Fura-filas: Conselho Federal de Farmácias busca autorização para vacinar filiados

Com mentalidade corporativista, o CFF barganha autorização do Ministério da Saúde para furar fila. Foto: Reprodução

O Conselho Federal de Farmácia (CFF) está buscando uma maneira de “ganhar a autorização” (subornar) do Ministério da Saúde para comprar lugares na fila de vacinação contra a Covid-19. A entidade, que reúne trabalhadores que não estão empregados em postos de trabalho que mantêm contato direto com pacientes testados positivamente para o coronavírus, defende que os farmacêuticos precisam ser imunizados. Para tanto, se propõe a doar metade da quantia que for adquirida para o Ministério da Saúde.

Os aspirantes a fura-filas seguem a lógica de valer-se de seus grandes salários e poderio econômico para ter acesso a milhões de doses. Essa tentativa, porém, não é nova. Na última semana de janeiro vimos como mega-empresários se articularam, na surdina, para comprar o imunizante. O caso veio à tona somente quando o processo já estava fadado ao fracasso. Como algumas das empresas rejeitaram tomar parte no esquema, as demais não teriam suficientes meios para efetuar a transação.

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Esta é uma nova investida, feita desta vez pelo CFF, sobre uma questão já levantada no início do drama da vacina. Trata-se da pressão feita sobre o Ministério da Saúde para que este aceite a incorporação de empresas de saúde privadas (planos de saúde, grandes redes varejistas de farmácia, entre outras) no plano de vacinação. É este o pano de fundo da atual tentativa.

Quem compõem o CFF?

O Conselho Federal de Farmacêuticos reúne não somente (e nem principalmente) os profissionais de farmácia, entre eles os trabalhadores das redes varejistas espalhadas país afora. Ele aglutina grandes empresários. Quem está à frente desde 2012 do CFF é Walter Jorge João. Ele defende uma dinâmica bem explícita para o Conselho: diminuir a distância com as empresas.

Ainda que existam farmacêuticos que exerçam a profissão vinculados ao CFF, são os altos executivos de empresas e redes de farmácia os que mais aportam financeiramente com a autarquia e, logo, possuem mais influência e poder de decisão ali dentro.

Esses últimos (altos executivos, CEO’s de empresas etc.) buscam se articular frente ao velho Estado e frequentemente usam estes Conselhos e demais autarquias para favorecer os seus próprios negócios. As autarquias, por sua vez, são vinculados à estrutura estatal e jurídica prevista em lei (ainda que possuam certa autonomia em relação ao governo federal).

Só para se ter uma ideia do poderio econômico do CEF, o seu orçamento ultrapassa R$ 286 milhões – valor 150% maior do que de outro importante Conselho, o Conselho Federal de Medicina. Este dinheiro vem de duas fontes: arrecadação vinda dos profissionais desta área e arrecadação vinda de empresas. Em estimativa feita pela Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar), apontou-se que a arrecadação do primeiro grupo é de 30% a 40%. As empresas privadas, portanto, aportam a maior parte da verba do Conselho (entre 60 a 70%).

Pelo próprio modo que, nos últimos anos, se desenvolveu o CFF em particular, é correto dizer que o seu funcionamento se assemelha a uma organização de grandes corporações e empresas que atuam no ramo farmacêutico.

Se for efetivada a compra de milhões de doses de vacina contra a Covid-19, serão estes grandes empresários que serão os beneficiados com a compra. E consequentemente se tornarão “fura-filas”.

Grandes redes de farmácia e laboratórios farmacêuticos também contribuem com o conselho corporativo. Somente os que têm registros no Conselho seriam vacinados com os imunizantes comprados.

Por que não deixar a vacinação nas mãos das grandes redes farmacêuticas/redes privadas de saúde?

Frente a uma situação em que a vacinação segue a passos lentos, a CFF busca angariar uma opinião pública favorável à incorporação das grandes redes farmacêuticas no plano nacional de imunização. O governo militar de Bolsonaro/generais pode aceitá-la, principalmente frente à pressão popular por todo o país que exige Vacina para o povo já!

A medida, porém, representará justamente o oposto do que pretendem passar como impressão. O CFF busca, inicialmente, mostrar como se a vacinação dos farmacêuticos junto à doação de metade das doses compradas é, afinal de contas, uma opção que favoreceria todo o país. E não faltarão renomados do “empresariado nacional” que defenderão a medida abertamente, como já o fazem.

Os favorecidos seriam aqueles que possuem renda capaz de comprar as vacinas vendidas nas redes farmacêuticas privadas (provavelmente superfaturadas e acima do preço de mercado).

E ainda: o que está por trás dessa tentativa de compra de vacinas é justamente o reforçar de uma relação de subjugação nacional. Situação evidenciada pela atuação das grandes corporações farmacêuticas multinacionais (Big Pharma), que moldaram por anos a fio a pesquisa e o mercado internacional farmacêutico. De modo que, mais recentemente, em meio à produção do imunizante, os países que não gozam de soberania para desenvolver sua ciência e tecnologia nacionais ficam reféns de somente serem “montadores” – sem ter acesso à patente da vacina e, logo, sem a possibilidade de manejar os meios para uma outra produção que não a que atualmente é vista: atrelada totalmente aos quatro laboratórios principais que desenvolvem o remédio.

Mesmo essa atuação pela produção dos imunizantes pelas instituições de pesquisa brasileiras, como Fiocruz e Butantan (produção nacional que, como dizemos, é bastante limitada e cercada por todos os lados por laços próprios de um regime semicolonial) está sendo ameaçada pela atual pressão das empresas privadas farmacêuticas. Essas últimas, pela sua situação, gozam de vínculos diretos com as principais indústrias farmacêuticas responsáveis pela produção dos medicamentos e vacinas.

De modo que, se caminha cada vez mais rapidamente para possibilitar a venda da vacina contra Covid-19 nas redes de farmácia privadas.

Leia também: Subjugação nacional impede que tenhamos vacina contar Covid-19. Vacina para o povo, já!


Ainda sobre a questão da Pandemia, nessa sexta-feira lançaremos um novo vídeo no nosso canal, do quadro Na Tribuna, com Fátima Siliansky, Presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo) e Professora Adjunta da Faculdade de Medicina e do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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