AC: Garis enfrentam a repressão em jornada de luta que já dura um mês

Garis lutam por salários e enfrentam repressão da PM. Foto: Aline Vieira.

Os trabalhadores que atuam como garis, roçadores e margaridas na limpeza das ruas e igarapés de Rio Branco, no estado do Acre, iniciaram em fevereiro uma jornada de protestos exigindo o pagamento dos seus salários de 2021. A série de atos, que já dura mais de um mês, chegou a fechar totalmente a entrada da secretaria municipal do município, escancarou a grave condição de trabalho a que estão submetidos os esses trabalhadores no contexto de pandemia e de controle por empresas privadas do serviço público de limpeza e manutenção da cidade.

Os motivos para a reivindicação se iniciaram em 2020, quando os empresários relataram atrasos nos repasses da prefeitura de Rio Branco que impedia os pagamentos dos salários. Por sua vez, o prefeito alegou falta de documentos.

As condições precárias às quais estão submetidos os trabalhadores facilitam a propagação da Covid-19. No dia 06 de maio de 2020 o gari Edicarlos da Silva Vale, de 37 anos, faleceu após  ficar internado no Pronto-Socorro de Rio Branco durante 26 dias. Foi o primeiro óbito causado pelo novo coronavírus registrado na categoria.

Garis fecham totalmente a entrada da secretaria municipal

Ocorreram 4 manifestações, nos dias 11/02, 04/03, 05/03 e 15/03. Os atos foram organizados pelos trabalhadores da limpeza urbana, que exigiram o pagamento dos salários com barricadas, fizeram cobranças à prefeitura e à empresa responsável pela limpeza urbana de Rio Branco.

Afonso Pereira, de 50 anos, concedeu entrevista ao monopólio de imprensa Rede Amazônica: “Eles ficam jogando um para o outro. Não querem falar com a gente”, denunciou o trabalhador, que disse ainda que trabalha como roçador desde os 16 anos.

Em outro protesto, organizado após empresários não cumprirem com sua promessa de regularizar os pagamentos, os trabalhadores denunciaram que perderam a casa por falta de condições de pagar o aluguel e que estão se alimentando com doações organizadas pelos próprios trabalhadores. Railam Rodrigues, que é gari há pouco mais de um ano e foi expulso do local onde morava devido ao atraso no aluguel, denunciou: “Tem funcionário aqui que já foi expulso de apartamento, eu sou um, fui expulso do apartamento que morava com minha família, tenho dois meninos pequenos. Tem dois garis aqui da nossa equipe mesmo que tivemos que fazer sacolão para eles, tirar do nosso bolso para fazer um sacolão para nossos amigos. Situação difícil. Teve um que disse que só tinha farinha e açúcar para comer e está com menino recém-nascido, como fica nossa situação?”

Outro trabalhador, João Paiva, denunciou: “A gente tá com dois meses que não recebe (...). A gente tá precisando receber, a gente não aguenta mais, precisamos receber”.

Um outro, que preferiu não se identificar, denuncia: “Meu aluguel vai vencer amanhã, meu gás acabou, tô cozinhando no carvão, não tenho feira, não tenho nada. Nós só queremos nosso dinheiro, eles ficam só lesando, lesando o cara no banho maria”

Em outro protesto, o secretário apareceu como forma de tentar dar resposta às exigências dos trabalhdores. De acordo com ele, um dos empresários faleceu e por conta disso os repasses para todos os demais empresários foram suspensos, e se afirmou que com a nomeação de um inventariante e a entrega de outros documentos os repasses seriam realizados na semana seguinte. Além disso, relatou que os trabalhadores são vinculados às empresas, querendo tirar a responsabilidade da gestão que representa.

O trabalhador Gelson Vieira, que atua como gari, afirmou que os protestos só serão interrompidos após o pagamento dos salários. Cansado das promessas e enrolações, denunciou: “a situação é que a prefeitura joga para nossa firma e nossa empresa não tem nada a ver. A sociedade e a cidade precisam da nossa zeladoria e só vamos voltar ao zelo da cidade quando pagarem a gente certinho como era antes. Pediram até o dia 15, e essa conversa a gente escuta desde o mês passado, quando fechamos aqui o portão e esse mês empurraram de novo. Vamos esperar isso até quando? Estamos aí e ninguém vai ceder, não, o portão está fechado e não vai sair nenhum maquinário daqui enquanto não pagarem a gente. Estamos à mercê da sorte”.

PM reprime trabalhadores em luta por direitos

No maior dos protestos, o do dia 15/03, os trabalhadores simplesmente perderam a paciência. Iniciaram às 8h um bloqueio total da entrada da secretaria municipal. O protesto, que contou com 200 trabalhadores, contou com a utilização de um caminhão. Em resposta, o prefeito Tião Bocalom (Progressista) em conjunto com o governador Gladson Cameli (PP) enviaram a Tropa de Choque do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) da PM do Acre.

No vídeo, é possível visualizar que os trabalhadores apenas bloqueavam a entrada da secretaria, não foram erguidas nenhum tipo de barricada e o trânsito de veículos da Avenida Sobral fluía normalmente.

Em outro trecho do vídeo é possível ver a equipe do BOPE avançando contra os trabalhadores, utilizando golpes de cassetetes e spray de pimenta. Alguns relatam também o uso de balas de borracha. Desarmados, os trabalhadores não conseguiram revidar e aos gritos de “PM covarde!” dispersaram, o caminhão que também bloqueava a entrada acabou saindo do local.

O trabalhador Valdenir Mesquita denuncia que o ato do BOPE foi covardia: “estamos passando fome em casa, estou com um talão de luz atrasado, um talão de água, além disso, viemos reivindicar nossos direitos e o secretário ligou para a tropa de choque vir jogar spray de pimenta na nossa cara. Fomos espancados, pisoteados, um amigo pegou pancada. A gente só está atrás dos nossos direitos. Estou me tremendo, indignado, porque a gente trabalha, dá o nosso suor e, na hora de receber, o pagamento não sai. Foi um ato de covardia, porque somos trabalhadores, pais de família”

Enquanto Raimundo de Paiva que atua no serviço de capinagem, denuncia que precisa do seu salário e não apanhar da PM: “Isso é uma pouca vergonha o que estão fazendo com a gente. Tenho filhos pequenos para criar. Tenho uma família e só do que preciso é receber pelo que contribuí, o meu suor, não levar pimenta na cara. Não somos bandidos”.

O gari Raimundo Nonato Gomes, denuncia que os trabalhadores foram humilhados pela PM e que apenas a PM foi ao local, quanto aos salários não há previsão nenhuma. “A gente foi humilhado da pior forma possível, nem com os vagabundos, com os bandidos, eles não entram assim. Continuamos sem resposta alguma, ninguém deu uma posição pra gente, então a gente tem que procurar uma solução para nosso problema. A única coisa que a gente ouve é ameaça de demissão”.

Comandante da PM tenta justificar a covarde repressão aos trabalhadores

Em nota ao monopólio de imprensa, o gabinete militar da Prefeitura relata que houve a necessidade da intervenção da PM porque alguns trabalhadores que faziam manifestação, impediam a saída de outros funcionários que não aderiram ao protesto e precisavam realizar o serviço de limpeza nas ruas de Rio Branco.

Por sua vez, em entrevista ao monopólio Rede Amazônica, o comandante do Bope, major Rogério Silva, informou que precisou usar de uma força maior porque os trabalhadores não quiseram acabar com o ato. Em outro trecho ele reconhece que nenhum deles estava armado. “Um segurou no braço do outro e a gente só empurrando eles com o escudo não dava, então, é melhor eu fazer isso, do que usar um outro meio que venha machucar as pessoas. Foi preciso usar essa força a mais. Eles se afastaram. É normal a reclamação.”

Prefeito Bocalom diz que ‘cumpriu com responsabilidade’ de reprimir trabalhadores

Enquanto o prefeito Tião Bocalom (Progressistas), em entrevista ao monopólio Gazeta do Acre afirma que cumpriu sua responsabilidade em chamar o BOPE. “Quem paga os garis são as empresas e quem paga as empresas é a prefeitura. A prefeitura não paga gari ou margarida. Nós usamos a polícia e vamos fazer isso sempre que for necessário. Quem acionou a tropa de choque fui eu. Fui eu! O secretário reclamou, afirmou que não tava tendo mais conversação e se não tava tendo mais conversação, tem que acionar a tropa de choque. Fui eu que acionei e não tenho nenhum problema em dizer isso. Cumpri com a minha responsabilidade. Nós usamos a polícia e vamos fazer isso sempre que for necessário, não dá para continuar a desordem.”

Após mais uma ação desastrosa da PM do Acre e demais gerentes do velho Estado, os trabalhadores relataram que os pagamentos foram realizados no dia 17 de março.

PM reprime protesto de garis, no Acre. Foto: Reprodução.

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