Casal de paramilitares se infiltrou no Psol para monitorar atividades de ex-deputada morta


Manifestação exige justiça para Marielle e Anderson e o fim da intervenção militar no RJ, 20/03/18. Banco de Dados AND

A revista do monopólio de imprensa, Veja, em reportagem de 7 de dezembro, revelou que paramilitares de extrema-direita pertencentes ao Escritório do Crime se infiltraram no Psol em 2016. Entre os objetivos perseguidos pelo grupo estava conseguir monitorar as atividades da sigla. A informação estava em segredo de justiça até então, para que "não prejudicasse as investigações, que correm sob sigilo".

Estas filiações ocorreram após 20 dias do 2o turno das eleições de 2016. A investigação feita pelo Departamento de Homicídios da Capital (DHC) sobre o caso, que foi divulgada pela Veja, busca verificar se a entrada dos dois "milicianos" tinha por objetivo monitorar atividades em que Marielle Franco participava e de avaliar a dinâmica interna da sigla.

O fato dos paramilitares terem se infiltrado era já objeto de atenção da DHC desde o ano passado. É anterior, portanto, a uma troca de cargos dos delegados responsáveis pelo caso, realizado em setembro deste ano.

Casal tinha ligação com o ‘capitão Adriano’ e é tido como membro da cúpula do Escritório do Crime

Laerte Silva de Lima e Erileide Barbosa da Rocha, sua esposa, foram presos nas fases 1 e 2 (respectivamente) da Operação "Intocáveis". Na ocasião da 1a fase, Laerte teve a sua prisão consumada na mesma ação que tornou o capitão Adriano foragido. Este último, por sua vez, é peça chave na investigação devido a que seu assassinato se deu em circunstâncias que especialistas afirmam ser uma "queima de arquivo".

Erileide, mulher de Laerte foi presa no desdobramento da 2a fase. A revista Veja indica, porém, que “por ter uma filha de sete anos e pelo fato de sua posição na estrutura hierárquica do Escritório do Crime não envolver ameaças, porte ilegal de arma ou assassinatos, a juíza Juliana Benevides de Barros Araujo concedeu prisão domiciliar à ré em fevereiro” e que desde então é monitorada.

Ainda segundo a revista, mesmo que não haja indícios dos dois serem pistoleiros de aluguel que respondem ao bando, “o casal de milicianos que se filiou ao Psol em novembro de 2016 operava o braço financeiro dos paramilitares que dominam Rio das Pedras, Muzema e adjacências”.

E reproduzindo denúncia da Operação que prendeu Laerte, é feita a indicação de que ele seria um dos cabeças do Escritório do Crime: “era homem de absoluta e estrita confiança de capitão Adriano (…) eles não só atuam no ramo da agiotagem, mas detêm o monopólio da venda de gás, bem como extorquem moradores e comerciantes, coagindo-os ao pagamento de taxas por ‘serviços’”. Já sobre Erileide assinala que “fazia gestão de cheques, notas e recibos do grupo criminoso – uma espécie de contabilidade informal do Escritório do Crime”.

Adriano Nóbrega era o chefe do Escritório do Crime e ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar (PM) do Rio de Janeiro, e foi morto em uma operação conjunta das PMs da Bahia e do Rio, em fevereiro deste ano. As condições suspeitas que envolvem sua morte indicam que foi uma "queima de arquivo".

a relação entre o escritório do Crime e Ronnie Lessa

Ronnie Lessa é o responsável, junto com Élcio de Queiroz, pelo tiro que matou a ex-deputada reformista e o motorista. A suspeita de que havia desentendimentos entre Ronnie e o Adriano Nóbrega, chefe do grupo paramilitar, foi levantada já há alguns meses. Em fevereiro deste ano, o "miliciano" Adriano Magalhães fora morto, com indícios de tortura e execução planejada. Nesta ocasião, o AND repercutiu a fala de José Cláudio Souza Alves, sociólogo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e autor do livro Dos Barões ao extermínio: uma história da violência na Baixada Fluminense sobre o caso: “Era o arquivo vivo do caso Marielle”. A suspeita de "queima de arquivos" foi levantada tendo em vista, também, as ligações com o filho do presidente.

As informações que foram reveladas pela reportagem Veja indicam que Lessa teve que se desfazer rapidamente de um estabelecimento no Rio das Pedras, comunidade que concentra algumas das mais lucrativas atividades dos grupos paramilitares, dominada à época justamente pelo capitão Adriano.

A benevolência do velho Estado com a atuação dos paramilitares de extrema-direita

As informações desencontradas, que somente pouco a pouco vão sendo reveladas pelas investigações judiciais, tentam esconder o quadro real da atuação dos grupos paramilitares no Rio de Janeiro, mais especificamente do Escritório do Crime, mas não apenas este grupo.

A motivação da justiça do velho Estado brasileiro não é de acabar ou confrontar os grupos paramilitares e o seu modus operandi. E isto fica claro na decisão de fevereiro deste ano da juíza Juliana Benevides de Barros Araujo, em que ela concedeu prisão domiciliar à mulher paramilitar. O que se busca é, no máximo, identificar e punir os paramilitares que possuem a função de execução ("pistoleiros de alugueis", no termo usado pelo monopólio de imprensa), deixando aqueles membros das cúpulas – que têm relações com políticos com alguma influência e mesmo de autoridades do velho Estado – intocáveis e livres para atuarem nas operações financeira e estrutural do bando, como é o caso de Erileide, que fazia todas as operações financeiras do grupo.

O próprio assassinato do ex-chefe do grupo, Adriano Nóbrega, em condições como as conhecidas revela a atuação de setores organizados em torno das forças policiais estatais no sentido de garantir os seus próprios interesses de integrantes destas organizações. No caso do "capitão Adriano" sua morte seria buscada, evitando a prisão do líder, pois poderia comprometer todas as ligações que envolvessem ele em negócios nas regiões da Zona Oeste do Rio de Janeiro (Rio das Pedras, Muzema, etc.).

E este fato, ainda, não é desligado do "Pacote Anticrime", redigido e proposto por Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro e generais, hoje seu desafeto político e atual consultor de empresas como Odebrecht (denunciadas na Operação "Lava Jato", quando Moro ainda era juiz responsável pela operação em Curitiba). Com a aprovação, há um ano, do pacote anticrime os delitos envolvendo grupos paramilitares ("milícias") possuem penas menores quando em comparação com crimes como tráfico de drogas. 

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