Ajith: As raízes sociais da Covid-19 são tão importantes quanto o próprio vírus

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Cartaz da campanha internacional pela liberdade da Ajith. Rio de Janeiro, março de 2019. Fotos: Banco de dados AND

A mais alta incidência das mortes da Covid está sendo vista nos países desenvolvidos, onde tem as melhores facilidades de tratamento. Apesar de alguém poder pensar em muitas razões, a principal culpa dessas mortes é das políticas neoliberais, que tem cortado recursos para os serviços públicos de saúde. A falta de tratamento na hora certa é uma das principais causas das mortes nos Estados Unidos e Itália. Muitos não receberam nenhum tipo de tratamento. Para a vasta maioria dos pobres, que não tem plano de saúde privado nos Estados Unidos (a maioria dos afro-americanos e os hispânicos que falam espanhol), mesmo os cuidados primários são impossíveis.

O mesmo é verdade para a classe média desempregada. Eles não foram a um médico quando se sentiram enfermos. Agora, estão forçados a ir, porque a enfermidade saiu do controle. Falta de equipamentos adequados e ou de pessoal tornaram os problemas piores. No início, Trump e outros governantes dominantes imperialistas exibiram alto nível de egoísmo irresponsável. Ao contrário de cuidar da saúde do povo, a preocupação deles foi manter a rotina e a busca de lucros das atividades econômicas. Isto contribuiu muito para a elevação galopante da taxa de mortes onde atuam. E essa perda enorme tem sido causada por uma doença que tem uma taxa de mortalidade pouco maior de dois por cento. Isto mostra, claramente, a absoluta incompetência e o caráter antipovo do neoliberalismo e seu progenitor, o capitalismo.

O papel desses criminosos não termina aí. Existem alguns que argumentam que o advento de tal patógeno foi acidental e ninguém pode parar isso. Existem aqueles que pensam que as deficiências podem, quando muito, ser identificadas nas medidas tomadas ao lidar com esse problema. Existem outros que descrevem isso como uma punição da natureza e há quem se aponha a isso. Certamente a natureza não tem este tipo de poder transcendental para nos punir. E nem fará isso no futuro. No entanto, algo desse tipo certamente aconteceu no sentido das palavras de Engels.

Engels escreveu que apesar do homem se vangloriar de ter conquistado a natureza, no fim, a natureza dará a ele um pesado golpe para lembrar quem é, realmente, o verdadeiro mestre. O que Engels pensou foi sobre as consequências das ações humanas. Estas palavras, que expõem o vazio das reivindicações capitalistas, também mostram o perigo de sua abordagem destrutiva de desenvolvimento.

Isto é visto nas origens e disseminação da pandemia do coronavírus, hoje. Alguns tem reduzido o problema a causas genéticas, apenas. Através disso, eles escondem o papel jogado pelas relações imperialistas que amarram o mundo. Eles começaram também da comida in natura do mercado de Wuhan. Mas, não conseguem jogar na lama os hábitos alimentares chineses, vistos como estranhos pelo olhar orientalista do mundo imperialista. E mais, seus ensaios introduzem as relações sociais e econômicas que são reveladas por este mercado. “Como o setor de alimentação exótica pode chegar a uma situação em que vende suas mercadorias ao lado de animais comidos tradicionalmente, no maior mercado de Wuhan?” Isto é de onde eles começam.

Eles apontam que “por trás das peixarias, a comida selvagem mundial é um setor crescentemente formalizado, sempre mais capitalizado pelas mesmas fontes que respaldam a produção industrial.” Uma cadeia que se estende desde atrás do mercado de Wuhan até o interior do país, onde comidas exóticas e tradicionais crescem através de operações que contraem a área selvagem. Então, um número de cadeias comércio/transporte ligam tais centros a diferentes países e grandes cidades. O coronavírus chegou viajando nesta cadeia como o SARS, aquele vírus que chegou antes.

Algumas empresas multinacionais, como a Johnson & Johnson, prepararam um mapa de viabilidade marcando onde as células de um novo germe podem aparecer no futuro. A visão geográfica que eles adotaram aponta para os países do Terceiro Mundo. Mas, o ensaio da Monthly Review critica esta abordagem e aponta que “focando sobre zonas de explosão ignoram as relações compartilhadas por atores econômicos globais, que configuram epidemiologias.” Quando estas relações são levadas em consideração, não são os países do Terceiro Mundo os piores focos, mas sim as fontes principais do capital global - Nova York, Londres e Hong Kong. Estas novas viroses são nocivas aos humanos e difundidas desde a vida selvagem. Muito mais do que isso está acontecendo hoje nas fronteiras do capitalismo. Isto é, nas áreas restantes de floresta. O desmatamento destrói o habitat da vida selvagem que carrega estas doenças, criando condições para sua disseminação. Dentro de alguns poucos dias, as novas patogenias que começaram sua viagem, escassamente, desde os bosques, se espalharão no globo, protegidas por uma globalização e buscando o seu objetivo no tempo e espaço.

O centro deste ensaio pode ser assim resumido: os vírus, que haviam sido largamente contidos através da complexidade das florestas tropicais, têm sido introduzidos, principalmente, através do desmatamento causado pelo capital e pelo déficit de aplicação de recursos na saúde pública e sanitarização ambiental. 

Em breve, as mudanças nas condições de vida e nas condições ambientais da vasta maioria, causadas pela globalização e políticas neoliberais, estarão na raiz da presente tragédia. Sua solução primária é a destruição do sistema imperialista e o êxito do projeto Comunista. Este é o único caminho para se ter uma humanidade que valorize a vida humana e redima a natureza, da qual essas vidas também são parte.

De fato, ambos, Cuba e Vietnã apontam para essa possibilidade. Estes, hoje, não são países socialistas. São países que foram envolvidos por relações imperialistas de uma ou outra maneira e pela restauração do capitalismo. Quando a China aumentou seus salários, os monopólios globais mudaram-se para o Vietnã. Ainda assim, persistem alguns restos da era socialista.

A área de saúde, em grande parte, está no setor público. Existem organizações que podem contribuir com serviço voluntário em grande escala. Estes países têm sido ajudados, por tais fatores, na luta contra a pandemia. E é possível ver como as conquistas da velha era socialista beneficiaram a China também, agora um país imperialista. Em Kerala, Índia, onde o setor de saúde pública foi, em grande parte, defendido pelas lutas das massas, este tem sido capaz de combater o coronavírus de uma maneira melhor, comparado a outros estados indianos.

Entretanto, hospitais do grande setor privado, desumanamente, tem dado as costas para as pessoas que os procuram com calafrios e febre.

Vamos ver até quando isso vai durar. O impacto que o coronavírus criou, com certeza trouxe um ressurgimento dos cuidados com a saúde. Ainda assim, sua subordinação à dinâmica do capital imporá barreiras. A memória do capital é bastante débil. Há uma grande possibilidade de que as demandas de lucro, uma vez mais, forçarão o setor público a ceder para o campo da privatização. Mesmo que o sistema de saúde pública seja mantido pode ser utilizado como uma grande fonte de dados que servem ao capital. Isto é o que se tem visto no Springer Deal (revista de saúde), que permitiu coletar dados ainda que molestando a intimidade individual.

Os dados recolhidos sob o pretexto de servir ao serviço público de saúde podem se tornar materiais brutos para companhias farmacêuticas, companhias de seguro e outras. Isso é um novo e mais perigoso nível de privatização. O capital será capaz de lucrar enquanto se esconder atrás das estruturas do setor público; absoluta e indiretamente. Modi está promovendo os mesmos controles na aplicação dos programas de saúde na Índia.

Ter um setor público não é suficiente. Deve ser um setor público que, verdadeiramente, sirva ao povo. Mas, isso somente será possível quando ele tomar parte de uma transição até uma sociedade que elimine esta divisão entre o público e o privado na economia e na infraestrutura. Se isso é para ser revivido em qualquer país no mundo, não como sombra de socialismo e sim como transição ao comunismo, como revolução contínua, tem que ser guiado pelas atuais e mais altas teorias comunistas.

21 de abril de 2020

Nota:

* Ajith, 66 anos, é um destacado comunista indiano, defensor da ideologia do proletariado e perseguido pelo velho Estado burguês-latifundiário de seu país. Foi libertado da prisão em 23 de julho de 2019, após quatro anos detido, sob a acusação – jamais provada – de ser dirigente do Partido Comunista da Índia (Maoista), organização clandestina que dirige a guerra popular pela conquista do Poder ao proletariado e o povo no país. O presente texto foi publicado em RedSpark

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