AM: Militares promovem chacina às margens do Rio Abacaxis e camponeses impõem resistência

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Corpo de um dos jovens munduruku assassinado por militares no município de Borba, Amazonas. Foto: Povo Munduruku

O início do mês de agosto foi marcado pelo confronto promovido por militares às margens do Rio Abacaxis, que envolveu as comunidades tradicionais (população ribeirinha), assentados e indígenas da Terra Indígena (TI) Kwatá-Laranjal, entre os municípios de Nova Olinda do Norte e Borba, interior do Amazonas. Dois jovens Mundurukus foram assassinados, além de três camponeses. O atual Secretário Estadual do Fundo de Promoção Social do Governo do Amazonas, Saulo Costa, foi baleado no braço, dois policiais morreram e outros dois ficaram feridos durante a resistência.

Secretário de Estado do AM realiza pesca ilegal com comitiva e é expulso da região

Nos dias 23 e 24 de julho, moradores identificaram a presença de uma comitiva de pesca esportiva ilegal que se deu em meio a pandemia de Covid-19 e sem autorização dos mesmos  nos arredores da região da TI Kwatá-Laranjal.

Na ocasião, a comitiva com os barcos Dona Dorva e Arafat, invadiu a região onde também funcionam projetos de Assentamento Agroextrativistas Abacaxis I e II. Assim que identificados todos foram expulsos da região por moradores com armas de fogo, facas e tochas de fogo, logo na entrada do Rio. O atual Secretário-executivo do Fundo de Promoção Social do Governo do Amazonas e sobrinho do presidente do Tribunal de Justiça do Amazonas, Saulo Moysés Rezende Costa,  foi atingido por um tiro no ombro.


Secretário-executivo do Fundo de Promoção Social do Governo do Amazonas e sobrinho do presidente do Tribunal de Justiça do Amazonas, Saulo Moysés Rezende Costa, realizava pesca ilegal, expulso por moradores foi atingido por um tiro no ombro. Foto: Banco de dados AND

Policiais morrem após cometerem abusos e tortura durante operação policial realizada com lancha particular de Secretário

No dia 03 de agosto, a PM realizou uma operação na região do entorno da TI Kwatá-Laranjal. Foram enviados ao local cerca de 50 policiais, dentre os quais membros do COE (Comando de Operações Especiais) e do Batalhão Ambiental. 

Durante o ataque, a PM utilizou a lancha de Saulo Costa. Ribeirinhos e povos indígenas denunciaram ao Ministério Público Federal que os agentes estavam sem farda e não se identificaram durante grande parte da operação, nem mesmo durante a abordagem de várias lideranças comunitárias dos ribeirinhos. 

Denunciaram também que durante a operação lideranças foram torturadas, ocorreram invasões de domicílio, condução ilegal, apreensão de telefones celulares usados para registrar os abusos, uso desproporcional de armas de fogo para intimidar os moradores, até mesmo idosos e crianças. Proibiram a circulação no rio Abacaxis e em áreas próximas, fato que impossibilitou o envio de alimentos e socorro aos camponeses feridos durante essa operação. 

Em entrevista ao monopólio Folha de São Paulo, o presidente da Associação Nova Esperança do Rio Abacaxis (Anera), Natanael Campos, denunciou: “Depois me levaram para um lugar mais afastado e começaram a me bater Eram uns dez policiais e o comandante lá,assistindo. Pararam um pouco,depois teve outra sessão numa lancha chamada Arafat. Meteram um saco plástico na minha cabeça e me perguntavam quantas pessoas estavam envolvidas. eles ficavam falando que eu não ia escapar”.

Novamente houve resistência por parte dos moradores da região e no confronto morreram dois PMs que pertenciam à COE, unidade de elite da PM do Amazonas. Outros dois ficaram feridos.


Policia Militar percorre o Rio Abacaxis. Fonte: Povo Munduruku

Ataques persistem, jovens Mundurukus e camponeses são assassinados

No dia 05 de agosto, as incursões continuaram e policiais militares assassinaram dois jovens Mundurukus durante uma operação ilegal realizada na TI Kwatá-Laranjal, na aldeia Laguinho às margens do rio Marimari, no município de Borba, localizado há cerca de 150 quilômetros de Manaus.

De acordo com denúncias realizadas por lideranças do povo Munduruku, dois jovens estavam indo para o banco no município vizinho de Nova Olinda do Norte, quando foram alvejados com seis tiros provindos de uma lancha da Polícia Militar (PM) que passava pelo local. Os jovens eram da mesma família. Josimar Moraes Lopes, 26 anos, trabalhava no transporte escolar indígena da comunidade Laguinho, enquanto Josivan Moraes Lopes, 18 anos, era estudante.

O corpo de Josimar Moraes Lopes foi encontrado pelo povo indígena boiando no igarapé Bem Assim somente no dia 07 de agosto. Enquanto o corpo do jovem Josivan Moraes Lopes até o dia 10 de agosto ainda não havia sido encontrado.

Uma das lideranças, a cacique Alessandra Munduruku do município de Borba, de acordo com áudios divulgados nas redes sociais, denuncia que PM não deveria ter invadido a TI. A cacique afirma: “Fiquei desesperada, contando às pessoas que tinham vindo para Nova Olinda. Eram sete rabetas, voltaram seis. Uma que era dos dois rapazes, não voltou de dia e de noite, e esperei até ontem, para que a gente tivesse uma notícia boa”. E prossegue: “Eu quero Justiça pelo que a polícia fez dentro da minha comunidade, dentro do meu rio, que não deveria ter entrado sem autorização. Um era transportador de escola, da comunidade do Laguinho a Pindobal. O outro era aluno. Nós somos indígenas, nós vivemos no mato, mas ninguém é animal pra morrer desse jeito.”

O cacique-geral do rio Marimari, Gelcimar Freire Munduruku, em entrevista à agência Amazônia Real relata: “Me parece que eles entraram no lugar errado. Só fizeram rodar lá dentro do lago, e saíram e varando em um outro rio, chamado Urariá, paraná do Urariá, e foram embora para o rio Abacaxis. Mas cometeram essa barbaridade. Encontramos um corpo e outro está sumido, deram sumiço no outro corpo, deram sumiço na canoa deles, no rabeta, ninguém achou nada. Mataram dois indígenas, dois jovens, inocentes, porque eles não estavam envolvidos com nada disso”.

O professor Munduruku, Emilson Frota, destaca em entrevista ao mesmo portal que a região invadida pela PM é distante do local da operação e que nenhum dos jovens assassinados era envolvido com o tráfico de drogas. “Eles nem saíram da TI Kwatá-Laranjal. Muito provavelmente – a gente não tem certeza -, eles devem ter tipo um comportamento que os caras não gostaram, não sei. Só sei que eles morreram. Ontem, ela encontrou o corpo de apenas um e os documentos deles por lá, boiados. São policiais com raiva, com sangue nos olhos, com desejo de vingança”.

Em 10 de agosto, foram encontrados mais três corpos de populares que foram fotografados em um trecho do Rio Abacaxis habitado pelo povo Maraguás. Um deles foi identificado como Vanderlania de Souza Araujo, 34 anos,  moradora da comunidade Monte Horebe, pertencente ao Projeto de Assentamento Agroextrativista Abacaxis 2, seu companheiro Anderson Monteiro e do jovem Matheus Araujo, 16 anos.

O presidente da Associação Nova Esperança do Rio Abacaxis (Anera), Natanael Campos da Silva, foi ainda torturado pela  Polícia Militar, segundo denúncias, o crime ocorreu na presença do comandante da PM do Amazonas, Ayrton Norte.

No dia 14 de agosto o Governo enviou 30 agentes da Força Nacional, que permanecerá no local por 60 dias.

Os verdadeiros donos da terra

No local moram ribeirinhos, além do povo indígena Maraguá. O território da Terra Indígena Kwatá-Laranjal localizado entre os municípios de Borba e Nova Olinda do Norte foi reconhecido pelo Velho Estado somente em 2004, atualmente apenas na TI moram cerca de 2,5 mil indígenas dos povos Munduruku e Sateré Mawé. 

Os povos indígenas convivem com o garimpo ilegal e mais recentemente com o “turismo ambiental” que tem como principal atividade na região a pesca esportiva do peixe tucunaré.

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