Editorial semanal – Em marcha

A crise brasileira já atingiu aquele ponto do insuportável em que a ruptura se apresenta não só como possível, mas mesmo inevitável. O recrudescimento da pandemia, com a catástrofe aberta que assola todas as unidades da federação, associado à carestia, à fome e ao desemprego recorde isolam Bolsonaro e seu séquito de extrema-direita, efeito que a demissão de Pazuello – o carniceiro, não poderá atenuar. A resposta desta milícia de vagabundos e fracassados é e será a radicalização: o capitão-do-mato tensiona os demais poderes e, hoje, qualquer guarda de esquina se sente no direito de enquadrar alguém na lei de segurança nacional. Como ainda vige um arremedo de legalidade, logo estas expedições punitivas transbordarão dos tribunais, onde via de regra não prosperam, e se farão extrajudicialmente pela ação dos grupos paramilitares, que se multiplicam país afora. Golpe de Estado é coisa que Bolsonaro – o fraco, amarrado por mil crimes que podem ser lançados à sua cara a qualquer momento, e com popularidade em baixa, não conseguirá dar no curto prazo. Assustar-se com suas bravatas é fazer o jogo da direita, que quer arrastar as massas a seu reboque visando um novo rearranjo institucional que lhe seja benéfico, inclusive em preparar o terreno para se chegar ao regime que se fizer necessário a seus nefando fins.

O Alto Comando das Forças Armadas vê na catástrofe que se aproxima não só a oportunidade para recuperar e consolidar os espaços perdidos após 1988 e reforçar sua tutela histórica sobre o dito poder civil, mas para centralizá-lo ao máximo assegurando a unidade da corporação como única via para salvar o sistema de exploração de que é guardião da ruína completa. Como governo militar de fato que é, para os generais que o manejam Bolsonaro agora é só um mal menor: empurram-no para retirar as castanhas do fogo para eles, isto é, que faça ou deixe que se crie o “quanto pior, melhor” que lhes sirva a restringir ao máximo as liberdades democráticas, antes de descartá-lo. O ano de intervenção militar no Rio de Janeiro, em que explodiram as execuções perpetradas pelas polícias e se ampliaram as áreas sob controle das “milícias” – para não falar do bloqueio das investigações sobre o assassinato da vereadora Marielle - esclarece mais sobre a sua posição do que mil esquemas teóricos. Olhem para o modelo da Colômbia, onde as eleições periódicas convivem com o extermínio sistemático dos dissidentes, mesmo daqueles que rezam pela cartilha do reformismo: é para ele que caminhamos a passos largos. Um eventual governo Mourão, por exemplo, para o qual trabalham objetivamente os que apostam todas as fichas no impeachment, marcaria o aprofundamento, e não a atenuação, deste processo de militarização em marcha.

A soltura de Lula, que encantou os que acreditam numa solução pacífica, e que cheira à tentativa de um grande acordão nacional da direita civil (Congresso e STF) para se contrapor ao mesmo tempo às bravatas de Bolsonaro e à tutela dos generais, não terá o condão de dirimir a crise, nem no curto, nem no médio prazo. Em primeiro lugar, porque tal reviravolta tardia não se deu por apego daquelas forças à democracia e à letra da lei, como quer o vil analista, mas para defender as suas próprias corporações e seus arqui-privilégios, abrigados no atual status quo. Dividi-las, portanto, mais à frente, saciando seus interesses comezinhos, ou apenas exibindo o porrete, não é e nunca foi tarefa difícil. A natureza da burguesia liberal é trair. Em segundo lugar – e para nós este é o principal – porque a realidade de miséria e pandemia descontroladas se imporá. Nem os grandes homens podem mudar o curso histórico; podem menos ainda os impostores. Lembremos, a propósito, que a anunciada comoção esperada com a prisão de Luiz Inácio, e depois com a sua soltura, que ocorreu ainda antes da pandemia, fracassou. O PT e os seus satélites sabotarão de modo ainda mais decidido qualquer mobilização popular independente, pois lançarão todas as fichas no jogo eleitoral, para o qual pretendem se apresentar como as autênticas pombas brancas da paz. São a oposição consentida, como fora o MDB outrora, cheirando a mofo, como cheiram a mofo as suas alusões ao passado. Em especial nos 13 anos e meio em que reinaram enganchados nas altas esferas do velho Estado latifundiário-burocrático e se esbaldaram administrando a crise para o imperialismo, fazendo estripulias e maracutaias pela conciliação de classes, minando e solapando a luta de classes do operariado e do campesinato, e não menos, em nome deste velho Estado em decomposição presidiram a repressão às massas em luta, enfim realidade histórica morta e enterrada que não voltará jamais. Assistimos perante os nossos olhos a uma espécie de reprise da sofrida história política da América Latina, sempre espremida entre o elemento populista e o elemento militar, cujo desfecho costuma ser trágico: quanto mais um caudilho promete governar para todos – tarefa impossível - maiores são as frustrações e os rancores que desperta, maiores as divisões dentro e fora do governo, e maiores as chances de tudo desembocar num novo ciclo golpista. São, mesmo, o elemento populista e o elemento militar, uma espécie de irmãos siameses, idênticos em vários pontos, sobretudo no seu compromisso com o latifúndio, com o imperialismo e com a perpetuação da miséria dos nossos povos.

Uma coisa é certa: no Brasil de hoje, um ano e meio equivale a um século, de modo que qualquer previsão eleitoral de agora tem tanta validade quanto a prescrição de cloroquina para tratar a Covid-19. Do ponto de vista dos democratas e revolucionários consequentes, é preciso atacar sem piedade este governo militar genocida de Bolsonaro/generais, e explicar às massas com paciência, mas abertamente, que não há solução possível para as mazelas que nos assolam que não passe pela derrubada deste putrefato sistema de exploração e opressão, responsável pelo massacre de proporções bíblicas que ceifa a vida de centenas de milhares de brasileiros desde o ano passado. Na situação da pandemia temos revelada de forma muito concentrada a totalidade das misérias que nos assolam desde sempre, como a brutal desigualdade entre ricos e pobres, a hipocrisia de que “estamos todos no mesmo barco” quando uns podem ficar em casa protegidos e outros não, o desprezo da escória governante pelo povo que se escancara na falta de vacinas, o papel desse velho Estado como mero aparelho de coerção que existe para defender os interesses da minoria privilegiada, a verdade nua e crua de que a vida do trabalhador é item descartável, mais barato do que as mercadorias que ele entrega. Logo, que não podemos confiar nosso destino a nenhum politiqueiro da classe dominante, e que somente a nossa luta e organização próprias podem reverter este quadro. Estas são as pequenas grandes verdades que um tribuno que se preze precisa explicar, explicar e explicar todos os dias, porque são justamente elas que guardam a esperança de dias melhores. Os tempos bicudos carecem disso: uma força que diga que as massas podem vencer, e mostre com clareza através de qual programa e caminho. Na hora crítica, este punhado de teimosos clarividentes e organizados será capaz de arrastar milhões.

Foto: AFP.

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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