Dois Brasis, cindidos e enfrentados

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Covas rasas em Manaus. Foto: Alex Pazuello/Semcom

Vivemos, na semana passada, dias trágicos para nosso povo. De um lado, vimos as mortes por Covid-19 saltarem de 14.817 no dia 15/05 para 21.048 no dia 22/05, o que dá um impressionante crescimento de 50% em uma semana. Há, ainda, outras 11.000 mortes por síndrome respiratória aguda grave (quadro associado ao novo Coronavírus, como se sabe) cujas causas o Estado reconhece não ter meios para checar. Neste ínterim, o genocídio sistemático contra as massas faveladas, cujo caso mais notório é o do Rio de Janeiro, não cessa: apenas nesta semana, as polícias do terrorista e assassino AuschWitzel perpetraram cruéis chacinas na capital e região metropolitana, resultando na morte de jovens como João Pedro (Morro do Salgueiro, São Gonçalo), Iago César dos Reis (Acari, zona norte), João Vitor Gomes (Cidade de Deus, zona oeste) e Rodrigo Cerqueira (Morro da Providência, região central do Rio). No Complexo do Alemão, no último dia 15, 12 pessoas foram assassinadas numa única operação, e havia em seus corpos evidentes sinais de torturas. 

Esta é a face deste governador do Rio, que outro dia mesmo, na sua polêmica oportunista com Bolsonaro, dizia-lhe que “vidas importam”. Este é o “humanismo de ocasião”, hipócrita, desta gente que só vê na pilha de cadáveres uma boa chance de faturar eleitoralmente (e também faturar muita grana, através de contratos superfaturados).

De fato, uma das manifestações mais candentes, escandalosa mesmo, da falência contundente do sistema político em vigor é o seu descolamento completo da vida real dos milhões e milhões de trabalhadores. Nem como farsa podem os representantes políticos das classes dominantes ensaiar alguma identidade com as massas populares. Bolsonaro e seu séquito golpista, resistente é verdade, mas reduzido - como demonstrou o fracassado ato de domingo - está disposto a vender cada pedaço do Brasil, convertê-lo em colônia norte-americana se necessário, para implantar seu regime fascista. O povo brasileiro, para ele, nada mais é do que uma manada, a ser tratada sob vara, cujos indivíduos podem ser descartados quando já não têm mais condição de serem explorados. No polo que se apresenta como oposto, os “democratas burgueses” enchem a boca para saudar as sacrossantas “instituições”, e são sempre desmoralizados, porque sua institucionalidade rançosa nem consegue garantir direitos efetivos às massas populares nem é capaz de frear decididamente os avanços reacionários. No sábado, por exemplo, dois profissionais da saúde foram presos no Rio enquanto protestavam contra as péssimas condições de trabalho. Sob o pretexto do isolamento social, somente o campo popular não pode se manifestar.

A verdade, amarga para uns, incompreensível para outros, é que trinta anos de semelhante “democracia” senhorial, fajuta, policialesca, só têm acumulado um justo desprezo entre o povo, expresso em números crescentes de votos brancos, nulos e abstenções a cada nova eleição.

Assim, mesmo a crise política ganha ares fantasmagóricos. Somos governados por assombrações, figuras saídas das catacumbas, seres invertebrados, mesquinhos, como estes generais metidos a valentes cujo número de condecorações é inversamente proporcional às guerras que combateram. O enxurro em que se converteu a chamada vida política nacional é mesmo um sinal dos tempos. Claro que acompanhar as idas e vindas dessa crise, seu cenário, suas possibilidades, nos interessa, não para escolher entre uma facção de vampiros e outra, frise-se, mas para conhecer bem o terreno em que teremos de combatê-los. Interessa-nos, sim, mas estaríamos perdidos se esquecêssemos a grande verdade, concreta como todas as verdades, de que a emancipação dos trabalhadores só pode ser obra dos trabalhadores mesmos. Nada temos a esperar deste Estado reacionário, burocrático-semifeudal, fundado numa longa tradição de contrarrevolução. Apostar, a esta altura do campeonato, em saídas conciliatórias, num mal menor, na mera substituição de um gabinete por outro, mantendo intactas as bases deste regime de opressão medieval – cujo cerne é o monopólio da terra, sobre o qual se erigiu todo o restante desta macabra construção – seria enganar-se a si próprio e aos outros. Seria, em suma, cometer o erro de, por temor de usar da guilhotina contra os algozes, permitir que os algozes nos sigam guilhotinando.

A crise educa. Por todo o país, fermentam forças sociais novas, invisíveis até há pouco – mesmo os analistas burgueses se referem assustados a uns “quarenta milhões de invisíveis” – que o agravamento das condições sanitárias, econômicas e políticas pôs em movimento. Excluído desde sempre da luta política, este verdadeiro povo do abismo descobrirá nesse processo que tem direito à existência, reconhecerá os seus iguais, aprenderá a lutar e a se organizar. Ser capaz de despertar esses milhões de miseráveis entre os miseráveis, ser capaz de fundir-se com eles e de convocá-los a tomar parte no que Lênin chamava de “uma fundamental realização histórica”, é a tarefa de todos que pretendem ser lutadores não só em palavras mas também em fatos. E então este povo, que tem demonstrado uma paciência chinesa para suportar toda sorte de sofrimentos, se levantará para o acerto de contas, como fizeram os bestialmente (e, para os ideólogos do velho regime, irrevogavelmente) oprimidos camponeses chineses no período da sua grande revolução. O Brasil do andar de baixo devorará o Brasil do andar de cima. Ou aquele será temporariamente devorado por este, abater-se-á sobre nossa gente um período de trevas e iniquidades ainda piores, até que sobrevenha uma nova situação revolucionária em desenvolvimento.

Dois Brasis, terrível e definitivamente cindidos e enfrentados. Não cabe iludir-se sobre caminhos intermediários; cabe tomar posição.

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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