O teatro de Martim Afonso e a venda da aldeia Indígena

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Todos os anos, em 22 de janeiro, a Prefeitura de São Vicente, no litoral paulista, realiza “O Maior Espetáculo de Areia de Praia do Mundo...", isto é, uma peça de teatro ao ar livre reproduzindo a fundação da Vila de S. Vicente como primeira cidade do Brasil, em 1532, pelo português Martim Afonso de Sousa.

Para compor o cenário do espetáculo turístico, a Prefeitura costuma trazer índios verdadeiros, guaranis (subgrupo mbyá) e tupi-guaranis (subgrupo nhandeva) que habitam lugares vizinhos, na região da Baixada Santista.

Tudo seguia conforme tal enredo...até 2004. Naquele ano diversos guaranis, para surpresa das autoridades, resolveram mudar o roteiro ensaiado. Ao invés de irem embora, assentaram-se ali mesmo em São Vicente, como seus antepassados. Na falta de espaços livres antigos, como a praia do Gonzaguinha onde Martim Afonso teria desembarcado, ocuparam uma pequena parte do Parque Estadual Xixová-Japuí, criando a aldeia de Paranapuã, hoje com cerca de 100 moradores.        

AMBIENTALISMO BURGUÊS CRIMINALIZA

Como o Parque é uma área de conservação ambiental, onde indígenas não são bem-vindos, o governo paulista entrou na justiça exigindo a retirada das famílias. O grupo resistiu, firme, e lá continua.

“(O governo e outros setores antiindígenas) desconhecem que um dos substantivos mais fortes do povo guarani é a resistência. Quanto pior está, mais eles vão ficar”, costumava lembrar Cristiano Hutter, ex-coordenador regional da FUNAI Litoral-Sudeste.

E complementava: “Já existe uma comunidade de fato, que é reconhecida pela FUNAI, mas não pelo Estado. (...) No plano de manejo do Parque não fala da ocupação indígena, que eles estão ali. Não deixam construir escola, não deixam construir banheiro, não deixam entrar nem merenda escolar. Não deixam nada. (...)é o pensamento de prejudicar os índios ao máximo forçando a saída deles.”(OBS: Hutter foi substituído no cargo por um militar, recentemente).

Segundo o ISA, “a política ambiental é mais um instrumento para impedir que indígenas tenham acesso aos seus territórios tradicionais. Contraditoriamente, as áreas mais preservadas (no país)são aquelas cuidadas pelos indígenas”. Resume o Instituto Socioambiental: “ Onde tem índio, tem floresta em pé!”.

Conforme o Diário do Litoral “(Entre as 17 existentes no litoral de SP) a aldeia de Paranapuã, em São Vicente, é a considerada de situação mais crítica na Região. Enquanto o impasse (judicial) não for resolvido, não há possibilidade de regularização do local, o que dificulta a elaboração de projetos e o acesso a direitos básicos.” (OBS: o processo judicial está hoje tramitando em sigilo).

CONTRA A VENDA:“LEVANTEI E VESTI O COCAR”

Em 2013 o governo de SP (gerência de Geraldo Alckmin, PSDB) criou uma lei permitindo a privatização de Parques Estaduais. Pouco depois a Lei n249  foi aprovada pelos deputados da Assembleia Legislativa, autorizando a empresas privadas a exploração comercial por 30 anos das chamadas “áreas de preservação”.

Esta é a grande preocupação dos guaranis da Paranapuã: ver sua aldeia e um belo pedaço da mata atlântica vendidos a grupos sem o menor compromisso com a natureza e o respeito à cultura das nações indígenas originárias.

O perigo existe e pode ser materializado a qualquer instante no Parque Estadual Xixová-Japuí . Um dos líderes tribais, Gilson Samuel dos Santos, relata uma cena vivida por ele há pouco tempo:“Em uma reunião (audiência pública) na Câmara de São Vicente, um empresário afirmou que a nossa terra era um bom espaço para a construção de condomínios, shoppings e de que isso seria um grande desenvolvimento para a cidade. Na mesma hora, as pessoas ficaram de boca aberta, sem acreditar no que ele estava dizendo. Então eu vesti o cocar, levantei e disse: ‘Eu também estou aqui!’, todo mundo levantou e aplaudiu.”

Dida Karai Jexaka, outro porta-voz da aldeia, afirma que é muito importante demarcar a área, “garantir nosso território, para conservar a nossa essência e nossos costumes. Porque existe o problema da competição (luta) com políticos que querem tirar vantagem sobre as nossas terras (OBS: muitos deles vinculados ao ganancioso ramo imobiliário)”.

CONHECEDORES DO PEABIRU

Querer hoje expulsar os índios do território de São Vicente, além de tudo que já se expôs, é uma absurdidade cometida contra a história dos próprios pioneiros europeus no Brasil e na América do Sul.

Escritos datados dos anos 1500 (como O Diário da Navegação da Armada que foi à terra do Brasil em 1530,de Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim) revelam o conhecimento que os povos nativos de S. Vicente e Cananeia possuíam sobre um caminho milenar que saía daquelas praias e levava ao poente, onde existiam lugares abundantes em prata e ouro.

Era o Caminho de Peabiru, que unia o litoral de SP, PR e SC ao império dos incas, no Peru/Bolívia. Uma ligação entre o Atlântico e o Pacífico, com cerca de 4 mil quilômetros.

Martim Afonso enviou ao oeste uma expedição com centenas de índios e 80 homens brancos (espingardeiros e besteiros) na tentativa de achar tesouros calculados em 400 cargas de metal. O grupo desapareceu (provavelmente em ataque no Rio Paraná).      

Dida Karai, em depoimento ao AND, confirmou que os idosos da tribo conheciam o Peabiru e contavam histórias sobre o Caminho, mas que “hoje ficou difícil saber dessas coisas porque já morreram”.  

Uma curiosidade: o evento festivo de Martim Afonso desembarcando, em meio a satisfeitos indígenas na beira da praia, é pura encenação mesmo.Historiadores como Pedro Taques contam que o português, logo ao chegar, teve total oposição dos povos nativos. Guerreiros se levantaram numa rebeldia tenaz contra ele, em batalhas que duraram cerca de 3 anos.   

 

 Jovens indígenas treinando com arco e flecha na aldeia de Paranapuã. Foto: Matheus Tagé/DL

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