Entrevista: ‘Se não tiver justiça, nós vamos protestar de novo!’, diz avó de Guilherme, assassinado na porta de casa

A- A A+


Muro do parquinho onde Guilherme foi sequestrado. Foto: Comitê de Apoio ao AND de São Paulo

Na madrugada de 15 de Junho, ocorria na Vila Clara, zona sul de São Paulo (SP), mais um crime cometido contra um jovem da periferia: Guilherme, 15 anos, era torturado e assassinado à queima-roupa por dois policiais. Imediatamente, ocorreram protestos nas ruas da região, com barricadas de fogo, mais de dez ônibus queimados e viaturas da GCM destruídas. Como se não bastasse o crime bárbaro, a repressão com a Tropa de Choque e um caminhão do Exército percorreram as o bairro e atiraram bombas de efeito moral, gás lacrimogênio, e tiros de balas de borracha. A população resistiu incansavelmente até as 22 horas da noite, apesar do terrorismo imposto pelo Estado.

Cerca de um mês após o ocorrido, o Comitê de Apoio ao AND de São Paulo entrevistou Joice e Antônia, mãe e avó de Guilherme, respectivamente. Elas reclamaram que das entrevistas que concederam, pouquíssimas coisas saíam no monopólio de comunicação, como Globo e Uol. Costumavam cortar as falas mais importantes.

J- Já veio muita gente aqui entrevistar. Inclusive, nós estávamos evitando, porque em um vídeo longo pouquíssimos minutos eram mostrados. Não colocavam as informações que pedíamos, talvez pra encobertar esses bandidos.

É corriqueiro este tipo de prática do monopólio de comunicação, principalmente em casos repletos de ilegalidades como este da Vila Clara: dos dois policiais, um era Sargento do BAEP e chefe do grupo extermínio que fazia segurança da SABESP. Seu nome é Adriano Fernandes Campos e está preso. O segundo, Gilberto Eric Rodrigues, já era foragido da justiça desde 2015, quando estava preso e escapou do presídio militar Romão Gomes após participar de uma chacina numa favela de São Paulo. Usava o codinome de ‘Roberto’ e até agora não foi localizado.

O uso de grupos para-militares pela Polícia em favelas é algo muito comum. Praticam toda a sorte de crimes sem precisar prestar contas, decidindo apenas quem será o próximo. O exemplo de Gilberto mostra que além destes grupos servirem à perseguição de pessoas pobres nas periferias, servem também para encobertar a atuação clandestina de policiais protegidos pelo velho Estado.

J- As pessoas ligavam no Romão Gomes para perguntar sobre o Gilberto, e eles diziam que ele estava lá, preso. Como uma pessoa foge da cadeia, e mesmo depois de cinco anos seguem dizendo que ele está lá? Ninguém percebeu? Por que quando são outras pessoas que escapam eles imediatamente vão atrás? O Estado  e a Polícia encobertavam a atuação deles aqui.

 
Empresa que contratava Adriano e Gilberto. Foto: Banco de Dados AND

 

A noite do crime

J - Meu filho tinha acabado de sair de um churrasco na minha casa, quando foi pego por eles. Eles saíram do galpão que fica do lado do Roldão, cruzaram o parquinho procurando alguém e pegaram meu filho. Levaram ele para algum lugar, atiraram na cabeça dele e depois no rosto. Depois deixaram ele lá na Pedreira. A polícia diz que só foram encontrá-lo pela manhã, mas isso a gente também não sabe, porque eles atuam em conjunto. Achamos o corpo dele sem o tênis. Mataram o meu filho ainda e saem andando com o tênis dele por aí.

Antônia, a avó, nos disse que eles alegaram procurar supostos ladrões que regularmente pulavam os muros da empresa para roubar peças. Joice denunciou:

J- Isso é mentira. O que costuma acontecer por aqui, é de algumas pessoas pularem o muro do supermercado Roldão para pegar alimentos já que eles jogavam quantidades enormes no lixo, mas Guilherme nunca esteve envolvido nisso. Além do mais, não tem nada a ver com a empresa que esses dois faziam parte. O mais estranho de tudo isso, é que se eles estão acusando meu filho de roubo à empresa, porque até agora não fizeram um Boletim de Ocorrência? Por quê até agora não denunciaram ninguém? Eles queriam dar um recado, e tiraram a vida do meu filho pra isso. Acabaram com a minha família pra isso.

Protestos

Logo pela manhã, protestos incendiários tomaram as ruas de Vila Clara e seguiram pela avenida principal até a cidade de Diadema, com milhares de pessoas presentes. Barricadas, ônibus queimados, e muita revolta durante um dia inteiro de confrontos com as forças de repressão. Tiros de borracha, spray de pimenta, e bombas de gás foram lançadas a esmo para barrar a fúria popular. Chegaram a atirar em uma repórter que cobria a manifestação.

J - Eles vieram com a tropa de choque e com um caminhão do Exército. Além de tirarem a vida dele querem punir quem reclamar. Eles passaram na minha rua e jogaram bombas no telhado da minha casa. Mais pro fim da noite, passaram marchando aqui na frente de casa pra tentar intimidar.

Até agora, o caso segue sem solução. Ela nos disse que até agora não tiveram nenhuma devolutiva por parte do Estado.

- Aparecem muitas mães diariamente falando pra mim que sentem a mesma dor que estou sentindo. Tiveram os filhos mortos de forma semelhante e na maioria dos casos não tiveram nenhuma resposta. Nós queremos justiça, é isso o que queremos. É bem possível que em breve o Adriano seja solto, porque a gente sabe como as coisas funcionam. É um encobertando o outro.

A- Se não tiver justiça, nós vamos protestar de novo! As pessoas daqui, especialmente a juventude estão muito revoltadas e com disposição para isso. Eles não vão conseguir nos intimidar, essa história não vai ficar por isso mesmo.

Guilherme era muito querido pelos familiares e pelas pessoas do bairro. Era conhecido por bastante gente e nunca tinha se envolvido com nada ilegal.

J – Guilherme estava na escola. Adorava jogar bola, empinar pipa, fazer comida, brincar com os irmãos. Nunca se envolveu com nada de errado e me ajudava muito. Ele não tinha nada a ver com isso que aconteceu, nada.

A- A gente ficou bastante triste e o luto ainda não passou. A gente nunca espera que vai perder uma pessoa dessa forma, principalmente da forma como foi. É por isso que vamos seguir exigindo nossos direitos. Queremos justiça.

 

PM Assassina bate recorde em SP

O caso de Guilherme, se junta ao de outros centenas que foram mortos sem possibilidade de defesa. Só neste ano, a PM de SP assassinou 442 pessoas, superando os números de 2003 em que 409 pessoas tiveram suas vidas ceifadas. Nas últimas semanas, o AND noticiou diversos casos em que a PM usou de violência contra trabalhadores, punindo entregadores de aplicativos por protestarem, torturando uma mulher e assassinando jovens nas periferias. Não são casos isolados, mas um modus operandi do velho Estado na repressão às pessoas do povo, que em meio a maior crise da história do nosso país, como se não bastassem as péssimas condições de sobrevivência, vem sofrendo as penas do chamado “Estado Democrático de Direito” que persegue, tortura, e assassina as pessoas à luz do dia para quem quiser ver.

O governador de São Paulo João Dória (PSDB), que de forma caricata, ficou“compadecido” pelas mortes de covid-19 no início da pandemia, é responsável direto por este genocídio, além de Bolsonaro, que não só se cala diante destes números escabrosos, como insufla suas bases a apoiar a matança. Estes números se somam ao dos 90 mil mortos pelo covid-19, dos que padecem de outras doenças que poderiam ser tratadas e não aparecem nas estatísticas, além dos que morrem por diversas outras razões devido ao agravemento de todas as condições de sobrevivência. O povo saberá dar justa resposta a tudo isso, e a exemplo do que foi feito pelos manifestantes de Vila Clara.


Guilherme, 15 anos, assassinado e torturado por dois policiais. Foto: Reprodução


Moradores protestam contra o assassinato brutal de Guilherme pela polícia. Foto: Banco de Dados AND


Moradores protestam contra o assassinato brutal de Guilherme pela polícia. Foto: Banco de Dados AND


Moradores queimam ônibus em revolta. Foto: Banco de Dados AND


Moradores protestam contra o assassinato brutal de Guilherme pela polícia. Foto: Banco de Dados AND


Ônibus incendiados podem ser vistos de longe. Foto: Banco de Dados AND


Moradores queimam ônibus em revolta. Foto: Banco de Dados AND


Adriano e Gilberto, suspeitos de terem matado Guilherme. Foto: Banco de Dados AND

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

Nunca recebemos um centavo de bancos ou partidos eleitoreiros. Todo nosso financiamento sempre partiu do apoio de nossos leitores, colaboradores e entusiastas da imprensa popular e democrática. Nesse contexto em que as lutas populares tendem a tomar novas proporções é mais do que nunca necessário e decisivo o seu apoio.

Se você acredita na Revolução Brasileira, apoie a imprensa que a ela serve - Clique Aqui

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Fausto Arruda

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Matheus Magioli Cossa
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ana Lúcia Nunes
Rodrigo Duarte Baptista
Vinícios Oliveira

Ilustração
Taís Souza