A violência policial e os "desprotegidos da princesa"

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Manifestação contra o assassinato de três jovens pela Polícia no Morro do Mocotó, em abril de 2020. Foto: Banco de Dados AND

Florianópolis talvez seja a única capital brasileira em que os recentes atos antifascistas (contra a gerência Bolsonaro/generais) e antirracistas têm ido até o pé de um morro e rendido homenagem a seus moradores. O lugar é o Morro do Mocotó, onde sua população enfrenta neste 2020 uma nova onda de agressões da PM, que assassinou vários jovens pretos pobres e também feriu outras pessoas, inclusive crianças e mulheres grávidas.

No protesto de 7 de junho, por exemplo, os manifestantes deixaram as escadarias da Catedral, na praça central da cidade, e caminharam alguns quarteirões até a favela/comunidade onde juntaram-se a seus habitantes, portando cartazes com os nomes das vítimas da Polícia e empunhando cruzes.

Outro exemplo: em 24 de setembro de 2019 numerosos estudantes da UFSC, em greve, realizaram um manifesto no campus e, em seguida,também se dirigiram ao Mocotó para participarem de um ato contra a violência da PM, que poucos dias antes tinha disparado tiros na comunidade, resultando em 2 pessoas baleadas e outras atingidas por munição de borracha.

Desde o ano passado o povo do Mocotó, para protestar, fechou algumas vezes suas ruas de acesso, com barricadas de fogo. Além disso, em maio último, construiu uma espécie de santuário na avenida em frente ao morro, a poucos metros da Assembleia Legislativa e Tribunal de Justiça. Cruzes foram dispostas ao longo do canteiro central representando cada um dos jovens assassinados. Mas policiais retiraram algumas delas, desrespeitando a vontade popular e os familiares dos mortos.

A BLINDAGEM DA PRINCESA

O Mocotó é sede da escola de samba mais premiada do Brasil: 26 vezes campeã do carnaval, enquanto a Portela, do RJ, tem 22 títulos. A agremiação se denomina Protegidos da Princesa e se refere à abolição da escravatura, assinada por Isabel, filha do imperador Pedro II. A Protegidos foi fundada em 1948 por um grupo de marinheiros.

“Há 70 anos, na calçada em que caminhava o branco, não caminhava o negro e vice-versa. Nada melhor que se intitular um grupo protegido da realeza, o que lhe dava certa blindagem contra a repressão, o racismo e a violência”, afirmou a socióloga Cristiana Tramonte,em seu livro O Samba Conquista Passagem.

Um estudante universitário ligado à comunidade, porém, analisando a persistência da repressão, do racismo e da violência nos tempos atuais comentou que se a escola fosse criada hoje “o nome mais certo talvez fosse "Desprotegidos da Princesa”. Ou seja: “A blindagem do Mocotó quem a realiza hoje não é governo nenhum, é a sua própria população, unida (com apoio de entidades solidárias, como o Instituto Padre Vilson Groh) em torno de uma luta dura e cotidiana” – complementou.

ATRAPALHANDO O PARAÍSO

O Morro do Mocotó se localiza no centro da capital catarinense, ao lado do Hospital de Caridade, e faz parte do Maciço do Morro da Cruz, um conjunto de 18 favelas/comunidades que somam cerca de 10% da população do município, cerca de 30 mil pessoas.

A propaganda mostra Florianópolis como uma cidade de ótima qualidade de vida e infinitas belezas naturais. Mas “o Maciço do Morro da Cruz ... não integra este cenário amplamente divulgado na mídia. É um espaço quase invisível à percepção dos demais moradores e que apesar de integrar o distrito-sede da cidade de Florianópolis, não se inclui neste cenário ‘paradisíaco" – disse a geógrafa Elaine Tomás em seu Doutorado na UFSC, em 2012.

A BEATA, O COMUNISTA, A TIA E O BONITÃO

A primeira moradia no Mocotó foi feita nos anos 1700, por Joana de Gusmão, uma beata peregrinadora paulista, irmã do famoso Bartolomeu de Gusmão, tido como o primeiro cientista brasileiro e chamado de “padre-voador” por ter inventado o balão de ar quente em 1709. Joana ergueu um rancho para morar e uma pequena capela, a do Menino-Deus, ainda hoje existente ao lado do Hospital de Caridade. Em 1777, quando a Espanha invadiu a Ilha-capital, muitos habitantes se refugiaram junto à beata, no Morro que então se chamava Boa Vista.

Nos anos 1800 o lugar, onde se construiu o Hospital, serviu de amparo a pobres em geral. Atendeu escravos fugidos,prostitutas,degradados,pessoas doentes, anciãos, marinheiros,crianças abandonadas.A Irmandade do Senhor dos Passos, ligada ao Hospital, acolheu muitos escravos libertos enfermos (abandonados pelos proprietários), cuidando deles pelo resto de suas vidas.

Essa característica de “servir de refúgio” aos excluídos prosseguiu nos anos 1900, quando o Mocotó abrigou os humildes trabalhadores da construção da ponte Hercílio Luz (1922-1926), que não tinham onde morar. Ali alugavam uma casinha, ou um cômodo, ou construíam um barraco com materiais improvisados.

Foi aí que surgiu a figura carismática de Manoel Alves Ribeiro, o Mimo. Eletricista, operário da ponte, foi um dos que incentivou a peãozada a ajudar financeiramente  as excelentes cozinheiras do Morro, comprando seus pratos de ensopado de mocotó, saborosos e cheios de “sustança”. Assim o lugar, que já tivera os nomes de Boa Vista e do Governo, foi batizado popularmente como Morro do Mocotó.

Mimo era comunista e, devido à sua simpatia e conhecimentos,exerceu uma certa liderança entre os colegas da ponte. Conforme o geógrafo André Luiz Santos (UFSC, Tese de Doutorado, 2009), a construção da Hercílio Luz teve forte presença de organizações como a Liga Operária e União Operária. Os trababalhadores tinham contato também com o movimento anarquista através do jornal A Plebe, de SP, que era trazido a Florianópolis, ao seu porto, por marinheiros da Companhia Lloyd Brasileiro.

Com o tempo, o Morro foi ganhando outras personagens marcantes, como a Dona Luci,matriarca afetuosa, “a melhor receita de mocotó do mundo”, querida por todos, cuja imagem foi imortalizada (após falecer em 2018)numa pintura na entrada da rua, no ponto de ônibus. Como curiosidade, não se pode deixar de mencionar o Cinderelo, o bonitão da ladroagem. Morador do Mocotó,rapaz muito esperto “e boa pinta”, nos anos 1980 era uma pedra no sapato da polícia, que nunca conseguiu mantê-lo preso. Segundo alguns debochados cronistas da Ilha, como Aldírio Simões, isso acontecia porque a secretária da Segurança da época, Eliete Leal, apaixonou-se pelo gatuno e passou a protegê-lo.

MÃOS DADAS OU ALGEMADAS ?

Em agosto de 2018 a PM instalou uma base permanente no Mocotó e iniciou a Operação Mãos Dadas, com a justificativa de combater o tráfico de drogas e “realizar uma aproximação social com a comunidade” . Na verdade, segundo os moradores, o que aconteceu foi uma oficialização dos abusos por parte dos policiais. A truculência se multiplicou, envolvendo mortos e feridos.

No Natal daquele ano, por exemplo, enquanto os habitantes preparavam a festa, a PM passou horas vasculhando o lugar, gritando com as famílias e prendendo pessoas. Alguns meses depois, em 12 de setembro de 2019, a Polícia entrou violentamente no Morro e baleou 5 moradores.

Conforme a jovem T.L.S. , que trabalha e estuda até tarde, voltar para casa muitas vezes é traumático: “À noite tu chega e escuta tiro e já sabe que é a polícia entrando. E se pega uma criança, um pai de família subindo do serviço?”, questiona.

De acordo com ela, a rotina da comunidade já foi pacata, mas tem se tornado violenta, muito por conta da atitude dos policiais.“Eles acham que todo mundo que mora aqui é vagabundo. Por ser negro, etc. Mas aqui tem tanto pessoas boas, quanto pessoas ruins, e acaba todo mundo sofrendo”.

 A jovem reclama ainda do tratamento dado às mulheres, pelos PMs. “Vagabunda” e “mulher de traficante” são alguns dos termos que são utilizados indiscriminadamente nas abordagens policiais a moradoras do Mocotó.

Diversos outros atos de violência policial, ocorridos com a Operação Mãos Dadas, são lembrados por ela: o vizinho adolescente baleado e morto pela PM a caminho de uma visita ao pai; um parente que, dentro de casa, ficou sob a mira da arma de um policial até que sua mãe fosse interceder; várias agressões físicas (a maiores e menores de idade) e outros tantos casos de invasões domiciliares arbitrárias, sem mandados que autorizassem os policiais a entrarem nas casas.

Segundo dados da SSP-SC (Secretaria de Segurança Pública de S.Catarina), até o dia 20 de abril de 2020, 42 pessoas foram mortas em confronto com a Polícia Militar em todo o Estado  – número 20% maior do que o registrado no mesmo período de 2019, quando 35 pessoas foram mortas durante ações da PM.

Morro do Mocotó, em Florianópolis, estado de Santa Catarina. Foto: Banco de Dados AND

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