Os negros do norte de Santa Catarina e sua "indecência"

 

Integrantes da Sociedade Kênia Clube preparados para mais um baila. Foto: Reprodução

“Imagine que você vai a uma festa e uma corda separa os dois lados da pista de dança. De um lado, só dançam brancos. Do outro, ficam os negros. Pode parecer algo inimaginável hoje, mas essa era uma divisão comum nos tradicionais clubes de Santa Catarina há menos de um século. Em alguns clubes brancos, os negros sequer podiam entrar”. [1]

Os afrodescendentes moradores de Joinville,indignados,deram um basta a esse tipo de situação e criaram a Sociedade Kênia Clube, a primeira agremiação negra da cidade, a mais populosa do Estado, situada a 180 km da capital Florianópolis e de forte colonização européia, notadamente germânica. 

E mais: os negros joinvillenses fizeram do Kênia também uma escola de alfabetização e de artes manuais profissionalizantes, “para elevar o padrão social e intelectual da gente de raça negra”, conforme dizia um dos primeiros estatutos do clube. Ou seja, além de divertimento à vontade, com música e dança, é um lugar para exercer a dignidade e a resistência.

Isso sem contar que o Kênia atuava, às vezes, de modo semelhante a um Socorro Popular, amparando os sócios em casos de moléstias, mortes, perseguições, etc.

OS INCOMODADOS

Situada no norte do Estado, Joinville é também chamada de “Cidade dos Príncipes”, pois seu território foi dado nos anos 1800 pela monarquia brasileira ao Príncipe de Joinville, francês, como dote de seu casamento com uma princesa irmã de D.Pedro II. Mesmo num cenário desafiador à africanidade, a experiência do Kênia não ficou restrita à maior cidade catarinense.

Sua zona de influência, região norte de SC, conseguiu ver atitudes anteriores que desaguaram na fundação do Kênia, o clube dos indignados.

Na realidade o Kênia, fundado em 1960, foi o resultado de uma série de ações afirmativas praticadas pelos negros desta região, de tão difícil convívio para eles.     

Após a abolição da escravatura (1888) o ativismo dos negros de Joinville, Itajaí, Jaraguá do Sul, S. Francisco, Araquari e outras cidades do norte catarinense passou a perturbar as classes dominantes. Em várias ocasiões os brancos/burgueses deixaram claro que, na sua opinião racista e elitista, as atividades sociais,culturais,esportivas, etc., dos ex-escravos, eram quase que indecentes.

A iniciativa de negros operários “em constituir clubes esportivos parece que incomodava a elite, que não concebia que aquele segmento pudesse adotar práticas até então restritas a algumas famílias em Itajaí” – afirmou André Luiz Rosa em sua dissertação de mestrado [2]. Ele se refere a um clube de remo formado inteiramente por afrodescendentes, em Itajaí, em 1919 (Ver em AND: Os negros de Itajaí e os esportes rebelados, de 3 de fevereiro de 2021).   

“Fica evidente, em registros da época em Itajaí, que a participação de negros em esportes ‘burgueses’ beirava a indecência”, disse André.

CATIVEIRO FOI APRENDIZADO

O “incômodo” sentido pelas classes dominantes era, na realidade, medo. Elas viam com extremo temor a atuação firme dos afro-brasileiros, que tinham aprendido a se organizar durante o cativeiro da escravidão e que agora utilizavam a antiga experiência de autodefesa para se proteger do racismo e da espoliação sofrida como proletários, que passaram a ser.

“Chama a atenção (no período posterior à abolição de 13 de maio de 1888), o compartilhamento de experiências desde o período do cativeiro com estratégias e articulações que foram importantes para ações no início do século 20. Pois tanto na trajetória do grevista João de Matos (movimentos operários em Santos/SP e outros lugares) quanto na formação da Sociedade de Resistência (Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiches e Café, criada em 1906 por ex-escravos no RJ) os negros percebiam que a escravidão continuava, mas com nova roupagem – a da exploração patronal”, afirmou André.

O medo dos burgueses catarinenses era tanto que em 1888, meses depois da abolição, criaram um novo Código de Posturas da Província de SC, que dizia no artigo 130: “Fica proibido fazer sambas e batuques, quaisquer que sejam as denominações, dentro das ruas das cidades ou das povoações”. [3] Foi a complementação de uma lei anterior, da capital catarinense, que ordenava: “Ficam proibidos d’aqui em diante os ajuntamentos de escravos e libertos para formarem batuques; bem como os que tiverem por objetivo os supostos reinados africanos que, por festas, costumam fazer”.

Imediatamente a Polícia Militar passou a coagir duramente os negros catarinenses agora “libertos” pela princesa Isabel. Na verdade, a PM de SC já estava acostumada (e treinada) a agredir os afrodescendentes, pois segundo a antropóloga Ilka Boaventura Leite, a fundação do órgão policial em 1835 foi realizada “com o intuito de reprimir as manifestações do povo negro oprimido”. [4]

A FLOR E A ESPADA

Vivendo numa terra onde, para os negros, tudo era proibido, até mesmo tocar tambor, o que fazer? Continuar tocando tambor. Só que dentro do “quintal” da Igreja. E sob a proteção de uma santa, Nossa Senhora do Rosário. Foi isso que fizeram os afro-brasileiros do vilarejo de Itapocu, no município de Araquari. Fundaram um grupo de dança e canto e batuque, um Catumbi. Isso foi ainda como escravos, em 1854. E seguiram firmes e fortes até hoje, realizando uma grande festa em todo 25 de dezembro, apesar das perseguições (abertas e encobertas), que fizeram sumir todos os grupos semelhantes em SC.

O sobrevivente Catumbi de Itapocu é formado majoritariamente por homens porque é uma reverência ao feminino. “Reconhecemos (a santa) como protetora, mas a base do ritual é africana”, diz um líder do grupo, Osvaldo. Entre os orixás, Oxum é que possui sincretismo com Nossa Senhora do Rosário. A cor principal de Oxum, a Grande Mulher, é o azul-claro, a mesma cor das saias curtas que os dançantes do Catumbi usam sobre as calças pretas. Na África havia saias entre as indumentárias masculinas, inclusive de reis.

No caso da vestimenta do Catumbi, também chama a atenção uma coroa de flores coloridas na cabeça (hoje usam as de plástico, por praticidade e baixo custo) em cima de um véu branco ou azul-claro. A flor é uma marca do rito. Lembra  uma homenagem a Nossa Senhora  existente há centenas de anos na Europa. Na Idade Média a população europeia tinha o costume de oferecer a seus soberanos coroas de flores, coisa que os cristãos adotaram em honra a Maria de Nazaré, mãe de Jesus, junto com a oração do rosário (objeto religioso católico que, em latim, significa conjunto de rosas), a partir do século 12.

Porém, para não dizer que só falou de flores (como que parodiando a música de Geraldo Vandré), o Catumbi de Itapocu tem também uma espada. É de madeira, mas o simbolismo é forte como se fosse de metal. Representa o combate dos guerreiros dançarinos, que a empunham no compasso da música, em favor da memória e da tradição africana em solo catarinense.    

AS NOVAS “INDECÊNCIAS”

Os negros do norte de SC seguem atuantes. E sem esconder (através da divulgação criativa de seus trabalhos) as qualidades que tanto incomodavam a burguesia. O Catumbi de Araquari, por exemplo, transformou-se no filme-documentário “Itapocu” que viajou, em 2019, a um dos maiores eventos de cinema da África, o festival de Yaoundé, capital da República dos Camarões.

Outros dois documentários serão rodados em breve. Um em S.Francisco do Sul, pela quilombola Alessandra Bernardino. Será o “Marias da Ilha: narrativas das Mulheres do Quilombo da Tapera”. (OBS: Num artigo sobre os escravos na Vila de S.Francisco a arqueóloga Fernanda Borba apontou um dado curioso. As famílias escravas apresentavam um número relevante de formação matrifocal, ou seja, a figura materna desempenhava o papel central, estando o pai ausente ou com papel secundário. Entre 1845 e 1888, as mulheres que levaram mais de 5 filhos para batizar foram 43, e apenas 7 eram casadas e com companhia de um homem. As demais eram solteiras.) 

O outro filme terá o título de “Zico: o homem que resgatou o quilombo Areias Pequenas” e autoria de Dalvana Luiza da Costa, quilombola do município de Araquari. No material ela vai contar a história de seu pai, o metalúrgico Norival Domingos da Costa, o Zico. “Ele lutou por mais de 40 anos para que a comunidade onde nasceu, cresceu e constituiu família fosse reconhecida como comunidade quilombola”, conta a filha. Recorda com tristeza que o pai desapareceu em 2016, quando saiu para pescar na região do Canal do Linguado.

Em Itajaí, por sua vez, o ativismo da sua comunidade afro levou à criação do Prêmio Simeão, em 2012. A estatueta é conferida, pela Prefeitura, a pessoas “que contribuíram para a valorização do negro na sociedade itajaiense”. Simeão foi um escravo do coronel Agostinho Alves Ramos. Habilidoso, o rapaz construiu a primeira igreja da cidade, a Imaculada Conceição, em 1823.

Em Jaraguá do Sul, cidade “europeia” famosa por promover a Schützenfest (Festa dos Atiradores) os negros conquistaram seu espaço na marra. E a luta foi tão vibrante que rendeu um livro, escrito coletivamente pela Comissão de Resgate da História da População Negra e lançado em 2019: “Memórias do Povoado Morro da África e a História do Negro em Jaraguá do Sul”

Sandra Maciel, ativista do Moconevi (Movimento de Consciência Negra do Vale do Itapocu, criado em 2001) diz, bem-humorada, saber que nasceram para incomodar: “Parece que tudo em Jaraguá já estava muito bem estabelecido. E nós (negros) tínhamos que ressurgir com a nossa história, com a nossa cultura, com a nossa música, com os nossos costumes. (...)tínhamos que fazer esse enfrentamento e...fizemos”.

NOTAS:

[1] “Único clube negro de Joinville, Kênia completa 60 anos em setembro”. Jornal NDMAIS, Juliane Guerreiro, 11 de setembro de 2020.

[2] “Operários da bola: Um estudo sobre a relação dos trabalhadores com o futebol na cidade de Itajaí (SC) entre as décadas de 1920 a 1950”.

André Luiz Rosa, Dissertação de Mestrado em História Cultural, UFSC, 2011.

[3]A dança do Cacumbi: Um novo olhar sobre as festas afro-brasileiras e as vivências do pós-emancipação em S.Catarina”. Jaime José dos Santos Silva (Mestre em História pela UFSC). Texto de Comunicação apresentado no VI Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional, Florianópolis, 2013.

[4] “A história oculta dos quilombos do sul do Brasil”, AND, junho 2003. 

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