O que vem depois da dor?

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Uma singela homenagem – mas homenagem de todo o coração - a George Floyd, João Pedro, Àgatha, Miguel e a todos os invisíveis que decidiram se mover. Nada será em vão.

            O cenário na Ilha era de desolação. Nas ruas, os mortos pela peste e pela fome misturavam-se ao lixo revirado por homens e bichos famintos, que logo também estariam mortos. Num céu que se esquecera dos homens, sobrevoavam urubus, para os quais nunca houve tanta fartura como naquela época odiosa.

            O mar, belíssimo, não aplacava a angústia. Como tudo o que costuma ser alegre, ele tornara-se particularmente triste, naqueles dias tristes. O universo parecia errar, sem rumo, e não havia para isso nenhum consolo ou poesia possível. A rigor, durante todo aquele último mês, não houve vida. Só pessoas que tentavam não pensar muito, enquanto seguiam em frente; pessoas que se sentiam cansadas demais para sentir.

            Silvana acabou de dar o último suspiro. Depois de idas e vindas, e recusas, morreu na calçada em frente ao hospital.

            -Malditos! – irrompeu Madalena, sua mãe, num uivo de dor e ódio misturados. – Vocês vão pagar caro!

            Uma pequena aglomeração assistia à tragédia. Corpos sem alma, sentiam que era uma roleta russa: eles podiam sobreviver, ou podiam terminar assim, estirados no passeio. Que diferença? Como uma massa indistinta de pernas e braços, eles trabalhariam duro para continuar a ser, no futuro, a mesma massa indistinta de pernas e braços. Seus sonhos, sofrimentos, pequenas glórias, que valor têm? Por isso, aquelas pessoas simples calavam, confrontadas com a imagem terrível de si mesmas; confrontadas com a nudeza e crueza de ser e de saber-se ser: “ninguém”.

            -Pelo menos, descansou. – disse uma velha, e se benzeu.

            -Essa deve ter ficado louca. – disse um homem bem vestido, que passava. Ele não notou a mulher morta no chão: só a mulher esfarrapada que gritava.

            -O que foi que você disse, seu filho da puta? – perguntou outro homem, de macacão, ele próprio aguardando notícias do pai, dentro do hospital.

            -Disse o quê? – respondeu o outro, com ironia.

            -Quem é louco?

            -Se enxerga, negão.

            E saiu andando.

            Enquanto isso, Madalena continuava:

            -Nem que eu vá até o inferno, eu nunca vou deixar vocês em paz, nunca!

            Quem eram “vocês”? Decerto nem a mulher sabia. “Vocês” eram, naquele momento, todos os que se mantinham indiferentes àquelas dores todas acumuladas. “Vocês” eram simplesmente todos o que não somos “nós”; “vocês” são os que usufruem o que nos falta; “vocês” são os que vivem daquilo que nos mata.

            Agora Madalena parece se acalmar. Os olhos piedosos, dos que ainda conseguem sentir o que ela sente, confortam-na. Mas, de súbito, ela relembra o desprezo, a má vontade, a casa nua que a espera, a sua própria mãe desenganada. Não há dinheiro para um enterro, muito menos, para dois. “Um dia somos jovens, casamos, trabalhamos, temos filhos. Passado um tempo, descobrimos que nada nos esperava, que a vida era aquilo mesmo, uma tormenta que vai dar, ao fim e ao cabo, na vala comum”.

A amargura, infinita, alimenta e desperta a raiva. A raiva, ao menos, mitiga a dor; ela agora só sente um fogo medonho que lhe come por dentro; o coração dilacerado por navalha. E tudo isso ainda é mais suportável do que a dor. Olha para o céu e ele também está rubro, de sangue, de vingança. “Malditos!”. De repente, uma chispa atravessa seus olhos aflitos. “Agora eu sei”. Num átimo, ela pega a garrafa de álcool que levava na bolsa, vira o líquido sobre si e risca o fósforo.

            E o céu, então, incendeia-se.

            Diante do drama radical, aquela gente sofrida atravessa em segundos o pânico, o choque, o clamor. Do seu ventre nascem panos, um balde d’água e braços fortes, que agarram e acodem a mulher. Quando o homem bem vestido, funcionário graúdo do governo, volta acompanhado de soldados, a multidão já não é a mesma: ela reconhece no mesmo instante quem é que merece perecer.

            Igor

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