A histórica resistência camponesa de Canudos e como o exército tentou esconder o que fez

O que Canudos sofreu nós guardados na memória
Aquela grande chacina, a grande carnificina
Que entristece a nossa história

Patativa do Assaré - Antônio Conselheiro

INTRODUÇÃO 

Em 1893, Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, após muitos anos de andanças pelo sertão e recentes perseguições por parte da polícia e do clero, fixa-se em um lugar que chama de Belo Monte. Localizado nas ruínas de uma antiga fazenda na Bahia, esse lugar ficaria eternizado na história do povo brasileiro como Canudos. 

Pouco tempo depois do arraial ser fundado, chegou a tentativa de acabar com Antônio e seus seguidores (apelidados pejorativamente de jagunços, conselheiristas e fanáticos). Precisando de quatro expedições para acabar com os conselheiristas, os grandes latifundiários se enganaram, pois acreditavam que com a primeira investida do Exército contra Canudos, tudo acabaria. 

Estavam enganados… nunca haviam visto tanta resistência! 

O major Febronio de Britto da Segunda Expedição afirmara o seguinte sobre os combatentes de Canudos:

"Nunca vimos, eu e meus camaradas, tanta ferocidade! Vinham morrer como panteras, dilacerando entranhas, agarrados às bocas das peças... Todos eles traziam armas de fogo, bons e afiados facões, cacetes pendentes dos pulsos" 

CONSELHEIRO E AS ANDANÇAS 

O arraial de Canudos não veio do nada. Ele foi resultado de, no mínimo, vinte anos de andanças de Antônio Conselheiro pelo sertão, onde o mesmo conquistou diversos seguidores, todos camponeses pobres. Abandonados à própria sorte pelo governo e pelo latifúndio semifeudal que lhes queria serviçais, se reuniram tendo em comum a falta de um chão para plantar e viver. 

Antonio Vicente, assim como seus seguidores, era um fruto da opressão do latifúndio semifeudal nordestino e das perseguições movidas contra os pobres. Sua família era de camponeses pobres e contavam com uma pequena criação de gado no interior do Ceará quando uma família de latifundiários passou a persegui-los, matando diversos parentes, inclusive o avô do ainda jovem Antônio. 

Em 1873 ocorre a primeira menção a Antônio no Jornal O Rabudo: “Há seis meses que por todo o centro desta Província e da Província da Bahia, chegado (diz ele) do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antonio dos Mares. O que, à vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito, tem dado lugar a que o povo o trate por S. Antônio dos Mares. Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul que lhe serve de hábito a forma do de sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos e sebosos entre os quais se vê claramente uma espantosa multidão de bichos (piolhos). Distingue-se pelo ar misterioso, olhos baços [2], tez desbotada e de pés nus; o que tudo concorre para o tornar a figura mais degradante do mundo.”

Em 1876, Conselheiro foi preso e mandado de volta ao Ceará pelas suas andanças no sertão da Bahia. Logo quando posto em liberdade voltou e continuou a reunir seguidores, sendo descrito, em 1877, no calendário anual Folhinha Laemmert como: “um indivíduo que se diz chamar Antônio Conselheiro e que exerce grande influência no espírito das classes populares.” 

Nesses anos, Conselheiro é denunciado diversas vezes por autoridades não só do velho Estado, como da própria Igreja Católica. Um exemplo foi quando o arcebispo da Bahia (que sete anos antes da queda da monarquia já proibia os católicos de ouvirem suas “heresias”). Não adiantou de nada, o Conselheiro apenas ganhava mais seguidores. 

Por conta de todas essas perseguições, que envolveram até mesmo conflitos armados durante as andanças, Antônio decide fixar-se em Belo Monte. Buscava o povoado no objetivo de que ele e seus seguidores pudessem viver com mais tranquilidade e segurança. 

AS EXPEDIÇÕES 

A Primeira Expedição contra Canudos contou com 113 homens, comandados pelo tenente Manuel da Silva Pires Ferreira, no caminho para o arraial foram surpreendidos pelos seguidores de Conselheiro, mais especificamente na localidade de Uauá. Aplicando a tática de cerco completo ao inimigo para aniquilá-lo, os habitantes de Canudos conseguiram fazer não só com que a tropa se retirasse correndo, como conseguiram apreender muito do seu arsenal munidos apenas de facas, paus e armas de matar passarinho. 

A tal Segunda Expedição do major Febrônio tinha um total de 550 homens, bem municiados e armados até os dentes, mas são emboscados pelos guerrilheiros comandados por Pajeú - um pernambucano que deixou de ser policial para viver em Canudos - e são esmagados, tem grande parte do seu armamento apreendido pelos combatentes e sua comida incendiada. O mesmo Pajeú comandou o grupo que matou e degolou o Coronel Moreira César da Terceira Expedição contra o arraial, que, ironicamente, era conhecido como “Corta Cabeças”.

A heróica resistência dos camponeses de Canudos por fim foi derrotada pela Quarta Expedição, que pôs fim no arraial. O Exército Brasileiro cometeu um verdadeiro massacre ali dentro. Mulheres, crianças, adolescentes e adultos que sobreviveram foram sangrados ou degolados um a um. Até Conselheiro, que já estava morto, foi retirado de sua cova já em estado de putrefação. 

Era perigoso existir outra Canudos. Não deveriam haver nem provas de que aquilo existiu. “Não deixar nem um pau" era a ordem. Nada deveria indicar que os camponeses nordestinos, aquele povo “passivo”, “coitado”, tinham ali se rebelado contra o velho Estado. Deveria desaparecer da memória, e, para isso, os "fanáticos" deveriam ser mortos. 

A resistência de Canudos foi heróica. aqueles que ali viveram e lutaram nunca capitularam, como assinalou Euclides da Cunha: 

“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo... Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.” 

Em apenas uma coisa Euclides errou nesta frase: Canudos estava longe de ser exemplo único na história. 

A BRAVURA DOS COMBATENTES 

É necessário abrir um capítulo neste texto apenas para falar da bravura dos canudenses. Todos durante a guerra se tornaram combatentes da Guarda Católica de uma forma ou de outra. As mulheres desempenharam papel fundamental atuando junto de seus companheiros. 

Mas o maior exemplo de bravura, de coragem, eles mostraram na hora da morte, quando capturados pelos soldados. Nesse momento, nenhum demonstrou medo. Pelo contrário, na hora da morte é que deram seus maiores exemplos de bravura, reconhecidos até mesmo pelos soldados que lhes assassinaram. 

A maioria dos combatentes preferiu morrer do que ser capturado, e ao serem capturados demonstravam força, bravura e decisão de continuar defendendo o Belo Monte. Um exemplo foi o adolescente que foi pego após ser ferido em combate. Posto sob interrogatório, morreu na mão de seus algozes sem revelar nada. Como disse Rui Facó:

“A vida dura de antes e as barbaridades contra eles perpetradas, agora tinham forjado, em homens, mulheres e crianças, uma têmpera de aço.”

A DIFAMAÇÃO CONTRA CANUDOS 

Antes, durante e depois da guerra, o governo brasileiro tratou de lançar mentiras contra Canudos, chamavam-os de fanáticos, de jagunços, até mesmo de monarquistas treinados pelo estrangeiro. 

O Belo Monte de Conselheiro estava longe de ser um reduto monarquista. Eram camponeses que disseram não ao latifúndio. Disseram não a viver em servidão. 

Nenhum homem são pode renunciar à ser livre. A liberdade para o velho Estado, porém, correspondia por sustentar seu “novo” velho regime: a república proclamada para atender a interesses das oligarquias. Por isso, de pronto, os canudense não eram tratados pelo governo como homens: eram fanáticos, bandidos, monarquistas e tudo mais que pudesse ser caracterizado como algo ruim na conservadora sociedade brasileira semifeudal. 

Havia um medo de que o povo de outras regiões entendessem o que de fato foi Canudos, quem de fato foi Conselheiro, o que significou a bravura de seus combatentes. Era então necessário apagar tudo aquilo, esmagar. E como não conseguiram, foi necessário difamar para que aquilo se tornasse algo ruim na memória dos brasileiros, não conseguiram. 


Notas:

[1] Do cordel Antônio Conselheiro de Patativa do Assaré.

[2] Baço: Que não possui brilho ou que deixou de o possuir; embaciado.

O povo de canudos não se rendeu: enfrentou as tropas republicanas até o último sobrevivente. Foto: Reprodução

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