Editorial - Queimadas e outras Labaredas

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Em seu clássico filme Queimada, de 1969, o cineasta Gillo Pontecorvo relata a brutal opressão colonial e a luta de libertação de um povo numa ilha caribenha submetida ao domínio português e, posteriormente, britânico. O nome da Ilha – Queimada – deve-se ao fato de os colonizadores portugueses terem incendiado todo o seu território no período de ocupação, como forma de quebrar a resistência dos povos originários. Alguns séculos depois, os imperialistas ingleses repetirão o mesmo procedimento. Embora a construção do enredo seja ficcional, ele funciona como uma alegoria de todo o processo de espoliação econômica e submissão política da América Latina, ao colonialismo primeiro, ao imperialismo mais tarde. Neste processo, a depredação do meio geográfico e do meio humano são inseparáveis; quase indiscerníveis.

O Brasil de 2020, governado de fato por uma junta militar, parece ter se tornado uma nova Queimada. Uma Queimada gigantesca, de proporções continentais.

Dois genocídios se cruzam neste momento. O primeiro, no contexto da Covid-19, que ceifou a vida de mais de 80 mil brasileiros, acontecimento tão sinistro quanto inédito em nossa história. Os que sobrevivem, fazem-no em situação de maior empobrecimento e submetidos ao nosso endêmico fascismo cotidiano. Na base desta inaudita degradação social – que não pode deixar de ser também degradação moral e cultural, com traços de grande salto para trás – opera uma cataclísmica crise econômica, agravada pela pandemia. Apenas nos últimos meses, 522 mil estabelecimentos comerciais fecharam as portas, quase todos eles, pequenos e médios (os que mais geram empregos e que mais pagam impostos). Os trabalhadores desempregados contam-se na escala de dezenas de milhões, embora as estatísticas oficiais sejam bastante criativas na produção de categorias mistificadoras da realidade. O consumo das famílias deve recuar a níveis inéditos nestes 12 meses, o que não deixará de impactar o consumo industrial, mormente, em país já tão severamente desindustrializado e dependente de importações, cada vez mais onerosas. Neste momento, o dólar está cotado em R$ 5,38.

Ganhando grande destaque nas manchetes, há um outro extermínio em curso: o da floresta amazônica e dos povos originários. Sua causa precípua é a grilagem voraz de terras e um modelo de “desenvolvimento” assentado na monocultura para exportação. Neste debate, tragédia e farsa não se alternam, mas ocorrem simultaneamente.

Comecemos pela farsa. Causa náuseas ver que para muitos ditos “pensadores brasileiros” - estes para os quais as páginas dos monopólios de imprensa estão sempre franqueadas - não é a sorte dos camponeses, quilombolas e povos indígenas o que conta neste problema, e sim, a “pressão internacional”, leia-se, a pressão do capital financeiro. Vende-se o mito, ele próprio de matriz colonial, de que a Amazônia é uma espécie de floresta verde intocada. As populações aí residentes, segundo esta concepção, são no máximo uma variação da fauna nativa, a ser tutelada. Afinal, é a mata (e a poderosa reserva de valor que ela contém) o que importa, e não o Homem. Mas o que é pior: quer-se debater a problemática “ambiental” dissociada da questão central aí envolvida, qual seja, a da propriedade da terra. Inventa-se mesmo um tal “setor progressista do agronegócio”, como se não fosse a própria estrutura latifundiária a responsável pelo que se passa.

Oras, por trás da depredação da floresta e dos povos originários está um modelo semifeudal – às vezes, com caracteres nitidamente feudais – de ocupação do território. Um modelo assentado na grande propriedade, perdulária, extensiva, de baixíssima produtividade, que só pode aumentar a massa de lucros devorando mais e mais terras. Um modelo assentado na grande propriedade que se forma não através de relações capitalistas típicas, de compra e venda, reguladas, em grandes linhas, pela lei do valor. Não: no Brasil de 2020 a grande propriedade se forma através do trator e da bala. No estado do Amazonas, por exemplo, levantamento recente revelou que 96% das propriedades acima de 3 mil hectares estão assentadas em terras públicas devolutas. No estado do Pará, numa varredura feita pelo governo estadual, verificou-se um total de 486.194.000 hectares registrados nos cartórios. Conta impossível: seria o equivalente à metade do território nacional. Segundo o geógrafo Ariovaldo Umbelino, repercutindo os acontecimentos de 2019, “os incêndios na Amazônia têm a ver com procedimentos que os empresários brasileiros adotam, com interferência direta no processo de ocupação da Amazônia. Como o processo se dá por meio de grilagem, é necessário abrir pastos e derrubar árvores para completar a ocupação”. (Correio da Cidadania, 30/08/2019). A pistolagem e a implacável perseguição policial e judicial aos combativos dirigentes camponeses, indígenas e quilombolas completam este tenebroso mosaico.

A farsa, no entanto, chega ao paroxismo quando se inventa, como já apontamos, um tal setor “progressista” do agronegócio, que seria contrário à política de Bolsonaro. Como se sabe, de um lado, também a formação da grande propriedade da soja – exemplo deste pretenso latifúndio moderno - está assentada na grilagem de terras públicas e no extermínio dos povos originários; e de outro, nada seria dos grileiros da Amazônia se não houvesse toda uma cadeia a quem eles escoam o produto do seu saque. Alguém, afinal, compra, processa e embala a carne e a matéria-prima de sangue. 

Aqui, falando da farsa, já entramos em cheio no terreno da tragédia. Tragédia que perdurará, enquanto não destruirmos o próprio “modelo brasileiro de desenvolvimento”, para usar uma expressão tão cara ao regime militar, promotor, aliás, da ocupação da Amazônia pelos grandes latifundiários na década de 1970. Exército e latifúndio são inseparáveis em nossa história, aquele sempre a serviço dos interesses deste. Vão-se os governos, ficam os coronéis.

Enquanto esse modelo semifeudal-semicolonial perdurar, seguirão chorando Marias e Clarisses, nas periferias das metrópoles imensas como nos acampamentos camponeses arrasados e territórios indígenas saqueados. Até que sobrevenha uma Revolução democrática, agrária e anti-imperialista, persistirá a nossa sina de grande Queimada.

Porém, como os camponeses conhecem de saber de sua dura lida usar o fogo para deter uma queimada, saberão levantar as labaredas desta Revolução!

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