Sérvia: Em meio à pandemia, povo se rebela contra descaso do velho Estado

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Manifestantes sérvios tentam invadir o Parlamento. Foto: AFP

Em um 8º dia de protesto consecutivo, o povo sérvio, em justa rebelião ao descaso do velho Estado à saúde e sem condições mínimas para a sobrevivência em meio à pandemia, tomou as ruas de diversas cidades do país europeu no dia 14 de julho. Em todos os dias de protestos, os manifestantes rebelados empreenderam ações combativas, como tentativas de invasão do parlamento, combate com pedras e bombas incendiárias às forças de repressão, entre outras.

A revolta, que começou contra as medidas do velho Estado frente à pandemia, tomou proporções maiores, com revolta generalizada contra os políticos de turno do velho Estado sérvio e o separatismo de Kosovo.

Na capital do país, em Belgrado, em frente ao parlamento, manifestantes se reuniram em protesto, no dia 14. Em denúncia ao imperialismo do Estados Unidos (USA), os manifestantes acusavam intervenção ianque na questão do separatismo do país Kosovo, onde ainda há mais de 600 tropas ianques estacionadas.

Durante à tarde, no mesmo dia, centenas de pessoas se reuniram em frente à Prisão Central em Belgrado, sob as palavras de ordem Libertem todos!, exigindo a liberdade dos presos durante as manifestações que tomaram conta do país. Desde que a rebelião estourou, o país conta com mais de 180 presos, sendo que 112 deles foram presos entre os dias 11 e 12 de julho. Segundo o monopólio da imprensa, os presos não contam com direito a advogados, e apenas policiais foram usados como testemunhas contra eles. Já à noite, os manifestantes se dirigiram ao parlamento, para seguir com o protesto.

Segundo o manifestante Vuk Mistović, as prisões são apenas uma “parte da repressão que o governo de Aleksandar Vučić [presidente do governo de turno] está jogando sobre o povo”, informa o monopólio de imprensa BBC.

Protestos também ocorreram no mesmo dia nas cidades de Krusevac, Nis e Čačak, onde o povo foi às ruas expressar sua indignação contra o governo e o velho Estado sérvio.

No dia 10 de julho, milhares de pessoas se reuniram em frente ao parlamento, na capital do país, em Belgrado. Os manifestantes, a grande maioria de máscaras, rechaçavam o presidente Aleksandar Vucic e seu governo de turno que, sob a farsa de combater o coronavírus, logo voltou com as medidas de isolamento, permitindo a reunião de no máximo dez pessoas em público, levando a polícia a reprimir os manifestantes com gás lacrimogêneo e bombas de atordoamento, no que os manifestantes responderam com pedras e sinalizadores contra os policiais.

Manifestantes enfrentam a polícia na Assembléia Nacional. Fonte: Andrej Isakovic/Agence France-Presse

No segundo dia de protesto, no dia 8 de julho, em resposta à repressão que o povo sofreu no primeiro dia, mais pessoas se somaram às manifestações. Na capital, em Belgrado, a polícia utilizou cavalaria e a polícia militarizada (centralizada pelo Exército), a Gendarmaria, para reprimir os manifestantes, que de novo tentavam tomar e invadir o parlamento. Confrontos com a polícia se seguiram, e viaturas foram queimadas, com o protesto tomando todo o centro da cidade.

No dia 7 de julho, dia que desatou o protesto popular, o povo tentou invadir o Parlamento, sendo reprimidos pela polícia com gás lacrimogêneo e bombas de atordoamento. Os manifestantes, por sua vez, responderam os agentes da repressão com bombas incendiárias e pedras, deixando quatro policiais feridos.

Outras cidades se juntaram às manifestações, como Novi Sad,  Niš , Kragujevac, Smederrevo, Kruševac, Čačak e Kraljevo.

Em Novi Sad, no dia 8, os manifestantes destruíram instalações do Partido Progressista Sérvio (PPS), partido do presidente reacionário Aleksandar Vučić, além de quebrarem vidros e jogarem coquetéis molotov no prédio do monopólio de imprensa RTS e destruírem redes de fast food do monopólio ianque, como o McDonald’s. Na cidade de Niš, manifestantes jogaram pedras na sede do PPS, além de pixarem os pôsteres promovendo a farsa eleitoral.

Presidente reacionário brinca com a vida das massas

A revolta popular que tomou o país se iniciou devido a maneira que o governo de turno de inclinação fascista lidou com a pandemia, mas logo tomou um escopo de insatisfação geral do povo contra a velha ordem de exploração e opressão.

Desde o início da pandemia, em março, o governo de turno emitiu declarações contraditórias sobre a gravidade da pandemia. Afirmando até mesmo que o coronavírus é "o vírus mais ridículo da história", que só existia nas mídias sociais, o RRIB (Rede de Relatórios de Investigação dos Bálcãs)  e outros órgãos acusaram o presidente e seu governo de esconder os reais números de mortos e infectados, com o RRIB, em estudos, afirmando que um total de 632 pessoas morreram na Sérvia, com testes positivos para o vírus, sendo mais do que o dobro do número oficialmente anunciado pelo governo, de 244 mortes naquele período. 

Uma vez que reconheceram o perigo do vírus, introduziram a lei marcial, proibindo os idosos de sair de suas casas e instituindo o toque de recolher noturno, ordenando que o exército patrulhasse as ruas, como desculpa para maior repressão e militarização da sociedade. Entretanto, se provaram medidas insuficientes e unicamente reacionárias, ao não dar meios ao povo de lidar com o coronavírus, deixando que lugares de trabalho, como as fábricas, abertas. Como resultado, os trabalhadores tinham que passar horas todos os dias em corredores lotados, deslocando-se entre casa e trabalho em ônibus ainda mais lotados, correndo grandes riscos de se infectar.

Para as empresas, o governo apenas emitiu “recomendações”: propostas que não tinham peso jurídico algum. A lei marcial motivou os trabalhadores de diversas fábricas a pressionar seus chefes e exigir medidas de proteção através de ações de greve. Entretanto, ignorando os trabalhadores, em pouco tempo o número de infectados ultrapassava o sistema de saúde sérvio.

Povo rechaça a farsa eleitoral em meio à pandemia

Como se pudesse se livrar da pandemia na base do decreto, o governo de turno decidiu retomar as atividades, para realizar a farsa eleitoral, declarando uma “vitória espetacular”  no dia 21 de junho. Mesmo oferecendo pagar até 100 euros para o povo votar, a eleição foi rechaçada pelas massas com o maior boicote da história recente do país, com cerca de 52% da população não comparecendo às urnas. Com o partido de Aleksandar Vučić tendo a maioria no Parlamento, o governo de turno decidiu retomar com as restrições, num país onde as massas estão jogadas na miséria – cerca de 300 mil trabalhadores podem perder seu emprego até o outono – e deixadas para morrer na pandemia, o povo se levantou em revolta.

 

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