Lá era pra matar judeu, aqui o povo do sertão: A história dos campos de concentração no Ceará

Em memória de todos 

os nordestinos mortos nos 

campos de concentração. 

Quem olha de longe pode não perceber, pelo aspecto de casarão velho, que aquele lugar aparentemente isolado do mundo foi um campo de concentração. O casarão foi utilizado para “conter” os camponeses fugidos da seca no Nordeste. Apesar de tombado como patrimônio histórico, ele foi objeto de preocupação dos senhores de terra. Os grandes latifundiários que comandam a região sempre tratam de esconder os horrores que praticaram. 

Os campos de concentração (ou “currais do governo”) foram medidas bastante usadas principalmente no Ceará para conter os chamados flagelados da seca, que nada mais eram que homens, mulheres e crianças saídas do sertão fugidos das maiores desgraças que se possa imaginar: do domínio do latifúndio semifeudal até a própria seca que assolava o nordeste. Questão nunca resolvida, pois enriquece as classes dominantes. 

Os currais de gente foram utilizados no Ceará tanto na seca de 1915 quanto na seca de 1932. Eles eram um verdadeiro cenário de horror, semelhantes aos que seriam construídos na Alemanha alguns anos depois. 

A SECA 

Apresentada quase como algo "insolucionável" pelas classes dominantes, a seca é, nessa visão reacionária, um mal que o nordeste trouxe de nascença e hevará de morrer com ela. O profundo conteúdo de classe da seca, porém, fez com que intelectuais não-marxistas como Josué de Castro já mostrassem, no século passado, que a seca em si era uma causa secundária que apenas agrava problemas mais sociais do que naturais (palavras do próprio Josué). 

Enquanto fenômeno natural, a seca, longe de atingir a todos, açoita apenas os mais pobres. Chamados de flagelados, esses eram colocados em campos de concentração. Os grandes latifundiários não morriam nessas secas: no máximo vendiam seus escravos ao sul do país e viam sua renda cair um pouco. Mas sofrer, realmente não sofriam - já que o governo estava ao seu lado, ou, melhor, controlavam o governo ao seu favor. 

A própria definição de seca como algo sem solução, quase uma maldição que não poderia ser quebrada, sempre foi a desculpa das classes dominantes para não fazer absolutamente nada efetivo em relação a isso. Qual era, então, a reação da população? Ir para as cidades “tentar a sorte”, onde aparentemente nem a seca, nem o latifúndio poderiam matá-los. 

Aquela massa de camponeses assustava a nascente burguesia burocrática ligada umbilicalmente ao latifúndio semifeudal. Logo aquele povo seria visto não mais como homem, mulher ou criança, mas como flagelado: pensava como flagelado, agia como flagelado. Devendo ser afastado da sociedade caso se atrevesse a fugir da maldição insolucionável da seca e da servidão do latifúndio. 

Também havia o medo forte de que essa massa de camponeses, que sofriam com a seca, se rebelasse e entrasse para o cangaço (fenômeno de banditismo social). Já existindo há quase dois séculos, ele encontrava seu auge na figura do líder cangaceiro Lampião - figura que assombrava os pesadelos de Getúlio Dornelles Vargas que, ao assumir o poder em 30, declarou caça ao cangaço e aos cangaceiros. 

OS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO 

Os campos de concentração no Ceará, usados efetivamente na seca de 1915 e 1932, já davam seus primeiros sinais de vida nos chamados abarracamentos improvisados pelo governo para prender os retirantes que tomaram conta da cidade de Fortaleza de 1877 a 1880. Em 1915, foi construído e utilizado o Campo de Concentração do Alagadiço. Em 1932 a coisa piorou, foram instalados cerca de seis novos campos de concentração ao todo, dentre eles o de Quixeramobim, Crato, Ipu e Cariús, na periferia de Fortaleza foram instalados dois, o de Otávio Bonfim e Pirambu. 

Não havia comida, água, tratamento para as doenças. Eram todos chamados por números e tinham a cabeça raspada. Os mortos - muitos deles crianças - eram empilhados conforme iam morrendo. O fedor era insuportável e todo dia morria ao menos ao menos uma pessoa nesses campos.

Construções que deveriam abrigar 5 mil abrigavam mais de 20 mil. O campo de Patu, construído em Senador Pompeu, é um exemplo claro disso. Todo dia chegavam mais e mais pessoas. O governo lhes prometia trabalho, comida e atendimento médico. Assim como na Alemanha isso estava longe de ser verdade. Impossível não lembrar do que está escrito na porta do campo de concentração de Auschwitz: Arbeit macht frei (O trabalho liberta). 

Em 1933, quatro dos sete campos de concentração estavam em funcionamento. O de Buritis na região do Crato chegou a abrigar cerca de 60 mil pessoas quando claramente não tinha estrutura para isso. 

É impossível mensurar quantas pessoas morreram nesses campos, pois o governo para que ninguém ficasse sabendo da barbárie, não fazia atestados de óbito, simplesmente. Como cantou Gonzaguinha são cruzes sem nome, sem corpos, sem data. Sabe-se apenas que mais de um milhão de pessoas passaram por eles.

Em setembro, quando os campos já haviam sido desativados, o sr. Getúlio Vargas fez um discurso na capital cearense onde reconheceu a existência de verdadeiros campos de concentração. Getúlio ainda demoraria anos até conseguir destruir Lampião que tanto lhe assombrava. 

Os campos de concentração no Ceará são mais uma prova de que a fascistização do velho Estado não encontra limites para oprimir o povo. 

Verdadeiros campos de concentração, os "curais" do Ceará abrigarão milhares de "flagelados". Foto: Banco de dados AND

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