Editorial - Escárnio geral

Bolsonaro e General Pazuello. Foto: Andressa Anholete.

Enquanto a imunização da população brasileira contra a Covid-19 avança a passos lentos, já se avolumam as denúncias de “fura-filas” pelo País. Figurões de todos os tamanhos utilizam-se de seus cargos ou dinheiro para se beneficiar das escassas doses disponíveis. Em Manaus, onde a crise é aguda, a vacinação chegou a ser suspensa devido às denúncias de fraudes e nomeações oportunistas. Das 3 mil doses enviadas ao estado de Amazonas, apenas 500 chegaram aos grupos prioritários (pessoal de saúde da linha de frente, indígenas e idosos), enquanto 2,5 mil atenderam, sem cerimônia alguma, aos ricos privilegiados de sempre.  E, quando pensamos já ter visto de tudo, este governo genocida de Bolsonaro/generais defende a privatização da vacina, o que nada mais é do que a legalização da furagem de fila pelos endinheirados. A coisa é tão absurda, que o próprio laboratório fornecedor recusou-se, por ora, a levá-la à frente.

De outro lado, o escândalo da falta de oxigênio nos hospitais amazonenses redundou em pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para investigar a atuação do general da ativa Eduardo Pazuello – o carniceiro. Oras, esta mesma PGR sinalizou, no último dia 20, com a decretação do “Estado de defesa” pelo governo de Bolsonaro/generais, uma espécie de caminho jurídico para consumar o golpe em curso. O que revela que o general tem sido usado como boi de piranha pelo capitão. Pazuello deve ser julgado e condenado por seus atos, mas devemos sempre ressaltar que ele não é mais do que um fantoche dos seus superiores no Palácio do Planalto.

Falando em seus superiores, na última semana, o Exército postou em suas páginas oficiais uma foto em que militares, celebrando a conclusão de um curso, tiveram seus rostos cobertos por máscaras digitais, na tentativa de maquiar o desrespeito ali praticado frente às medidas sanitárias mais elementares. Difícil saber o que é mais grosseiro: se a fraude no registro ou a atuação desta instituição reacionária ao longo da pandemia, caracterizada pela preocupação sistemática em sonegar e mesmo manipular os números de infectados e mortos. Aliás, os “democratas” monopólios de imprensa abafaram a denúncia, em curso no Tribunal de Contas da União (TCU), de compra superfaturada de insumos para a produção de cloroquina no Laboratório do Exército. Em ofício enviado ao Tribunal, o Exército alega que, mesmo sem eficácia comprovada, tal medida era necessária para “produzir esperança a milhões de corações aflitos com o avanço e os impactos da doença no Brasil e no mundo”. Nosso problema, presume-se, não é a falta de respiradores, ou vacina, ou oxigênio, mas de esperança – quiçá, a esperança mais cara do mundo.

A propósito, o general Augusto Heleno – o truculento (aquele cuja estatura é inversamente proporcional à desfaçatez), postou em seu Twitter, no último dia 22: “Hoje, o governo da Índia, em marcante gesto de amizade, deu prioridade ao Brasil para adquirir e receber a vacina contra a Covid-19. Brilhante vitória diplomática do Pres Bolsonaro, dos Min Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello e do Emb André Corrêa do Lago. Parabéns ao povo brasileiro.” O nível de desencontro da mensagem com a realidade é tão grande, que somos obrigados a perguntar: virá esta voz do hospício? O laboratório Serum, fornecedor das vacinas, vendeu as doses ao Brasil por mais do que o dobro do preço praticado com a União Europeia (UE). Enquanto os países deste bloco pagaram US$ 2,10 pela unidade, o Brasil pagou, nesta primeira remessa, US$ 5,25. Mesmo as futuras doses, produzidas na Fiocruz, terão um preço final superior ao pago pelos europeus: US$ 3,16 a unidade. Preço que será renegociado ao fim da pandemia, definição que caberá de modo unilateral à Astrazeneca. É esta a dita “vacina do Brasil”.

Na mesma sexta, 22, quando fervia o tema da vacina, Bolsonaro, que passou 17 dias de férias no fim do ano, foi prestigiar o treino do Flamengo. Convenhamos que apenas longos anos de um ócio meticuloso poderiam produzir uma ignorância tão vasta quanto a deste Bonaparte de boteco, chefete de fascistas que torpedeiam prédios públicos com fogos de artifício e creem que o sol nascente da bandeira do Japão simboliza o comunismo. Ele e sua gangue são mesmo, como se diz, cara de um, focinho de outro.

Falando em ócio, o Congresso Nacional, que custa cerca de 11 bilhões de reais aos brasileiros por ano, segue de férias, em meio à maior emergência sanitária no mundo em um século. Por lá, o tema do momento não são os mais de 200 mil mortos, mas as eleições para a presidência da Câmara e do Senado. O emedebista Baleia, apoiado pelos petistas (eles não gritavam golpe?), disse num dia ser contra o impeachment, no outro disse o contrário. Rodrigo Maia, que em meados do ano passado esteve cotado para substituir Paulo Guedes na Esplanada, e agora “lacra” dia sim outro também contra Bolsonaro no Twitter, não pauta nenhum dos sessenta pedidos de impedimento do capitão do mato. Esta é a consequência política com que os “liberais” atuam: a nefanda política de apaziguamento com os fascistas! Uma vez Munique, sempre Munique*.

Do outro lado da praça, o Supremo Tribunal Federal (STF) assiste. Estes próceres da república não foram capazes nem mesmo de, via liminar, suspender a aplicação do Enem, cuja realização constituiu crime inominável contra a juventude, com abstenção recorde de mais de 50%. Os inquéritos contra os ditos atos antidemocráticos, até aqui, apesar de todo o estardalhaço, não alcançaram mais do que figuras secundárias, caricaturas de lideranças. O que prova que, ali, no fim das contas, a banda toca segundo o ritmo ditado pelos generais. O morde e assopra de suas decisões não obedece às leis – como quer a tola ilusão dos reformistas – mas aos ditames dos poderosos do momento. Esta é, afinal, a instituição que foi suporte e guardiã tanto do Estado Novo quanto dos 21 anos de regime militar.

Fixem este quadro: é ou não é o retrato de uma ordem que afunda? Escárnio generalizado dos poderosos frente à população; um nível de decomposição do tecido social e de cinismo jamais visto entre nós em época alguma.

Este decadentismo em toda parte, a quebra explícita de qualquer identidade remota entre a superestrutura política e os interesses das grandes massas, prepara o acerto de contas futuro, que será tanto mais furioso quanto mais estas tenham sido espezinhadas. A memória dos povos não falha. Uma vez que estes se põem em marcha, aquilo que parecia superado renasce como se ocorrido no próprio dia. A história então rompe o cerco, de modo que, como dizia o velho Hegel, “esse desmoronar-se gradual, que não alterava a fisionomia do todo, é interrompido pelo sol nascente, que revela num clarão a imagem do mundo novo”.


* Reunião patrocinada por Hitler, na cidade alemã de Munique, em 1938, que terminou com a capitulação das “democracias europeias” perante a anexação da Tchecoslováquia pelos nazistas. Foi o ponto máximo da “política do apaziguamento”, que era, na verdade, incentivo para lançar Hitler contra a União Soviética. A diplomacia soviética condenou com veemência este acordo.

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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