Os castos tutores da República

Reunião do Alto Comando das Forças Armadas (ACFA), em Brasília, no ano de 2019. Foto: Sgt Djalma/CCOMSEx

As Forças Armadas reacionárias, com seus altos mandos à cabeça, fazem uma propaganda invejável de si mesmas. Seus altos comandantes tentam aparentar-se como os incorruptíveis, as vestais e os únicos com espírito público e nacional, portanto, os potentados da república por direito e consequência. Escracham os parlamentares e os políticos; atribuem todos os problemas da Nação à incompetência, corrupção e falta de espírito público destes, e aspiram exercer reconhecidamente seu papel de guardiões e tutores do país. O Exército, pioneiro e manda-chuva dentre as demais, debita a si a proclamação da República, usurpa a memória e o heroísmo do rebelde Movimento Tenentista que o impôs fragorosas e vexaminosas derrotas, se orgulha do golpe de estado de 1° de abril de 64 e seu regime fascista, aos quais descaradamente chama de “Revolução Democrática de 31 de março”; oculta os genocídios praticados contra Canudos, Contestado e os episódios oprobriosos e nefandos de Porongos e Clevelândia, para ficar só em alguns.

Mas basta passar os olhos pelo histórico – passado e recente – dessa instituição no tocante à corrupção para constatar que se tratam, as Forças Armadas reacionárias e todo o sistema político podre, do mesmo montão de lixo secularmente acumulado, sendo aquelas as principais responsáveis pela imoralidade desse último. Pois são elas que têm esmagado a ferro, fogo e sangue todas as tentativas de nosso povo em realizar a revolução democrática e de independência nacional, atuando na manutenção do sistema de exploração, opressão e de subjugação da pátria.

Passeando pelo lamaçal verde-oliva

A história do regime militar-fascista de 64 fornece exemplos abundantes de corrupção, da alta cúpula e demais patentes da oficialidade dessa força. Em 1970, corria solto o envolvimento entre oficiais do Exército e o contrabando, dentre os quais o capitão Ailton Guimarães Jorge, que havia ganho medalha de honra como “Pacificador” pelo combate à resistência armada. O delegado Fleury – que, embora civil, atuava dentro regime militar no combate aos revolucionários – foi acusado de ligação e trabalho conjunto com grupos de traficantes de drogas, além dos genocídios que praticou junto dos “Esquadrões da morte”, sendo apontado como seu líder.

As grandes empreiteiras como a Camargo Corrêa – tidas na “Lava-Jato” como expoentes da corrupção – foram também bastante agraciadas pelo governo dos generais e só devido a isso se tornaram esses cartéis monopolistas geradores de toda a indecência política. Em 1974, Delfim Netto, ministro em vários governos militares, foi acusado de beneficiar tal empreiteira para que ela ganhasse o direito de construir a hidrelétrica de Água Vermelha, em Minas Gerais (MG). Depois, como embaixador, foi acusado de prejudicar um banco francês porque esse teria se recusado a fornecer 60 milhões de dólares para construir a hidrelétrica Tucuruí, também ligada à Camargo Corrêa.

Dois anos depois, em novo escândalo de corrupção envolvendo o regime, a General Electric admitiu ter pago propina a altos funcionários e autoridades do governo Geisel para obter contratos.

A falcatrua pública e notória dos generais envolve até execuções como “queima de arquivos”. Em 1982, o jornalista Alexandre von Baumgarten, colaborador do regime, foi morto após publicar um dossiê em que acusava o general Newton Cruz de planejar sua morte. Motivo: o jornalista conhecia denúncias contra o general e outros altos funcionários sobre casos de corrupção no monopólio gerido pelos militares, a Agropecuária Capemi, que comercializava a madeira da região do lago de Tucuruí. Mais de 10 milhões de dólares foram desviados para beneficiar agentes do Serviço Nacional de Informação, ligados ao Exército, na década de 1980. O general falastrão nega as acusações, naturalmente.

Mas os casos não param no passado. Mais recentemente, o governo militar de Bolsonaro e generais gastou mais de R$ 15,6 milhões com leite condensado. O Ministério da Defesa justifica que tal aquisição se refere à ração dos soldados. Não é aqui onde reside o escândalo, mas no fato de unidades da lata terem saído por R$ 162, típico caso de superfaturamento para roubo de dinheiro público. Também foram gastos R$ 31,5 milhões com refrigerantes e R$ 21 milhões em iogurtes. Só com o valor gasto em leite condensado seria possível adquirir 8 mil cilindros de oxigênio de 50 litros (padrão industrial), avaliados entre R$ 1,8 mil e R$ 2 mil a unidade, o que resolveria a situação de mortandade horrenda que perdura em Manaus. Trata-se ou não de um crime?

E não para por aí. Agora mesmo, uma operação da Polícia Federal investiga uso de aviões da Força Aérea Brasileira no tráfico internacional de drogas, em especial no setor do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), diretamente ligado à Presidência da República e comandado pelo desassisado general Augusto Heleno (o mesmo que dissera, em convenção do PSL em 2018, que aliar-se ao centrão – a quem chamou de lixo e que, agora mesmo, se torna aliado do governo militar no parlamento – seria o mesmo que abrir as portas para a corrupção geral). Dez pessoas e três empresas foram alvo de 15 mandados de busca e apreensão e medidas cautelares. O caso remete à prisão do sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues, em Sevilha, em junho de 2019, flagrado com 39 kg de cocaína em avião que compunha a comitiva de Bolsonaro. A investigação aponta um oficial militar do GSI, tenente-coronel Piovesan, como possível envolvido, já que ele “emprestava dinheiro” com frequência ao sargento flagrado que, segundo sua esposa, não teria dinheiro para bancar o “negócio” sozinho.

O que há por trás da gandola

Estes senhores são, ao contrário do que tentam aparentar, os perpetuadores de toda a desgraça que pesa sobre a Nação. Esmagadores dos levantes populares de aspiração democrática – levantes que buscaram justamente destruir essa velha ordem –, eles são, de fato, os tutores e guardiões: da podre ordem de exploração e opressão. Canídeos adestrados a soldo – e que gordos soldos! –, a generalada se ouriça por ser a soldadesca de estimação do imperialismo ianque, tropa de ocupação local e de intervenção rápida na região. São burocratas de marca maior, mandões especialistas no ócio, patrioteiros baratos, vendilhões da pátria chafurdados na corrupção e na imoralidade.

São, as Forças Armadas reacionárias e todo o sistema político putrefato, partes do mesmo montão de lixo a ser incendiado e varrido. Tanto pela corrupção – ainda que apenas coroe a prática nefasta dessa instituição – como, e principalmente, pelo papel que cumprem, de genocidas, valentes para coagir e matar massas desarmadas e desorganizadas, o que revela, por si só, sua covardia.

Por falar em covardia, agora mesmo estão, através da Operação “Verde Brasil 2”, realizando mapeamento, cerco e fustigamento, incursões clandestinas e auxílio às ações ofensivas de bandos paramilitares contra as massas camponesas e os pobres do campo que lutam por um pedaço de terra e contra o latifúndio ladrão de terras da União. Novamente, estão a defender a classe dos latifundiários e, por consequência, perpetuando toda a podridão do sistema político e preparando, para o curto prazo, um grande genocídio na guerra contrarrevolucionária preventiva às rebeliões que fermentam por todo o País.

De certa forma é uma repetição mesma da atuação que teve esta instituição reacionária durante o Império e os primeiros anos da república – quando deitavam e rolavam nos cantos mais afastados do país, sendo chefes e executores das expedições de “povoamento” do centro-oeste e do extremo norte sob a divina missão de enlamear seus coturnos em ossadas, sangue e saqueio, de milhares de vidas humanas e de riquezas naturais.

Trata-se de um enfrentamento impossível de evitar. Uns defendem o sistema de exploração e opressão, sendo seus guardiões e beneficiários diretos; outros, as massas, submetidas a toda sorte de humilhações e frustrações, só terão seus direitos garantidos com o fim desse sistema. O resultado só pode ser, sob a direção estratégica dos revolucionários proletários, a imposição da pendente e atrasada Revolução Democrática, Agrária e Anti-imperialista, que varrerá tudo isso e instaurará o governo verdadeiramente popular, surgido das massas e com o Poder por elas exercido.

Nota:

* Jailson de Souza substituirá o companheiro Fausto Arruda, ausente por licença médica.

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