www.fortunebusinessinsights.com/industry-reports/medical-devices-market-100085

Bibliografia:

El imperialismo hoy, un homenaje al centenario de la obra de Lenin: El imperialismo fase superior del capitalismo. VI Seminário Internacional sobre capitalismo Burocrático. Rio de Janeiro, 2016.

Fiori,JLC Geopolítica internacional: a nova estratégia imperial dos Estados Unidos. Saúde debate | Rio de Janeiro, v. 42, n. Especial 3, p. 10-17, novembro 2018

Antas Jr., R M Economia política da saúde no território francês e a produção farmacêutica globalizada. Mercator, Fortaleza, v. 18, e18009, 2019.

Jornal O Globo, vários exemplares, inclusive:

https://oglobo.globo.com/mundo/governo-trump-ajudara-brasil-com-equipamento-so-quando-crise-do-coronavirus-nos-eua-melhorar-diz-pompeo-24370548 14/04/2020

https://oglobo.globo.com/mundo/estamos-diante-de-uma-nova-grande-transformacao-diz-economista-frances-sobre-impacto-da-pandemia-24369511

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