O fascismo, a grande burguesia e a troca de favores, ontem e hoje

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No aniversário de Hitler, em 1938, Ferdinand Porsche explica ao nazista que o motor do Fusca fica no "Porta-Malas" do carro. Foto: Divulgação

Um Führer para os capitalistas

Em fevereiro de 1933 um grupo de grandes capitalistas alemães se reuniu com o então chanceler do país, Adolf Hitler. A ordem do dia foi o financiamento do partido nazista para que quatro objetivos imediatos fossem atingidos: (i) acabar com um regime fraco (República de Weimar); (ii) afastar a ameaça comunista; (iii) suprimir os sindicatos; e (iv) permitir que cada patrão fosse um Führer em sua empresa (1).

Ao final da reunião os presentes declararam total apoio aos planos nazistas. O grupo alemão Krupp (fabricante de aço e armas) usou mão de obra escrava dos prisioneiros de guerra e dos campos de concentração. Em 1999, ocorreu a fusão da Krupp com outra grande siderúrgica alemã formando a ThyssenKrupp (que fabrica muitos dos elevadores utilizados no Brasil). A Siemens, explorando os prisioneiros de Auschiwitz e Ravensbruck, fabricou telefones, telégrafos e rádios utilizados durante a guerra, bem como componentes elétricos para motores de aviões, equipamentos para geração de energia, materiais para ferrovias e munições. Foi a empresa responsável pela construção das câmaras de gás onde judeus, ciganos e comunistas foram mortos. A BMW, que fabricava motores para a força aérea alemã, utilizou mais de 30 mil escravos em suas fábricas. A Mercedes-Benz utilizou prisioneiros e civis de países invadidos pela Alemanha para fabricação de caminhões militares para Hitler. A Dr.Oetker fabricante de bolos, sobremesas e chás, também se beneficiou do nazismo.

Outra empresa do setor de alimentos, a suíça Nestlé, lucrou muito com Hitler utilizando trabalho escravo para fabricar seus chocolates.

A verborragia antifascista dos USA de proibição de negócios com alemães caía por terra quando envolvia muito dinheiro. Uma das maiores petroleiras estadunidenses, a Standard Oil, realizou o transporte de combustível para as hordas de Hitler durante a guerra. A Ford fabricava caminhões para o exército nazista na França. Durante a 2ª Guerra Mundial, a Ford dobrou de tamanho na Alemanha. O fusca da Volkswagen (inspirado no modelo T inventado pelo antissemita Henry Ford, para quem Hitler dedicou a 1ª edição do seu livro Minha luta) deu grande contribuição para a propaganda e economia do regime nazista. O presidente da General Motors, Alfred Sloan, motivado por seu fascismo declarado, cooperou em todos os aspectos com os nazistas, com doações para o partido de Hitler e demissão de trabalhadores judeus. Fabricou motores para aviões, detonadores de minas terrestres e torpedos.

Tendo a IBM como parceria, o regime de Hitler automatizou o plano de extermínio do povo judeu. Com a IBM, os nazistas conseguiram identificar quem eram os judeus, onde viviam e onde trabalhavam. A IBM coordenava toda a logística do transporte dos judeus até os campos de concentração, onde os nazistas utilizavam as informações reunidas pela empresa para gerenciar a mão de obra escrava e quem seria morto nas câmaras de gás. O número do cartão perfurado da IBM era tatuado no braço dos prisioneiros de Auschwitz. Os lucros obtidos pela empresa estadunidense em sua subsidiária alemã chegaram, em valores atualizados, a US$ 200 milhões (R$ 1,09 bilhão).

No início da 2ª Guerra Mundial a filial alemã da Coca-Cola estava isolada da matriz e não tinha acesso à matéria prima para fabricar o refrigerante. Nessa época a Alemanha era o maior mercado da empresa fora dos USA. A solução encontrada pela empresa foi utilizar os ingredientes disponíveis e inventou a Fanta que era fabricada por escravos nos campos de concentração. Outra empresa ianque a se beneficiar do nazismo foi a multinacional química DuPont que forneceu o conhecimento fundamental para que as fábricas alemãs fabricassem borracha, matéria prima para a guerra.

Fã de Mickey Mouse, Adolf Hitler assistia a filmes estadunidenses todas as noites e viu no cinema uma ferramenta para sua máquina de propaganda. Estúdios de Hollywood como Paramount, Columbia, Fox, Warner e MGM colaboraram de forma efetiva com o Terceiro Reich.

Hitler prometeu não mexer nas propriedades dos empresários estadunidenses se vencesse a guerra.

Coco Chanel, fundadora da multinacional de artigos de luxo, foi agente nazista na França sendo intermediária de conversas entre os nazistas e o anticomunista Churchill. Outra corporação do mundo da moda, Hugo Boss, fabricou os uniformes do exército nazista, quintuplicando seus lucros. Conseguiu isso explorando escravos.

Essas grandes corporações sobreviveram a Hitler e continuam financiando ao redor do mundo outros regimes que oprimem e esmagam as classes trabalhadoras.

 Um Mito para os empresários

No Brasil, Bolsonaro alçado à gerência do carcomido Estado brasileiro com a tarefa de liquidar os direitos dos trabalhadores e do povo, conta com o total apoio dos capitalistas internacionais e daqueles capitalistas ditos brasileiros, que se alimentam das migalhas caídas das mesas das corporações multinacionais. Com discurso “patriota” e defendendo um país livre e com economia liberal, empresas como Madero (de Júnior Durski que tem Luciano Huck como sócio), Polishop, Centauro, Coco Bambu, Riachuelo, Gazin, Smart Fit, as pertencentes à Paulo Skaf (presidente da FIESP), entre outras, crescem à sombra do poder. Os lucros desses bolsonaristas em 2019 ultrapassaram os R$ 40 bilhões, num país em que 21 milhões de pessoas têm apenas R$ 3,73 por dia para suas necessidades básicas (2).

É digno de nota o grande apoio que Bolsonaro recebeu de empresários na primeira eleição presidencial em que o financiamento de campanha por empresas foi proibido. Será que esse financiamento deixou mesmo de existir?

Dentre os apoiadores de Bolsonaro um se destaca, Luciano Hang, o dono da rede varejista Havan. Admirador do USA (suas lojas têm arquitetura inspirada na Casa Branca e réplicas da Estátua da Liberdade) e do capitalismo, como gosta de dizer, se enquadra no estereótipo do “self made man” que o sistema não se cansa de vomitar aos quatro ventos. De uma lojinha de tecidos na cidade de Brusque/SC construiu um patrimônio de R$ 19 bilhões. Hang é a 7ª pessoa mais rica do Brasil e o bilionário número 1.057 do mundo (3). Possui 147 lojas em 18 estados do país e estufa o peito para dizer que sua empresa não depende de governo ou de empréstimos. Mas não é isso o que dizem os fatos.    

De acordo com levantamento realizado via Lei de Acesso à Informação, o “Véio da Havan” como também é conhecido, contratou uma média de 1,6 empréstimos por ano (55 no total) desde 1993 junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) (4). Atualizados os valores dos empréstimos ultrapassam os R$ 72 milhões. Diz-se que Bolsonaro não abriu a caixa-preta do BNDES por causa desse seu apoiador.

O dono da Havan possui várias condenações na justiça. Em 1999 sofreu uma ação de busca e apreensão determinada pela Procuradoria da República de Blumenau/SC, o empresário foi autuado em R$ 117 milhões pela Receita Federal e R$ 10 milhões pelo INSS. Após recurso a “justiça” deu um prazo de 115 anos para que ele pagasse sua dívida. Em 2003, a 7ª Turma do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região condenou por unanimidade o “Véio” por sonegar R$ 10,4 milhões em contribuições previdenciárias de funcionários. Em 2004, o Ministério Público Federal propôs uma ação penal contra o dono da Havan por facilitação de descaminho, descaminho, falsificação, crime contra o sistema financeiro e a ordem tributária, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Na ocasião foi condenado a 13 anos, nove meses e 12 dias de reclusão, além de ter que pagar multa de 1,2 milhão de reais, mas teve a pena extinta em 2008 pela 1ª Vara da Justiça Federal em Itajaí (SC), que julgou inepta a denúncia. Em 2007, foi acusado pelo Ministério Público Federal de Santa Catarina de usar contas de laranjas para enviar R$ 500 mil para o exterior. Condenado em segunda instância no TRF-4 a sentença prescreveu e Hang não sofreu punição. Em 2018, voltou a ser condenado e em definitivo por constranger funcionários a votar em seu candidato a presidente. Sofreu várias condenações por espalhar notícias falsas na internet tendo suas contas em redes sociais bloqueadas, em julho de 2020, por decisão do Supremo Tribunal Federal. Como se pode ver, Hang, uma figura que expressa bem o que é a grande burguesia monopolista brasileira (importador-comprador que só alçou "grandes voos" graças ao impulsionamento proporcionado pela maquinaria burocrático-estatal através de mil falcatruas) é mais um sepulcro caiado de Bolsonaro.

A influência de Hang sobre o governo federal ficou evidenciada na famigerada “reunião ministerial”, de 22 de abril de 2020, quando o fascista Bolsonaro citou o problema que o empresário estava enfrentando com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para construir uma de suas lojas no Rio Grande do Sul. É como diz o dito popular: quem paga a banda, escolhe a música.

 A verdadeira face do capitalismo

O poeta alemão Bertolt Brecht definiu o fascismo como a forma de capitalismo mais nua, sem vergonha, opressiva e traiçoeira(5).; cabe adicionar, baseando-nos no grande Georgi Dimitrov: o acerto de contas dos elementos mais terroristas do capital financeiro contra o proletariado revolucionário, cujo centro é a negação da velha democracia burguesia, seu sistema parlamentar já desgastado, substituído pelo sistema corporativo. Num momento em que nosso povo é massacrado por uma pandemia e pela máquina de morte fascista pilotada pelas bestas de coturno e do mito beldroegas, não podemos tergiversar. Ainda lembrando Brecht, não é possível ser contra o fascismo sem ser contra o capitalismo. Quem lamenta a barbárie que sai da barbárie, são como pessoas que desejam comer carne de vitela sem matar o bezerro. Estão dispostos a comer o bezerro, mas não gostam de ver sangue. Pedem que o açougueiro lave as mãos antes de pesar a carne. Não são contra as relações de propriedade que geram a barbárie, são apenas contra a própria barbárie (4). Acreditam que notas de repúdio, posts em redes sociais, intrigas parlamentares, pedidos de impeachment ou a farsa eleitoral derrotarão a barbárie. Não!!! Não é assim que se combate o fascismo!!!

O revolucionário comunista italiano Antonio Gramsci dizia que “se não se quer iludir deve-se agir no plano da luta de classe enquanto uma força independente, que será em breve determinante, e não no plano da colaboração de classe no sentido de não fazer nada a não ser mudar a máscara da burguesia” (6). Sua análise para a situação italiana na década de 1920, é válida para a realidade brasileira no ano de 2020.

Lembrando os versos de Paulo César Pinheiro: “É melhor lutar do que fugir, tem é que parar com isto que tá aí, mesmo que você achando que não dá, vá querer desistir, só não me deixa o malandro insistir, não deixa a peteca cair” (7). Mas por quê? “Porque a gente merece ser feliz” (8).


Referências:

(1) VUILLARD, E. 2019. A ordem do dia. 1. Ed. Tusquets. 144 p.

(2) RIOS, R., SENA, J. R. 2020. Desigualdade social no Brasil cai, mas continua vergonhosa. Correio Braziliense. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2020/05/07/internas_economia,852168/desigualdade-social-cai-no-brasil-mas-continua-vergonhosa.shtml. Consultado em: Ago/2020.

(3) SPAUTZ, D. 2020. Luciano Hang sobe 14 posições na lista dos bilionários da Forbes. Disponível em:  https://www.nsctotal.com.br/colunistas/dagmara-spautz/luciano-hang-sobe-14-posicoes-na-lista-dos-bilionarios-da-forbes. Consultado em: Ago/2020.

(4) WALTENNERG, G., VINHAL, G. 2020. Luciano Hang obteve 55 empréstimos do BNDES para transformar Lojas Havan em império. Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/luciano-hang-obteve-55-emprestimos-do-bndes-para-transformar-lojas-havan-em-imperio. Consultado em: Ago/2020.

(5) Brecht, B. 1935. O Fascismo é a Verdadeira Face do Capitalismo, Twice a Year (Syracuse University Press, 1964 Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/brecht/1935/mes/fascismo.htm. Consultado em: Ago/2020.

(6) GRAMSCI, A. 1924. Nem Fascismo, nem Liberalismo: Sovietismo. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/gramsci/1924/10/07.htm. Consultado em: Ago/2020.

(7) Tô por aí – Eduardo Gudin/Paulo César Pinheiro

(8) A gente merece ser feliz – Ivan Lins/Paulo César Pinheiro

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