Monopólio de educação privada corta cursos presenciais e aposta na EaD visando lucros colossais


Manifestação contra a EaD na Unicamp, em Campinas, São Paulo. Foto: Frente contra a EaD da Unicamp.

A Cogna Educação, maior empresa de ensino privado do Brasil, anunciou que cortará 75% dos cursos presenciais e investirá em plataformas digitais, a famosa Educação a Distância (EaD). Segundo a Cogna, a sua subdivisão responsável pelo ensino superior, a Kroton, reduzirá os cursos oferecidos de forma presencial em 75%, ou seja, dos 59 cursos hoje oferecidos de forma presencial só restarão 15.

Os cursos que permanecerão presenciais serão os de maior mensalidade como Medicina, Direito, Odontologia e Medicina veterinária. Os cursos de menor mensalidade passarão para a modalidade EaD.

Nesse cenário, o próprio presidente da rede de ensino, Rodrigo Galindo, declarou que, por exemplo, um curso de administração oferecido para alunos de maior renda continuaria de forma presencial e o mesmo curso para alunos de menor renda passaria para forma digital, a distância.

"Estamos mais restritivos com alunos que geram pouco caixa. Estamos fazendo redução do presencial e queremos fazer isso de forma ágil e intensa e focar na EaD e plataformas digitais, o que deve ajudar o crescimento da geração de caixa no médio e longo prazos”, apontou Galindo.

A Cogna é um monopólio que em 2016 possuía 877 mil matrículas (presenciais e EaD), enquanto o segundo maior grupo, a Estácio de Sá, continha 436 mil estudantes matriculados. Em 2020 são 292 alunos matriculados no ensino presencial e 552 na EaD.

Leia também: A luta contra a EaD e a precarização da Educação

A modalidade da EaD é mais vantajosa para as instituições privadas, pois possibilita um menor gasto material e com folhas de pagamento e, ainda, permite um número muito maior de matrículas, uma vez que cabe muito mais pessoas assistindo vídeo pela internet do que numa sala de aula, fato que provoca demissões em massa de professores e funcionários e uma defasagem imensa no ensino que passa a ser extremamente sucateado. Como exemplo desse cenário temos a Anhanguera Educacional Ltda, também pertencente ao grupo Cogna que, em média, possui 1.737 alunos por professor.

Empresas privadas já pressionam há bastante tempo pela popularização da EaD, porém a proposta se chocava com a resistência dos alunos e da população, que desconfia da qualidade desse ensino. Agora, com instituições públicas assumindo quase que em 100% dos cursos essa modalidade de educação e com o apoio do governo federal, as empresas de capital não estatal se aproveitam para implementar suas garras sobre a educação brasileira.

Fies

Uma das justificativas utilizadas pelo grupo Cogna para a reestruturação é de que o sistema da corporação “era para um cenário com Fies e sem Covid. Hoje, não temos Fies e temos Covid”, como afirmou o próprio Galindo.

A fala do magnata diz um pouco sobre o que é o Financiamento Estudantil (Fies), programa tão aclamado pelo oportunismo petista que transferiu por anos fundos públicos e ajudaram e muito a formar esses impérios privados da Educação.

"O Fies permitia a essas instituições, que hoje são monopólios, fazer a matrícula dos estudantes e, o que é mais importante no caso dessas instituições, fazer isso em troca de certificados de dívida pública, […] o que permitiu uma concentração de títulos de dívida enorme na mão desses oligopólios”, afirmou pesquisador Allan Kenji Seki, em entrevista ao Jornal UFSC à Esquerda.

O pesquisador continua dizendo que isso se dá, pois, “em primeiro lugar, permite a venda de matrículas e o pagamento de mensalidades, então se apropria de uma parcela do fundo de vida das famílias, em troca do comércio da educação. Em segundo lugar, é muito importante para eles concentrarem um enorme número de matrículas porque uma parcela significativa dessas matrículas, que em alguns momentos chegou a quase 60% da receita dessas instituições, vem atrelada a programas de isenções tributárias, como o Prouni, a troca de tributações por bolsas para estudantes e outros programas que vão surgindo no mesmo sentido, como o Proies”.

De acordo com Seki, “existe hoje no Brasil um pouco mais de 2 milhões de matrículas nas instituições públicas. Nas instituições privadas, só no ensino a distância, existe mais de 1,6 milhões matriculados”.

LUTA TOMA AS RUAS

No dia 29 de julho, estudantes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) convocaram um ato na frente do campus Maracanã, onde o grupo se reuniu para produzir e colar no portão vários cartazes contra a implementação do ensino remoto, além de estenderem faixas com dizeres como: Ensino remoto não! Contra a precarização da Educação! Os cartazes também traziam denúncias, como, por exemplo: O ensino remoto exclui as mães, ou outro que afirmava que a EaD seria precursora de uma grave evasão estudantil.

Em 31/07, estudantes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) marcharam até a Reitoria para reivindicar o direito ao trancamento, pois se veem obrigados a aderir à EaD como única opção, uma vez que, se não o fizerem, perderão suas bolsas e auxílios, para muitos, o único sustento nesse momento de crise.

No dia 11 de agosto, em Niterói (RJ), dezenas de estudantes participaram de uma manifestação em frente à Reitoria da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde ergueram faixas que afirmavam: Contra toda forma de ensino a distância e ensino remoto!, e exigiam mais assistência estudantil. Eles também reivindicaram o adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), previsto para o início de 2021.

Na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), em Mato Grosso do Sul, os estudantes promoveram exitosa colagem de centenas de “lambes” (cartazes) na principal avenida da cidade e na Reitoria universitária. Os cartazes exigiam o adiamento do Enem, demarcavam seu posicionamento contra a aplicação da EaD e contra as ameaças privatistas que têm sido inflamadas contra a UFGD, que já vive uma situação de intervenção federal.

Em alguns cursos, a forma encontrada pelos estudantes para combater a precarização da Educação foi convocar o boicote às aulas remotas, como no caso do Instituto de Química da Universidade de Campinas (Unicamp), e no curso de História da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), onde os estudantes também realizaram atividades para colar “lambes” pelo espaço da Universidade e no terminal rodoviário no centro da cidade em rechaço à EaD.

Há outras dezenas de exemplos de mobilizações que se deram no decorrer das últimas semanas, que incluem, por exemplo, cursos da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que também produziram notas de combate ao ensino a distância e ao sucateamento da Educação.

outras mobilizações e protestos contra a precarização e privatização estão ocorrendo em várias universidades do país, com a juventude se colocando na linha de frente no combate por uma educação pública, gratuita e de qualidade.

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