'Legalistas reacionários' de Trump provocam motim e invadem prédio do Capitólio

Publicamos a tradução da matéria publicada pelo periódico estadunidense Tribune of the People (Tribuna do Povo, em português), repercutindo os acontecimentos e fazendo uma primeira e breve análise do ocorrido no dia 6 de janeiro, no Capitólio, por ocasião dos protestos organizados pelo presidente ultrarreacionário do USA, Donald Trump (derrotado na última eleição), cujos objetivos foram se opor e pressionar ao evento de certificação da vitória eleitoral de Joe Biden pelo parlamento ianque. Outras matérias acerca do tema serão publicadas nos próximos dias.

Nota do tradutor: O termo "Legalista" está, no original em inglês, Loyalist - termo que, por sua vez, possui as seguintes traduções para a língua portuguesa: "pessoa ou grupo que fortemente apoio o governo ou líder de um país no poder; pessoa que é leal; um apoiador do soberano ou do governo existente, especialmente em tempo de revolta". A tradução conta, portanto, com dois sentido principais, quais sejam: adjetivo para caracterizar aquele que é leal a um líder político e ainda aquele que apoia o governo e o sistema político ao qual está ancorado.

A escolha pelo termo legalista, além de obedecer aos critérios de tradução, explica-se, ademais, pelo aspecto político da formação política do Estado imperialista ianque, particularmente da Segunda Emenda à Constituição (a qual Trump e seus apoiadores são os maiores defensores).

É a Segunda Emenda que concede uma série de garantias à legítima defesa, ao porte de armas e às organizações de milícias, "necessárias para a segurança de um Estado livre", segundo o próprio texto constitucional.

Esta, por sua vez, é um aspecto importante na caracterização de Trump não como um fascista (como querem os "analistas" políticos burgueses, que discordam de Trump não por humanismo ou coisa que o valha, mas sim por discordar do modo que conduz a superpotência hegemônica única em um momento de crise de decomposição do sistema imperialista a nível mundial), mas sim como um ultrarreacionário que predica a deformação do ordenamento jurídico-legal para torná-lo mais reacionário, centralizado e violador de direitos, todavia, ainda na forma democrática-burguesa (ou demoliberal). Esta fundamentação, por sua vez, está presente no texto As eleições do USA e o papel de Avakian, publicado pela revista Internacional Comunista, cuja tradução ao português encontra-se no blog Servir ao Povo:

As milícias – forças auxiliares do exército e da polícia para reprimir os explorados

A Segunda Emenda da Constituição do USA declara: “Uma milícia bem regulamentada, sendo necessária à segurança de um Estado livre, o direito do povo de manter e portar armas, não deve ser infringido”. Devido à decisão da Suprema Corte (Distrito de Columbia contra Heller, 2008), as milícias não são revogadas pela Guarda Nacional ou pelas Forças de Defesa do Estado. É por isso que as milícias não podem ser vistas como ilegais ou antidemocráticas, mas como uma questão chave constitucional “necessária”, fiel ao Estado, defensores da democracia burguesa (se pegarem em armas em nome da lei e da ordem), correspondente ao sistema legal do USA . É para manter o que o PCP expôs em sua Linha Internacional:

“[…] O USA tem uma economia centrada no monopólio de propriedades não-estatais; politicamente, desdobra uma democracia burguesa com uma crescente restrição de direitos. É um liberalismo reacionário;[…]” (Linha Política Geral do Partido Comunista do Peru, Linha Internacional, Partido Comunista do Peru, 1988). Isto continua a ser verdade. É particularmente importante no contexto internacional, onde grupos de milícias estadunidenses são freqüentemente equiparados aos “Camisas Negras” italianos ou as “Sturmabteilung” alemãs, o que é profundamente errado.

Entre os abundantes grupos de milícias (com cerca de 50 a 75 mil membros) existem muitos reacionários, nacionalistas e racistas, mas nem todos os reacionários, nacionalistas ou racistas são inevitavelmente fascistas, nem sua forma de organização [necessariamente é fascista].

Um famoso grupo reacionário obstinado e terrivelmente brutal, o Ku Klux Klan, fundado após a derrota dos Dixie na Guerra Civil estadunidense, surgiu em uma organização anti-negra, anticatólica e antijudaica no início do século 20, e hoje dividido em vários grupos de fragmentação menores é chamado até mesmo pela Liga Anti-Difamação de “supremacia branca” (ADL: “Tattered Robes”, 2016), e não [é chamado de] fascista. Apenas algumas milícias podem ser consideradas como literalmente fascistas. A mídia burguesa, além de revisionistas e oportunistas, rotulam a maioria das milícias como fascistas. Elas não são paramilitares, senão tropas auxiliares da polícia, defensores da ditadura burguesa contra as revoltas das massas. O próprio Trump é indiferente ao apoio destas poucas milícias fascistas, sua ambiguidade é uma manobra eleitoral. E embora ele seja apoiado por eles, isto não significa que ele mesmo seja um fascista. É notável que os governantes burgueses não preferem o fascismo, e sim a democracia burguesa, porque o fascismo aguça as contradições e é menos calmo. As condições, sob o fascismo, são mais desafiadoras para a classe dominante e eles tentarão massacrar a revolução de qualquer maneira, com ou sem fascismo. O fascismo não é a única maneira de travar uma guerra contrarrevolucionária. A centralização absoluta toma forma em duas formas: o absolutismo presidencial e o fascismo. Uma destas duas formas pode ser aplicada por reação em relação às especificidades sociais e históricas concretas do país. Como pensou Lênin:

“[…] e em nenhum lugar esta supressão do movimento operário é acompanhada de uma severidade tão implacável como na Suíça e nos EUA […]” (V.I. Lênin, Sobre o Estado, Conferência na Universidade Sverdlov, 1919.)

Apoiadores de Trump no Capitólio dos EUA. Foto: Tribuna do Povo (TP)


Na tarde em que o Congresso do Estados Unidos - USA estava programado para certificar a eleição de Joe Biden para a presidência, uma multidão de milhares de apoiadores de Trump entraram na capital do USA em Washington D.C. e foram autorizados a violar o prédio pelos órgãos responsáveis de aplicação da lei, paralisando o processo de certificação e colocando os políticos sob ordens de evacuação imediata quando o Capitólio foi invadido pelos legalistas beligerantes de Trump.

A maioria da classe dominante imperialista do USA uniu-se contra Trump no rescaldo e afirmou que os eventos de quarta-feira foram um 'ataque à democracia', com o presidente eleito Biden e a mídia monopolista enquadrando o ocorrido como um "golpe" ou "insurreição", e seus participantes como "terroristas domésticos". Esses rótulos servem à demagogia da classe dominante para defender histericamente o imperialismo do USA.

Não se tratou de uma insurreição, mas de uma rebelião alimentada por Trump e seus seguidores reacionários, que buscam defender o sistema imperialista do USA, simplesmente se opondo à ala do imperialismo liderada pelos democratas e seus rivais representantes do capital financeiro.

Com os motins, Trump perderá o apoio de grande parte dos dirigentes do Partido Republicano, mas, com eles, Trump mandou uma forte mensagem ao resto da burguesia de que comanda uma base ativa e enérgica, disposta a se engajar na mobilização armada, por ora.

Apoiadores de Trump no Capitólio dos EUA. Foto: NBC News

Os eventos começaram na quarta-feira de manhã, quando Trump discursou em uma grande manifestação de seus apoiadores, dizendo-lhes: "Vocês nunca irão tomar nosso país de volta com fraqueza, vocês devem ser fortes", e os encorajando a marchar sobre o edifício do Capitólio após o comício.

Enquanto a multidão aumentava e avançava nos degraus do Capitólio por volta das 14h do horário leste, a polícia do metrô de D.C. e a polícia do Capitólio do USA, as principais agências de aplicação da lei ativas para monitorar os protestos, permitiram a invasão, recuando enquanto a multidão de Trump passava marchando. Alguns vídeos mostram a polícia apertando a mão de manifestantes antes do tumulto.

As forças policiais locais formam uma parte importante da base da base de Trump, e deve-se entender que os sindicatos policiais estariam dispostos a oferecer apoio tácito para qualquer tipo de mobilização contra a certificação do Colégio Eleitoral. Ironicamente, as raízes da polícia do metrô de D.C. são uma resposta a um motim reacionário que invadiu a Casa Branca em 1841.

Ao contrário da situação nos meses anteriores, durante os protestos pelas vidas dos negros e outros eventos progressistas, houve uma presença policial minúscula - a maioria dos policiais usava uniforme básico, quase nenhum aparelho de controle de revoltas. Além disso, a mídia burguesa informou que o presidente Trump havia bloqueado as tentativas de trazer a Guarda Nacional ao longo do dia, garantindo condições táticas favoráveis ​​para seus seguidores.

Quando os manifestantes reacionários chegaram às portas do Capitólio, eles quebraram janelas e quebraram fechaduras, inundando o interior enquanto carregavam faixas de Trump e bandeiras estadunidenses, bem como entraram em confronto com a polícia do Capitólio. Alguns manifestantes foram aos escritórios de políticos, posando para fotos nas mesas de líderes como Nancy Pelosi.

As câmaras da do Parlamento e do Senado foram evacuadas, e as portas da Câmara fechadas com móveis. A polícia do Capitólio defendeu as portas com armas em punho enquanto políticos se abrigavam no chão. Os manifestantes puderam entrar nas câmaras do Senado e vagar livremente entre as mesas.

Cinco pessoas morreram durante os eventos, incluindo um policial do Capitólio. Três apoiadores de Trump teriam morrido de “emergências médicas” e uma apoiadora de Trump foi mortalmente baleada pela polícia do Capitólio durante a incursão. Ela não resistiu aos ferimentos, morrendo no hospital, e provavelmente se tornará uma mártir do movimento Trump, enquanto os liberais reacionários citarão a ocorrência para pedir mais apoio à polícia.

 Policiais do Capitólio defendem a entrada da Câmara dos Deputados com armas em punho. Foto: Tribuna do Povo (TP)

Os elogios à polícia têm sido unânimes de todos os parlamentares, especialmente os democratas, que conquistaram vitórias eleitorais nas costas dos protestos contra a violência policial e em defesa da vida do povo preto, sem nunca mudar sua lealdade à polícia, que assassina a classe trabalhadora em defesa da democracia burguesa reacionária e a propriedade privada.

Depois que o caos começou a diminuir, a Guarda Nacional foi autorizada a ser enviada pelo vice-presidente Mike Pence, apesar do papel de Trump como comandante-chefe. Quando a multidão deixou o Capitólio, Trump chamou seus apoiadores de "grandes patriotas" e disse-lhes para "voltarem para casa em paz". Ele continuou a alegar que a eleição foi roubada dele, resultando em Twitter, Facebook e Instagram tomando a medida de bloquear suas contas e prevenir novas postagens, possivelmente indefinidamente.

A Câmara dos Parlamentares e o Senado se reuniram novamente por volta das 20h para continuar o processo de certificação, e Pence foi aplaudido de pé por todos os membros do Congresso após condenar a violência. Os políticos fizeram discursos grandiosos sobre como a “democracia americana” não seria interrompida. O líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, declarou: “O mecanismo de nossa democracia continuou” e que “o comportamento criminoso nunca dominará o Congresso do USA”.

O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, celebrou a aplicação da lei e chamou os partidários de Trump de "terroristas domésticos" e que eles "não representam a América", apesar da devoção total dos apoiadores de Trump ao chauvinismo do USA e sua disposição de invadir o Capitólio no que consideram uma defesa patriótica do processo eleitoral do USA.

Os políticos democratas e republicanos no Congresso usaram a sessão reconvocada para elogiar os policiais que, segundo eles, defenderam o Capitólio, mas todos os fatos objetivos mostram que eles eram uma força quase insignificante e adotaram uma abordagem passiva às incursões até que atingissem estados de conflito intensos dentro.

Na mídia monopolista, ex-funcionários de Trump desfilaram para condená-lo. Trump perdeu quase todo o apoio tácito dos imperialistas, mas mesmo depois das arruaças que tentaram parar o processo eleitoral, muitos políticos votaram a favor das objeções à certificação de voto em uma homenagem a Trump e seus futuros políticos. Por fim, os votos do Colégio Eleitoral foram certificados na noite de quarta-feira, abrindo caminho para a posse de Biden em 20 de janeiro.

A extrema direita divulgou a narrativa de que os elementos mais violentos do motim eram, na realidade, provocadores "antifa". O republicano Matt Gaetz, um representante da Flórida, afirmou que "algumas das pessoas que invadiram o Capitólio hoje não eram apoiadores de Trump, eles estavam se disfarçando como apoiadores de Trump e, na verdade, eram membros do violento grupo terrorista antifa". Essas alegações são infundadas e feitas sem qualquer evidência.

Essa ofuscação será utilizada pela burguesia. Os democratas aumentarão seus apelos ao policiamento e à lei e ordem, enquanto a extrema direita, ainda atendendo à base de Trump, poderá reivindicar a vitória da propaganda de uma incursão necessária para defender o processo democrático - simultaneamente descarregando a culpa para o atos mais agressivos em seu bicho-papão 'antifa'.

 Vice-presidente e presidente da Câmara, Nancy Pelosi. Foto: New York Times

Os partidários mais reacionários de Trump não serão reprimidos, e pode-se esperar que Trump continue chutando e gritando com a perspectiva de deixar a Casa Branca no que equivale a pouco mais que um golpe publicitário. No entanto, ele carece de qualquer apoio oficial para preservar sua posição lá e sairá conforme o esperado - ele carece do apoio claro dos militares e de outros controles importantes sobre o estado repressivo. Na manhã de quinta-feira, o escritório de Trump emitiu um comunicado declarando que, embora ele ainda não concorde com os resultados, ele promete uma “transição ordenada” [para o novo governo - N.T.].

Estão chegando informes de que vários funcionários da Casa Branca renunciaram, mas até agora, não houve um abandono massivo por parte dos funcionários da administração de Trump. Na quinta-feira, a presidente democrata da Câmara, Nancy Pelosi, intensificou os pedidos para invocar a 25ª Emenda, que permite que funcionários do governo declarem um presidente em exercício inapto para o cargo. Ela ameaçou que, se não houvesse ação concreta, ela pressionaria por um processo de impeachment acelerado.

A burguesia liberal indignada parece ter o apoio dos capitalistas monopolistas por trás deles, dado que o CEO da National Association of Manufacturers (Associação Nacional de Manufaturadores), a maior organização do país que representa os fabricantes capitalistas, emitiu um comunicado, dizendo: “O presidente derrotado incitou a violência numa tentativa de reter seu poder”, pedindo a destituição de Trump.

Até agora, a associação tem sido um dos principais patrocinadores de Trump. Representantes do capital financeiro também participaram, com os CEOs do Citibank, JP Morgan Chase, Wells Fargo e Goldman Sachs fazendo declarações semelhantes denunciando o Trump. Parece que Trump ultrapassou qualquer apoio oficial ou tácito dos mais altos níveis do imperialismo ianque, e terá de construir um caminho por conta própria no curto prazo se continuar na política.

Conforme a inauguração se aproxima, resta saber como Trump utilizará sua última semana para mobilizar sua base e fazer qualquer propaganda final, mas uma presença mais forte de aplicação da lei pode ser esperada no Capitólio, composta por uma Guarda Nacional que exibirá menos tolerância para os partidários de Trump, agora apoiados pelos democratas, e uma burguesia imperialista mais unida que está pronta para fazer cumprir a “lei e a ordem enquanto Trump planeja sua saída.

Neste grande caos, este é o momento para o povo e a classe trabalhadora se unirem ainda mais, fortalecerem a organização e aprenderem a lutar lutando por uma nova sociedade, para derrubar este decrépito sistema imperialista que só se deteriora a cada dia e não existe outro caminho, mas para a ruína.

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