Editorial - Romper o ciclo vicioso

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Foto: Agustin Paullier/AFP

Desde o brutal assassinato de George Floyd, em 25 de maio, a superpotência imperialista Estados Unidos (USA) é palco dos maiores protestos de massas desde o fim dos anos de 1960. Há 50 anos, a luta pelos chamados “direitos civis”, embora tenha revertido alguns dos mais aberrantes aspectos do racismo legalizado (por quase um século a Suprema Corte daquele país autorizou a segregação por cor da pele em estabelecimentos públicos e privados), fracassou no intuito de erradicá-lo da sociedade norte-americana. Por que? Porque, em que pese a intervenção dos Panteras Negras e outras organizações revolucionárias e a participação significativa de amplos setores populares, prevaleceu uma direção burguesa no movimento, que pregou a ilusão de que era possível superar o racismo odioso mantendo intacto o Estado imperialista reacionário - gendarme dos povos no plano externo, prisão de povos no plano interno – apenas reformando-o.

Agora que o incêndio de indignação e protestos varre o país de alto a baixo, repete-se a mesma disputa. Quando Jacob Blake, um pai de família negro, recebeu sete tiros pelas costas na frente dos seus filhos, há uma semana, o candidato do Partido Democrata, Joe Biden, declarou que a alma da nação foi “perfurada”. Hipocrisia política fundada em descarada falsificação histórica: a mais recôndita alma da formação nacional do USA não foi outra senão o extermínio sem precedentes dos povos originários, seguida pela escravização dos povos africanos, pela guerra de rapina contra o México e, depois, sucessivas ocupações e expedições punitivas contra a América Central e, em seguida, toda a América Latina, laboratório, por sua vez, do que ocorreria depois em todo o mundo. Tanto Biden como Trump querem fazer dos manifestantes meros joguetes dos seus cálculos eleitorais, aquele, para apresentar-se como “humanista” e “democrático”, este, como arauto do “destino manifesto” e do que há de mais reacionário no país mais reacionário do mundo contemporâneo. Ambos concordam num ponto: é preciso deter a rebelião e voltar o quanto antes à normalidade, isto é, à ordem reacionária de sempre.

Obama, o carniceiro do Oriente Médio, é bem um exemplo. Agraciado com o Prêmio Nobel da Paz em 2009, e fabricado como “ícone pop” pelo mainstream, foi o único presidente ianque a estar em guerra declarada contra outros países durante todos os dias do seu mandato. Suas promessas de retirar as tropas do Iraque e do Afeganistão não só não foram cumpridas, como escalou a agressão formal e informal contra os povos oprimidos nos quatro cantos do mundo. Foi o primeiro presidente a autorizar o assassinato de um cidadão norte-americano longe de suas fronteiras, sem qualquer processo judicial – o famoso caso de Anwar al-Awlaki, bombardeado no interior do Iêmen. Pouco tempo depois, seu filho de 17 anos, sem responder por nenhuma acusação formal, também foi executado com um míssil de cruzeiro. Dentro do país, apesar de algumas mudanças cosméticas, não minimizou sequer o encarceramento em massa, que faz estudiosos chamarem o USA do século XXI de complexo militar-industrial-carcerário. Lá, eles têm mais de 2 milhões de presos, a maioria negros e latinos, e um laissez-faire jurídico de tal ordem brutal que faz o arcaico ordenamento brasileiro soar como progressista. Os imigrantes seguiram tendo um tratamento desumano, o que, aliás, é fundamental para a manutenção da engrenagem econômica interna, seja qual seja o partido no governo. Tudo isto nos faz lembrar a máxima de Marx, de que não pode ser livre um povo que oprime outros povos.

Portanto, agora que os protestos eclodem com força histórica, é preciso não repetir velhos erros. A luta contra o racismo é legítima e necessária, e deve ser enfocada como um front específico de uma mesma batalha: a batalha pela derrocada da ordem capitalista-imperialista e do Estado policial que existe para defendê-la. Nesta batalha, participam todos os trabalhadores, todos os oprimidos, que somos não uma “minoria”, mas a imensa maioria da população da Terra. A luta contra a violência policial e também contra as milícias paramilitares fascistas (que se tornou uma necessidade premente) deve ser conduzida de modo a elevar o nível de consciência e organização das forças populares, e não para perseguir miragens como a “reforma” ou mesmo o “fim” das polícias, estado de coisas impensável enquanto persista uma ordem social fundada no antagonismo de classe, na exploração e opressão da maioria por uma minoria parasitária.

A propósito: no Brasil também se sucedem as brutalidades policiais, que ganham um caráter cada vez mais político a partir da pregação de Bolsonaro. Nos dias mesmos que se seguiram aos protestos de princípios de junho, as polícias seguiram assassinando, espancando, torturando, pisando em pescoços, como a dizer: “aqui no engenho nós fazemos assim”. Esta semana o Rio de Janeiro viu a que níveis de insanidade pode chegar a dita “guerra às drogas”, cujos ideólogos, confessos ou sutis, usam de maneira cínica o cadáver de uma mãe para justificar a própria política de “confronto” que a matou. Aliás, o facínora Wilson Witzel foi afastado do cargo – e tudo indica que em breve será preso – acusado de corrupção. O assassinato de crianças, a execução sumária que ele celebrou na Ponte Rio-Niterói, as chacinas, os tiros a esmo disparados contra um bairro pobre desde um helicóptero, não lhe renderão um dia de cadeia sequer, como aliás fatos análogos não renderam nem a Pezão nem a Cabral. Na lógica escravista-semifeudal que nos governa, o patrimônio é o que interessa; as vidas das populações exploradas, oprimidas, empobrecidas e marginalizadas, nada importam.

Há alguma hipótese deste estado de coisas ser superado pacificamente, através de mera “mudança de costumes”, deixando incólumes as engrenagens de opressão que o criaram e que dele se alimentam? Pode cumprir algum papel efetivo a mera legislação, mantidas intactas todas as outras desigualdades estruturais? Podemos construir uma nova sociedade sem antes quebrar até os fundamentos todo o aparato jurídico-político-militar que assegura precisamente a manutenção dos privilégios e das iniquidades?

Nossa resposta é um categórico não a todas estas perguntas.

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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