MA: Guardiões da floresta reafirmam defesa das terras indígenas, denunciam invasores e velho Estado em carta

Diante do aumento das invasões e violência contra os povos indígenas, o grupo intitulado Guardiões da floresta, composto por indígenas de diversas etnias como Guajajara, Kaapor e Awa-Guajá que fazem a proteção dos territórios indígenas dentro da floresta amazônica, no Maranhão, realiza através de uma carta intitulada “Se a nossa terra, a nossa floresta sumir, o que vai ser do meu povo?” diversas denúncias sobre o velho Estado, invasões de madeireiros, ameaças de morte e assassinatos, e convoca os leitores a tomarem parte na luta.

Com o objetivo de realizar a autodefesa e constatando que não podiam esperar nada do velho Estado, conforme apontam na carta, o trabalho dos Guardiões existe há mais de uma década e foi sancionado pelos indígenas em 2007 durante uma assembleia do Conselho de Caciques e Lideranças da Terra Indígena Arariboia (Cocalitia), depois do massacre e da morte de Tomé Guajajara. 

A principal área de proteção é a Terra Indígena Arariboia, um território com 413 mil hectares no sudoeste do estado, onde vivem 12 mil indígenas. 

Na carta os guardiões alegam que não desistirão da luta pela terra. As ações empreendidas têm combatido a ação de madeireiros ilegais e outros invasores.  “Nós identificamos os invasores, destruímos seus acampamentos e os expulsamos da nossa terra”, afirmam no texto.

Eles denunciam ainda o velho Estado e exigem autodeterminação dos povos e nações. “O Governo não cuida nem dos parentes deles. [...] Coloca os parentes deles para viver na rua, jogado, comendo lixo, debaixo das pontes. Crianças morrendo sem ter o que comer. Que Governo é esse que não olha nem os parentes deles?”, declaram. Afirmam ainda: “E eles querem colocar o estilo deles no nosso meio. Nós não aceitamos isso. Cada um vive do jeito da sua nação, do seu povo.”

Ressaltam também a ligação criminosa de conluio entre latifúndio e o velho Estado com a grande propaganda do chamado “agronegócio” em detrimento da floresta e da vida dos povos indígenas. “ O Governo só fala em agro: agro é isso, agro é aquilo, agro é desenvolvimento, agro é tudo para eles. Para nós não [...] Para o Governo, a riqueza é soja, é cana, é boi. O branco pensa assim, mas nós não. Dinheiro para nós não compra a vida de ninguém”.

Por eles afirmam: “Nós vamos continuar lutando mesmo sem apoio do Governo. Nós vamos lutar até o fim. Até o fim. Enquanto existir uma criancinha que nós podemos defender, nós estaremos lá.”

Tainaky Guajajara, Paulino Guajajara e Olimpio Guajajara, membros dos Guardiões da Floresta, em abril de 2019. Paulinho foi assassinado por pistoleiros a mando do latifúndio explorador de madeiras. Foto: Survival International

Leia na íntegra:

"Meu nome é Tainaky Tenetehar, e sou da Terra Indígena Arariboia do Maranhão. Sou um dos Guardiões da Floresta e estou enviando estas palavras a vocês hoje porque precisamos urgentemente de apoio.
No nosso território vivem cerca de 5.000 indígenas da etnia Tenetehar, também conhecida como Guajajara. Além de nós, a Arariboia também é casa dos nossos parentes isolados Awá. São dezenas de indígenas que vivem no coração da nossa terra. Os indígenas isolados são os povos mais vulneráveis do planeta. Sem sua floresta, os Awá serão dizimados.
Nós patrulhamos a floresta, identificamos os madeireiros, destruímos seus acampamentos e os expulsamos. A gente já combateu muita invasão de madeireiros. Está funcionando.
Nós recebemos constantemente ameaças de morte da poderosa máfia madeireira. Cinco de nós já foram assassinados. Mas, nós continuamos, porque a floresta é nossa vida. Sem ela, todos nós estaríamos mortos.
Nossos irmãos isolados também vivem na floresta. Eles não sobrevivem se ela for destruída. Enquanto nós estivermos vivos, nós estamos lutando por todos nós aqui, pelos isolados, e pela natureza.
Por favor, nos ajude a proteger a floresta. Nós não vamos desistir.
Se a nossa terra, a nossa floresta sumir, o que vai ser do meu povo?
Meu nome é Tainaky Tenetehar, e sou da Terra Indígena Arariboia do Maranhão. Sou um dos Guardiões da Floresta e estou enviando estas palavras a vocês hoje porque precisamos urgentemente de apoio.
No nosso território vivem cerca de 5.000 indígenas da etnia Tenetehar, também conhecida como Guajajara. Além de nós, a Arariboia também é casa dos nossos parentes isolados Awá. São dezenas de indígenas que vivem no coração da nossa terra. Os indígenas isolados são os povos mais vulneráveis do planeta. Sem sua floresta, os Awá serão dizimados.
Nas operações e patrulhas dos Guardiões, nós circulamos por dias pela floresta em busca de madeireiros ilegais, que há décadas invadem a terra que nós protegemos em busca de ipê, jatobá, copaíba, cumaru, entre outras árvores. Nós identificamos os invasores, destruímos seus acampamentos e os expulsamos da nossa terra.
Mas esses madeireiros estão armados. Nós recebemos constantemente ameaças de morte da poderosa máfia madeireira. Cinco de nós já foram assassinados. Em 2019, assassinaram meu primo Paulo Paulino Guajajara e tentaram me matar também. Ainda tenho uma bala nas minhas costas.
Mas, nós continuamos, porque a floresta é nossa vida. Sem ela, todos nós estaríamos mortos.
A nossa terra está sendo invadida e estamos sendo muito prejudicados por essa situação. Percebemos que a nossa cultura está desaparecendo aos poucos. E ficamos preocupado com o futuro das nossas crianças. Daqui a 10 anos, 15 anos, os nossos filhos, nossos netos: o que vai ser dessas crianças se continuar a invasão e a destruição da nossa terra? Se a nossa terra, a nossa floresta sumir, o que vai ser do meu povo, da nossa cultura? Da próxima geração que está vindo aí?
Porque se nós não tivermos a nossa floresta, as nossas caças vão embora. Tudo vai acabar, vai acabar a chuva, vai acabar o ar puro, e a saúde, porque a nossa saúde está dentro da floresta também, nas árvores, nas frutas. É dali que tiramos a nossa saúde. Para nós, nossa terra é sagrada. Para eles a nossa floresta é feia, não produz nada. “O índio não produz, o índio é preguiçoso”. “O índio não desenvolve”. Para que que nós vamos desenvolver se nós já somos desenvolvidos do nosso modo?
Os brancos costumam falar que a sociedade brasileira tem que desenvolver para melhorar. Como melhorar se não melhorou até hoje? O Governo não cuida nem dos parentes deles. Um país bombardeia o outro, deixa os outros parentes deles morrerem de fome, morrerem de sede. Coloca os parentes deles para viver na rua, jogado, comendo lixo, debaixo das pontes. Crianças morrendo sem ter o que comer. Que Governo é esse que não olha nem os parentes deles?
E eles querem colocar o estilo deles no nosso meio. Nós não aceitamos isso. Cada um vive do jeito da sua nação, do seu povo. Nós não vamos fazer eles mudarem a cultura dele. E por que eles não nos deixam em paz, vivendo do nosso jeito? É isso que queremos, só viver em paz, sem guerra com eles.
Eu quero pedir para quem estiver lendo, o mundo inteiro, que se sensibilizem com o nosso modo de vida, porque esse é o nosso jeito de caçada, de cantoria, nossa cultura, nossa língua própria. Temos o direito de viver em paz, livres, de andar, de ir e vir dentro do que é nosso, dentro da nossa floresta. Sem ela, não sobreviveremos.
A nossa terra tem vida, muita vida. Uma simples formiga que anda aqui nessa terra, uma cobra, um lagarto, aquilo é a nossa vida, aquilo é o equilíbrio da nossa floresta. Todo o inseto do mato tem uma função, tem uma função ali na terra.
Dentro da nossa terra também moram os parentes Awá isolados. Eles não querem contato nem com os karaiw [não indígenas] nem conosco. Porque se eles entrarem em contato eles vão adoecer. Uma simples gripe, uma gripezinha para eles é uma doença muito avançada que eles não resistem. E não queremos que isso aconteça.
Foi com essa preocupação, para defender nossa terra, que começamos a pensar o que poderíamos fazer para pelo menos diminuir esse impacto muito grande. Foi quando os caciques decidiram criar a organização dos Guardiões porque já estávamos cansados de tanto esperar pelo Governo brasileiro que não cumpre o seu papel de proteger e fiscalizar a terra, de defender o meio ambiente. Porque sem o meio ambiente nós não vamos sobreviver. Porque para nós a nossa terra é a nossa mãe. Mãe terra. Nossa mãe terra que dá tudo para nós. E não só nós.
Muitas vezes os governos pensam que nós estamos usando nossa terra só para nós próprios. Mas não é assim. Porque na verdade isso aqui é o pulmão do mundo, não só aqui do Brasil. Esse pulmão aqui está sendo manchado, já está ferindo, já tem marca de ferida no pulmão. E não queremos que essa doença avance. Porque, para nós, isso é um câncer destruindo a nossa floresta. É a nossa preocupação que aumente a invasão, que venha criação de gado, que venha soja— nós não queremos isso.
O Governo só fala em agro: agro é isso, agro é aquilo, agro é desenvolvimento, agro é tudo para eles. Para nós não. Para nós o “nosso agro” são as nossas caças, a nossa floresta. Eu costumo falar que a nossa riqueza está aqui dentro da terra. Esse é o “nosso agro”. Nosso ar puro, a nossa chuva. Sem isso nós somos pobres. Mais pobre do que todo mundo.
Para o Governo, a riqueza é soja, é cana, é boi. O branco pensa assim, mas nós não. Dinheiro para nós não compra a vida de ninguém. Não compra a vida de um parente, não compra a vida de uma criança. Não compra a vida de uma caça. Dinheiro no mundo não paga isso.
Nossa terra é rodeada de municípios de karaiw. Lá tem prefeito, tem polícia, tem as lideranças de assentamento, vereadores. Mas mesmo com todos esses políticos, eu acho que eles não percebem que nós existimos, que nós somos gente, que nós temos vida.
Por isso o trabalho dos Guardiões da Floresta, é tão importante. Estamos monitorando, fiscalizando, conversando com os invasores para que eles não venham mais invadir a nossa terra. Mas eles não estão nos respeitando. Essa terra é nossa, essa terra tem dono.
Quando um indígena expulsa um madeireiro ou um caçador, ou um invasor que está colocando roça na nossa terra, eles vão denunciar na cidade e a justiça acata o pedido deles e manda ordem de prisão para os indígenas.
Nós estamos defendendo o que é nosso, dentro da nossa casa, e nós estamos sendo vistos como bandidos, como criminosos. Nós estamos defendendo nossas vidas, nossos filhos. Porque nós já estamos cansados de esperar por justiça. Os parentes estão morrendo. Estão matando os parentes. Expulsando. Já mataram vários guerreiros. Eles estão nos matando calados, em segredo. Para nós isso é uma guerra fria.
Por isso pedimos a ajuda de todos para pressionar o governo brasileiro para cumprir com o papel dele de fiscalizar a nossa terra, proteger. A nossa área já é demarcada, já é homologada, mas mesmo assim os brancos não respeitam.
Eu fico muito triste, mas ao mesmo tempo me sobe uma energia, de que eu não posso ficar triste. Não posso demonstrar que meu coração está doendo, está chorando por dentro.
Com toda essa dificuldade de invasão, tristeza, doença que os karaiw trazem para os nossos parentes, nós vamos continuar resistindo, até o último guerreiro. Enquanto nós tivermos um guerreiro dentro da floresta, nós não vamos desistir.
Nós vamos continuar lutando mesmo sem apoio do Governo. Nós vamos lutar até o fim. Até o fim. Enquanto existir uma criancinha que nós podemos defender, nós estaremos lá".

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

Nunca recebemos um centavo de bancos ou partidos eleitoreiros. Todo nosso financiamento sempre partiu do apoio de nossos leitores, colaboradores e entusiastas da imprensa popular e democrática. Nesse contexto em que as lutas populares tendem a tomar novas proporções é mais do que nunca necessário e decisivo o seu apoio.

Se você acredita na Revolução Brasileira, apoie a imprensa que a ela serve - Clique Aqui

LEIA TAMBÉM

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de Apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro

E-mail: [email protected]om
Reuniões semanais de apoiadores
todo sábado, às 9h30

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda (licenciado)
Victor Costa Bellizia (provisório)

Editor-chefe 
Victor Costa Bellizia

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão (In memoriam)
Henrique Júdice
Matheus Magioli Cossa
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação
Ana Lúcia Nunes
João Alves
Taís Souza
Gabriel Artur
Giovanna Maria
Victor Benjamin

Ilustração
Victor Benjamin