MG: Povo Kiriri vai lançar seu próprio livro didático

Casa da Cultura, que guarda artesanato e funciona como “nossa biblioteca cultural”. Venda de artesanato. Foto: Povo Kiriri

“Antigamente a gente tinha mais tempo de conversar, de contar história, (de falar entre nós) na beira de um fogo...hoje não tem mais nada disso. Os (nossos) jovens só querem ficar na internet, whatsapp, quando dá 6 h da tarde já está tudo na frente da TV, não conversam mais. (Por isso) o que a gente tem que fazer é trabalhar na sala de aula”. Assim a aldeia Kiriri do Rio Verde, no município mineiro de Caldas,explica a importância vital da escola indígena: a sobrevivência da tribo e de sua cultura, frente a um comportamento juvenil que perigosamente vai se desligando, cada vez mais, da sua indianidade.

Porém a preocupação não acaba aí. “Os autores (não-índios/brancos))de livros didáticos apresentam o indígena como um servidor do homem branco, e querem nos obrigar a adquirir um conhecimento que não é nosso, que não faz sentido para nossas vidas.” A solução foi então criar uma primeira obra didática própria, o Livro dos Saberes Tradicionais do Povo Kiriri do Rio Verde, a ser utilizado na Escola Estadual Indígena Kiriri do Acré (OBS: Acré é sinônimo de Rio Verde, no idioma do grupo).

ESPÍRITOS DOS “ENCANTADOS” PARTICIPAM

Com publicação prevista para breve, o livro é resultado de um trabalho coletivo realizado em 2019/2020, primeiro ano de funcionamento da escola. O coletivo envolveu alunos e professores, com auxílio da comunidade da aldeia (notadamente anciãs e anciãos) e colaboradores variados da região e de fora dela (professores e estudantes da Unicamp/SP, da Universidade Federal de Alfenas/MG; somando-se ainda os apoios da Universidade Estadual de Minas Gerais, da Universidade Estadual Paulista, da Universidade Federal da Paraíba, ONGs, Projetos de Extensão e Prefeitura de Caldas).

Sem esquecer, igualmente, da participação dos “Mestres Encantados, os Espíritos, que são nossos verdadeiros professores, que nunca nos abandonaram e nos enviam constantemente orientação.” A coordenação do livro foi feita pela professora Roseni Ramos de Souza(também conhecida como Rosy Pankaru), formada em História e Magistério Indígena na UNEB (Universidade do Estado da Bahia) e atual aluna de Pedagogia na Faculdade Dom Alberto, em Caldas, e por sua irmã Carliusa Ramos Pankaru, formada em Letras na UNEB, também liderança da aldeia, casada com o cacique Adenilson.

A escola funciona nos períodos matutino, vespertino e noturno, oferecendo ensino fundamental, médio e a EJA (Educação de Jovens e adultos). Daqui para a frente a ideia é estimular alunas/alunos a produzirem seu próprio material didático, nas seguintes disciplinas: Língua Materna; Relações com a Natureza, Vida e Ervas Medicinais; Uso do Território e Agricultura; Etnojogos (ou Etnoesportes); Cultura, Religiosidade e Rituais; Tecnologia.

Sobre a Língua Materna o livro conta que a do povo Kiriri é a Kipeá (extinta) e a do povo Pankaru, aliado coexistente no grupo do Rio Verde, é a Zebupuá (que conforme texto da Universidade Federal de São Carlos é uma variante da tupi-guarani, que “como reflexo da forte repressão estatal aos povos indígenas do Nordeste pode ser considerada quase extinta, sem grandes possibilisades de recuperação”)

 “SEQUIDÃO”

Logo no início do livro o grupo se apresenta: “Nós Kiriri do Rio Verde somos um povo originário da aldeia Kiriri de Muquém de São Francisco, no estado da Bahia. Migramos  para Caldas em 13 de março de 2017, (percorrendo uma distância de 1.600 Km) em busca da melhoria de vida.”

“Lá a região era seca e difícil para a agricultura (OBS:Hoje em MG, trabalhando juntos em mutirão, conseguem plantar milho, feijão, abobrinha, pimentão, inhame. E planejam atender com alimentos orgânicos, livres de agrotóxicos, as feiras e mercados da zona onde habitam).”

Segundo o cacique Edenilson a aldeia baiana sofria de “muita sequidão” e agora as famílias indígenas estão maravilhadas com aquilo que batizaram carinhosamente de nossa terra verde: “(...)aqui tem até um cheiro diferente, tudo verde, águas correndo...”

Prossegue o livro: “Hoje vivemos às margens do Rio Verde, somos 65 pessoas em área de 26 alqueires cercada de mata onde podemos praticar nossa Ciência (OBS: Tradições baseadas no binomio Jurema-Toré; ou seja:consumo da bebida medicinal e psicoativa/ alucinógena preparada com a planta jurema e prática da dança circular do Toré, feita ora no terreiro e ora num local secreto dentro da mata, a Casa da Ciência). Somos um povo guerreiro que respeita o direito dos outros e luta pelos seus direitos.”

NA LINHA DO TEMPO

Em seguida AND apresenta, numa linha do tempo, os principais episódios da história e das lutas dos Kiriri do Rio Verde:

Anos 1500 – Os Kiriris atuais são resultado de um processo definido por estudiosos como  “índios misturados” porém derivariam, primordialmente, de um numeroso grupo indígena habitante de vários estados nordestinos, conhecido como Kariri. Guerreiros respeitáveis e temidos, estes realizaram uma “terrível resistência” ao invasor europeu quinhentista, talvez a mais persistente que os portugueses encontraram em todo o país (segundo Capistrano de Abreu).

Anos 1600 – Nessa época já aparece o nome Kiriri em registros históricos.A criação da vila de Nova Soure, hoje município,no  norte da Bahia, ocorreu na aldeia de Natuba, fundada pelos jesuítas em 1666 justamente com os índios Kiriri.Os padres uniram cinco aldeias em uma só. O nome Natuba significaria "rio que não seca", pois a aldeia foi erguida nos arredores de um brejo, banhado por um riacho perene.

Anos 1700 – No século 18, o então rei de Portugal doou terras para as aldeias do sertão com mais de 100 casais, a pedido dos jesuítas, como um meio de dar cabo dos constantes conflitos gerados por pecuaristas. Os Kiriris foram incluídos nessas doações. Sua aldeia baiana de Saco dos Morcegos, uma das quatro ocupadas pela tribo na Bahia,tinha população estimada em 700 famílias e foi uma das áreas delimitadas da seguinte maneira: uma légua (6.600 m) em quadra. Ou seja, a partir da igreja (tida como centro) ia aos oito pontos cardeais e colaterais.Aconteceu que a doação não vingou na prática, a classe dominante a desobedeu, e Saco dos Morcegos virou a vila de Mirandela, município de Banzaê, norte da Bahia. Apenas em 1949,  com a instalação em Mirandela de um posto do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), a história da posse das terras seria retomada, com a posterior demarcação, na década 1980/1990. 

Anos 1800 – Os Kiriris participaram ativamente da Guerra de Canudos. Entre 1896 e 1897 um expressivo número de famílias da tribo aderiu ao comando de Antonio Conselheiro e boa parte do grupo Kiriri de Mirandela se mudou para o arraial de Canudos, no interior da Bahia. Conforme a página O Partisano, “em Canudos, firmou-se uma aliança com o povo indígena Kiriri, que lutou lado a lado com os rebelados de Antonio Conselheiro, levando quase ao desaparecimento da etnia com o massacre militar. Os últimos xamãs que guardavam o idioma original do povo, e conversavam com os Encantados, caíram nesta guerra. 

Estamos falando de ao menos 500 Kiriri de Mirandela mortos nas batalhas. Segundo a tradição oral desse povo, o primeiro combatente que caiu em Canudos foi um Kiriri.(...)O impacto foi tão avassalador que os poucos sobreviventes que voltaram ao seu território ancestral não puderam voltar a ocupá-lo, pois o latifúndio o havia tomado enquanto viveram no arraial.”

Anos 1980 – Parte dos Kiriris e suas lideranças, na década de 1980, saíram da Terra Indígena de Mirandela, devido a graves conflitos, externos e internos, rumo ao oeste baiano, onde se assentaram no município de Muquém de São Francisco.

Hoje grande parte do povo Kiriri segue em Mirandela, considerada “aldeia-mãe” e centro do mundo tribal. Dizem eles que os Encantados “escolheram Mirandela como ponto de concentração”, o que faz pensar que a aldeia-mãe seria também um referencial cosmológico.Entre os Kiriri de MG existem pessoas do povo Pankaru (um ramo dos Pankararu). Essas relações tiveram início antes da ocupação em Caldas, devido a realização de trocas sobretudo com o grupo Pankaru da Serra do Ramalho, oeste da BA, com quem viveram nos anos 1980. Fazem questão de esclarecer que apesar de reconhecerem sua origem e etnia hoje se dizem Kiriri porque se casaram com eles ou porque foram morar com eles na aldeia de Muquém.

Anos 1990 – No final da década de 1980 e inicio de 1990 os Kiriri intensificam a batalha por seu território, como a interdição (por eles) de uma importante estrada ligando Mirandela ao povoado de Marcação. Ao mesmo tempo retiram as ocupações não-indigenas ali localizadas. A pressão organizada da tribo leva finalmente a FUNAI a reassentar 37 famílias não-índias em outros lugares, fora da área Kiriri. Após uma enchente que derrubou suas moradias, os índios acampam perto de Mirandela, conseguindo em 1990 a demarcação de sua terra. Ou seja, depois de 200 longos anos, finalmente obtêm a legalização do montante da área doada pelo Rei de Portugal, os 12.320 hectares que compreendem a "légua em quadra".  Porém esta continuou ocupada por colonos e tudo passou a caminhar lentamente na parte administrativa oficial, revoltando a tribo.Assim esta constitui em 1995 um núcleo de resistência frente à demora nas providências. Resolvem então ocupar Mirandela e retirar, eles mesmos,todos os ocupantes de modo definitivo. Animados com sua organização e força, os Kiriri prosseguem as ações daquilo que chamam “a Reconquista”. Em 1996 entram no povoado de Gado Velho, vizinho de Mirandela. Em 1997 conseguem esvaziar o povoado de Baixa da Cangalha. E em 1998 celebram mais vitórias em Marcação, Araçá, Segredo e Pau-Ferro.

Anos 2000 –  Mudança para Caldas do Rio Verde, em 2017,com a conquista de um novo lar e de um novo futuro. Ameaçados de despejo em 2018 receberam ajuda e solidaredade dos moradores “brancos”de Rio Verde, orgulhosos por abrigarem uma tribo indígena e tê-la como vizinha. Diz a antropóloga Fernanda B. Henrique:“Deveríamos, enquanto ‘povo da mercadoria /ou povo do mundo da mercadoria’ (como define Davi Kopenawa, xamã da tribo Yanomami) aprender com os Kiriri e olhar para as possibilidades de bens tangíveis e itangíveis que uma terra pode apresentar. E, então, aprender com essas pessoas que estão construindo seus territórios e, através deles, expondo suas cosmopolíticas e a complexidade de seus cosmos em seus próprios termos e com toda a sua multiplicidade. Ou seja, para os Kariri a reivindicação da terra do Rio Verde ‘não diz respeito somente ao reconhecimento de direitos sobre determinada parcela do espaço’. Trata-se, antes, de reivindicar a possibilidade de construir relações de amizade e aliança, de fazer parentes e de reconhecer naquele território uma âncora ligada ao seu passado indígena, mas também a possibilidade de um presente que esteja de acordo com a forma ideal de se relacionar Kiriri, garantindo o futuro deste povo (Por um lugar de Vida: Os Kiriri do Rio Verde, Caldas/MG. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social, Fernanda Borges Henrique, Unicamp/SP, 2019.) Para o antropólogo João Pacheco de Oliveira, a saga dos povos indígenas do Nordeste é ilustrada de modo notável nos versos de Torquato Neto: "Desde que saí de casa, trouxe a viagem da volta gravada na minha mão, enterrada no umbigo, dentro e fora assim comigo, minha própria condução".

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