O aumento geral de João Dória e o cinismo da Fiesp

Foto: Eduardo Anizelli.

Ocorre no cenário político paulista uma briga política entre dois grupos, cada qual escondendo seus interesses escusos em embrulhos de boas intenções e “preocupação com o interesse público”. No mês de dezembro, preocupado em arrecadar finanças para o aparelho de Estado sob seu governo, o governador de São Paulo, João Dória (PSDB), promoveu o aumento do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Ato contínuo, a insuspeita Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), presidida pelo bolsonarista de ocasião Paulo Skaf, veio a público bradar contra a insensibilidade do governador por não ter pensado no impacto que tal medida causará nas famílias pobres. Por trás da demagogia, os interesses são outros.

A elevação da alíquota do ICMS, por um lado, impactará seguramente os preços finais de mercadorias como remédios, combustíveis, vestuário, calçados, comunicação, serviços em geral e alimentos, além de aumentar também o preço de produtos comprados pelas micro e pequenas empresas. Por certo, os maiores prejudicados serão os trabalhadores. Todavia não é isso que indigna a Fiesp.

A alíquota também impactará os interesses econômicos desses setores da grande burguesia e, especialmente, os latifundiários paulistas, que, diminuídas as concessões de benefícios fiscais e toda a escandalosa mordomia da qual usufruem impunemente, pagarão imposto maior para compra de insumos e demais mercadorias para seu consumo produtivo (tais como energia elétrica, tratores, máquinas e outros equipamentos). O choque entre este setor industrial-comercial da fração compradora da grande burguesia com Dória vem crescendo desde o início da pandemia, quando este último aplicou medidas restritivas mais severas, não por humanismo, mas por medo de uma explosão social contra o colapso do sistema de saúde que o levasse de roldão a um funeral político.

A mesma Fiesp que é defensora ardorosa do ‘pacote de ajuste fiscal’, que fez campanha pela contrarreforma previdenciária e advoga todos os pontos do receituário imperialista do FMI, posa, em uma nota, como grande defensora do povo em sua briga com Dória. Balela! Por si só, chega a ser ridículo que tais setores, perpetuadores do atraso e da desgraça da Nação e do povo, se pronunciem, como fizeram, para defender os interesses do consumidor e, mais: convocando “tratoraços” e agitações públicas, em frente a supermercados, contra a medida de Dória.

Em seu intuito de unir as reivindicações patronais com os aumentos de produtos de primeira necessidade das massas, o máximo de apoio que a gangue da Fiesp pode conseguir é o de outras sanguessugas. Sob uma máscara de “em defesa do trabalhador” o que buscam, realmente, é fazer a defesa de seus interesses particulares nas quedas de braços com os representantes do governo. Fazendo do jogo político da velha democracia um verdadeiro balcão de negócios, querem manter intocáveis seus acordos e negociatas corruptas e lesas-pátrias.

A atuação conseguiu o apoio, além dos latifundiários paulistas, do presidente da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), Reinaldo Scheibe, que também se pronunciou contrário a Dória: “Está faltando diálogo. O consumidor vai pagar mais caro agora”, resmunga e ameaça o representante dos empresários do ramo da saúde, que viram seus lucros multiplicarem-se em quatro, chegando a R$ 9 bilhões somente no 2º semestre do ano que se encerrou.

Se uma parte do fenômeno se explica pela economia, a outra se explica pela política. Skaf, eterno aspirante a governador de São Paulo, busca desgastar Dória em ataque combinado com a artilharia bolsonarista. Em 2022, presume-se que ele, Skaf, concorrerá ao cargo de gerente estadual e enfrentará algum apadrinhado de Dória. Este último, contando com força política na região que talvez possa ser suficiente para emplacar um substituto, tentará alçar voos mais altos, quem sabe até o Palácio do Planalto ou como vice em uma chapa de algum apresentador de televisão.

Porém, o cinismo não é propriedade singular dos “defensores do povão” da Fiesp e latifundiários. Dória veste a capa daquele que está tachando grupos poderosos para o bem comum. Em verdade, busca financiar a máquina estatal para, nos próximos dois anos, aplacar o máximo possível medidas de cunho eleitoreiro – assim como seu coadjuvante Covas da prefeitura de São Paulo que, no ano de farsa eleitoral municipal, gastou quase R$ 800 milhões em obras de asfaltar ruas, em uma prática tão comum da velha e podre democracia tupiniquim.

Ainda que em uma primeira vista pareça confuso todo o conflito de interesses dos reacionários, eles convergem na perseguição de três objetivos reacionários, ainda que cada qual à sua maneira: tirar o país da crise econômica, impulsionando o capitalismo burocrático; reestruturar politicamente o velho Estado, como forma de manter sua velha ordem de opressão e exploração das massas; e conjurar o perigo de um levantamento de massas pelo caminho da restrição máxima da manifestação e organização das massas, através de medidas justificadas com o “prevenção da proliferação do vírus” que dão nova aparência ao processo de reacionarização em curso (com leis de criminalização do protesto popular, endurecimento penal e escalada da ação violenta das forças armadas reacionárias).

O que resulta, ao fim de tudo isto, que a esperança das massas populares só deve passar pela atuação enérgica em defesa de seus interesses. Sem qualquer ilusão com o velho Estado brasileiro, verdadeira máquina de moer pobres, e com seus diferentes representantes políticos. No caminho, enfim, da Revolução Democrática ininterrupta ao Socialismo.

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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