Editorial - Derrotar os ‘três tudos’ do governo militar

Servidores arriscam à vida para salvar pacientes do incêndio no HFB, no Rio de Janeiro. Foto:Fausto Maia/TheNews2/Estadão Conteúdo

No dia 27 de outubro, um incêndio atingiu as instalações do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), zona norte do Rio de Janeiro, a maior unidade de saúde gerida pela União na cidade. Pacientes e trabalhadores tiveram que sair às pressas, refugiando-se em oficinas, padarias, nas calçadas. Oito internados não suportaram a transferência e morreram. Quase em tempo real, começaram a aparecer os dados que confirmaram se tratar não de um acidente, e sim, de um crime anunciado: pelo menos desde 2019 a Defensoria Pública da União (DPU) alertava para o superaquecimento de geradores e as péssimas condições estruturais do hospital. O governo de Jair Bolsonaro/generais reduziu em 11% o orçamento do HFB em relação ao último ano de mandato de Temer.

Trata-se de retrato agudo de um problema bem conhecido de nossa população. O SUS, um dos poucos direitos democráticos conquistados e inscritos na Constituição de 1988, tem sido alvo preferencial da sanha predatória de diferentes governos de turno, sucateando-o com permanente subfinanciamento, corrupção, tráfico eleitoral, numa espécie de obsolescência programada que só atende aos interesses dos planos de saúde privados. Não deixa de ser sintomático que, nos dias mesmos em que o povo chileno enterrou a Carta de Pinochet com mais de um ano de combativos protestos (obrigando a reação a pleitear a farsa de constituinte), o governo de Bolsonaro e generais faça de tudo para ressuscitá-la no Brasil. Afinal, a resposta do governo militar à tragédia de Bonsucesso foi anunciar, vejam só, a privatização das unidades básicas de saúde, medida tão indecente que teve que ser retirada no mesmo dia. Trata-se, sem circunlóquios, de uma política genocida: basta dizer que, em plena pandemia, menos de um terço da verba emergencial destinada ao Ministério da Saúde tinha sido executada até agosto pelo general Eduardo Pazuello, num país que caminha para 200 mil mortos até o fim do ano e é um dos que menos faz testagens no mundo.

Esta é uma das facetas da nossa situação de guerra interna, da qual as outras são o desemprego galopante, a superpopulação carcerária, a violência policial, o racismo, a concentração das terras nas mãos do latifúndio e tantas misérias mais. As Forças Armadas reacionárias servem hoje, como sempre serviram, de ferrolho que mantém o povo e a nação atados às piores iniquidades, saqueios e privações. Não obedecem a Bolsonaro, como quer o senso comum, mas ao núcleo da reação interna de grandes burgueses e latifundiários, subordinados ao diktat do imperialismo norte-americano. Grandes burgueses e latifundiários, cujas frações divididas e em pugnas por controle da máquina do Estado, expressam no pugilato de sarjeta entre membros dos Três Poderes, o show vergonhoso que degrada a Nação perante o mundo. O capitão-do-mato, quanto mais bravateia, mais escancara sua impotência, como no caso da Coronavac, em que foi desautorizado em público pelo vice Mourão, num daqueles episódios singulares em que é o rabo que parece abanar o cachorro. No entanto, esta disputa pelo comando da contrarrevolução faz-se para viabilizar em essência o mesmo programa. Qual programa? Em síntese, o programa bestial que o imperialismo japonês implantou na China durante a Segunda Guerra Mundial e que foi resumido como “política dos três tudos”: queimar tudo, saquear tudo e matar a todos. É isso o que faz a corja reacionária que nos governa há cinco séculos, cujo centro orgânico encontra-se no Alto Comando das Forças Armadas (em particular do Exército). Queimam, depredam e matam populações e territórios, numa sucessão impressionante de crimes para os quais não há nem tribunais nem juízes que os julguem. Pátria, para eles, é uma extensão de terra e braços, a alimentar os privilégios sem fim da casa grande. Estas ratazanas galardoadas pensam e agem como colonialistas internos, cuja missão precípua é vigiar e combater o próprio povo.

A propósito, as questões relativas à vacina nada têm a ver com humanismo, e sim, com uma pesada disputa por hegemonia mundial. Não por acaso, o seu desenvolvimento está hoje restrito ao seleto grupo dos grandes laboratórios transnacionais, que detém o monopólio da tecnologia e faturarão bilhões de dólares com a venda não só do produto final como dos insumos necessários para a sua produção em larga escala. A disputa entre China, Inglaterra, Rússia e Estados Unidos (USA), para falar de alguns, nada mais é do que a competição selvagem por mercados para uma operação que promete gerar superlucros fabulosos. As condições em que “cedem” doses a países como o Brasil são, em geral, leoninas: recentemente veio a público o Memorando de Entendimento entre a Fiocruz e o laboratório Astrazeneca (vacina de Oxford), assinado a 31 de julho, e ele prevê a compra de 100 milhões de doses da vacina a um custo de 300 milhões de dólares, não reembolsáveis caso a pesquisa clínica dê resultados negativos, assim como não é reembolsável o valor adicional pago pelo governo brasileiro para obter transferência de tecnologia. A Astrazeneca manteve a patente sobre a fórmula da vacina e se outorgou o direito de decidir até quando vai a pandemia – o entendimento de que não se está mais em período pandêmico implicará em elevação de preços. Trata-se, como se vê, daquelas clássicas “ajudas” que sempre caracterizaram as práticas escorchantes do imperialismo nas colônias e semicolônias.

Não há solução para este estado de guerra fora da elevação do protesto popular e da organização, passo a passo, do caminho revolucionário. Pretender, como quer o oportunismo, “infiltrar-se” no Estado para mudá-lo por dentro só implica desmoralização dos que o fazem (para falar o mínimo) e debilitamento das forças populares. Deixar na boca da extrema-direita o discurso antissistema é o maior favor que se poderia prestar a ela, e os pífios resultados eleitorais obtidos pelos partidos reformistas o comprova. Na verdade, o próprio Bolsonaro amarga o desgaste de governar com tudo o que está aí, e nem de longe o cenário de 2020 se parece com o de 2018 (nas principais capitais, até aqui, ele tem tido resultados lastimáveis). Isto revela que as massas não enxergam perspectivas no espectro político oficial. Para a ordem, este é um grave perigo; para os democratas revolucionários, uma ímpar possibilidade. Como dizia Virgílio a Dante, às portas do inferno, “pensa que devemos subir muito mais alto e que foi pouco o haver saído deste abismo”.

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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