BA: Combativo protesto das massas do campo por transporte público de qualidade

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 Brigadistas propagandearam e distribuíram exemplares do Jornal A Nova Democracia para os moradores da ocupação. Foto: Comitê de Apoio do Jornal A Nova Democracia de Feira de Santana 

Com uma das tarifas mais caras do estado da Bahia e com a oferta de um serviço precário e de baixa qualidade, a crise no transporte público de Feira de Santana tem mais um capítulo: os moradores da zona rural do município representados pelo movimento “Zona Rural Unida”, cansados do constante descaso que sofrem por parte da prefeitura e das empresas de ônibus, mobilizaram-se exigindo seu direito a um transporte público de qualidade. O protesto seguiu as orientações sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS), do uso de máscaras e álcool em gel. 

O estopim da última mobilização foi a substituição dos ônibus por um sistema de vans, afetando diretamente a vida dos moradores dos distritos da Matinha (área quilombola) e Maria Quitéria, compostos pelas localidades de Candeal I e II, Sítio do Padre, Matinha, Tanquinho, Olhos D’água, Alecrim Miúdo, Candeia Grossa, Jacu, Mantiba, São José e Lagoa Grande. 

No dia 05/05 trabalhadores dos distritos citados foram surpreendidos com a retirada em definitivo dos ônibus que atendiam a região. O transporte a partir daquele momento seria feito exclusivamente por vans, fato que coloca em risco a saúde e a vida da população, pois ficariam expostos a um transporte extremamente lotado em plena pandemia de Covid-19.  

A retirada foi totalmente arbitraria pois não houve consulta prévia ou comunicado à população por parte dos órgãos da prefeitura, nem da empresa.  

Inconformados com mais esse golpe em seu direito de locomoção, os moradores organizaram um protesto para o dia seguinte em frente à Câmara de Vereadores e, após muita pressão, conseguiram reunir-se com o Secretário Municipal de Transporte e Trânsito, Saulo Pereira Figueiredo. Percebendo que suas reivindicações não seriam atendidas, os trabalhadores resolveram dar mais um passo em sua luta, ocupando a frente da garagem da Empresa Rosa. 

A ocupação ocorreu ainda na madrugada do dia 07/05. Dezenas de trabalhadores, demonstrando toda a força e disposição que as massas possuem para a luta, mantiveram-se firmes e mesmo com a presença da Polícia Militar (PM) impediram que os ônibus saíssem da garagem. A notícia logo correu pela cidade, gerando uma corrente de solidariedade popular em que foram feitas doações de alimentos e itens básicos para que o movimento permanecesse firme em seu propósito.  

Na noite do primeiro dia de ocupação, o Comitê de Apoio ao AND de Feira de Santana esteve no local para saudar as massas pela sua iniciativa e propagandear a imprensa popular e democrática. Foram distribuídos exemplares do jornal e coletado relatos para divulgação da luta.  

Segundo a professora Laíse, moradora do distrito da Matinha, que conversou com os apoiadores de AND, os problemas com o transporte da zona rural são antigos, entretanto, com o passar do tempo a precarização vem se mostrando cada vez mais evidente: “Os distritos sofreram muito quando o Sistema Integrado chegou, que era uma vanzinha que ia buscar na comunidade para trazer até o terminal, onde pegava outro ônibus para o centro ou para a parte sul da cidade e os motoristas não cumpriam os horários. O Sistema Integrado se foi e chegaram as atuais empresas Rosa e São João, no entanto, os problemas permaneceram, horários foram suprimidos e os roteiros totalmente alterados, passando por bairros populosos e aumentando o tempo da viagem”. Com relação à troca em definitivo dos ônibus pelas vans, a professora destaca o prejuízo financeiro, pois as mesmas não fazem a integração no terminal. “Se você vem da Matinha e precisa trabalhar no polo industrial, vai ter que pagar a passagem da van e outra passagem no ônibus para chegar no trabalho”.  

Na manhã do dia seguinte, 08/05, enquanto permaneciam combativos na ocupação, receberam pelo rádio a notícia de que a empresa Rosa iria rescindir o contrato com a prefeitura, demonstrando toda a força que a organização e mobilização das massas possuem. Ao longo do dia foi anunciado uma medida paliativa, na qual a Empresa São João irá operar na zona rural, ação que não satisfaz completamente as reivindicações do movimento que cobra uma solução definitiva do velho Estado. 

Destacamos que toda a mobilização vem ocorrendo em um cenário de pandemia de Covid-19 e que Feira de Santana foi a primeira cidade a registrar contaminação no estado da Bahia, entretanto o gerente de turno Colbert Martins da Silva Filho (MDB) determinou a abertura de grande parte do comércio sem realizar testagem na população, nem preparar adequadamente a rede municipal hospitalar; essa atitude foi determinante para o aumento de casos no município. Segundo estudo realizado por pesquisadores do Instituto Federal da Bahia (IFBA), da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) e voluntários do CoronaVidas.net, houve um aumento de 105% desde o dia 21 de abril, evidenciando que a prioridade são os lucros dos grandes comerciantes em detrimento da saúde e da vida das massas. Neste cenário a implementação de um sistema de vans em uma linha em que nem mesmo os ônibus dão conta da demanda, expondo a população da zona rural a aglomerações em espaços confinados, contribuiria significativamente para a propagação da Covid-19. 

Vivemos hoje uma profunda crise do capitalismo burocrático no país, que ao contrário do que se propaga pelo monopólio de Imprensa, não foi gerada pela pandemia de Covid-19; a chegada do vírus no Brasil apenas escancarou a situação do velho Estado brasileiro, principalmente em relação ao descaso com a saúde, anos de falta de investimento, sucateamento e desrespeito aos profissionais da saúde cobram agora um alto preço, faltam leitos, médicos, enfermeiros, materiais básicos e o resultado é o aumento exponencial de mortes, em sua grande maioria pessoas do povo, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade que morrem sem direito a um tratamento digno. 

Mesmo em meio a um alarmante cenário de crise sanitária as massas não deixam de lutar, observa-se as inúmeras revoltas de trabalhadores contra o descaso que sofrem nas intermináveis filas da Caixa Econômica para sacar o “auxilio emergencial”, ou então a luta de comunidades que se levantam contra a falta d’água, em meio a tantas lutas e cientes de que não podem simplesmente esperar que o velho Estado garanta seus direitos; destaca-se a conformação por todo o país dos Comitês Sanitários de Defesa Popular, orientando a organização popular, realizando a defesa sanitária contra a pandemia e organizando as lutas nesse período de crise. 

O combativo protesto pelo transporte público de qualidade realizado pelo movimento “Zona Rural Unida” de Feira de Santana é mais um exemplo de que mesmo em tempos de pandemia é importante romper o imobilismo e lutar de forma organizada e consciente, demonstram que somente a mobilização das massas pode garantir que o velho Estado respeite seus direitos. 

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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