Pesquisa arqueológica inédita sobre tribo indígena

As mulheres Zoé são as guardiãs dos segredos da tribo. Foto: Reprodução

Até pouco tempo atrás eles não sabiam que formavam uma “tribo indígena”. Na verdade, o povo Zoé (pronuncia-se “dzoé"), há apenas 32 anos, não sabia quase nada sobre o mundo contemporâneo e o papel que seu agrupamento desempenhava nele. Considerados “Índios Isolados” (*), os Zoé foram contatados oficialmente pela primeira vez, pela Fundação Nacional do Índio (Funai), em 1989 nas matas do norte do Pará. A partir daí é que a sociedade brasileira começou a conhecer a tribo, descobrindo, aos poucos, com estudos, quem eram aqueles moradores de um Brasil inexistente para a grande maioria de seus cidadãos.

A pesquisa mais recente revelou dados inéditos sobre sua cerâmica e foi realizada pelos arqueólogos Francisco Noelli, ex-Universidade Estadual de Maringá (UEM), atual doutorando em Arqueologia na Universidade de Lisboa; Marianne Sallum, da Universidade de São Paulo (USP); e pela lingüista Ana Suelly Cabral da Universidade de Brasília (UnB), tida como a maior conhecedora do idioma da tribo, com quem mantém conversas periódicas.

Publicada há algumas semanas na revista acadêmica Habitus (Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia, dezembro 2020/fevereiro 2021) a pesquisa foi identificada como o primeiro esboço acerca da linguagem da cerâmica do grupo. O título completo da publicação é: Tapimãa’ Új Japohát, Fazedoras de Belas Panelas e as Primeiras Explorações da Linguagem da Cerâmica Zo’é.

CONSTRUINDO UMA ENCICLOPÉDIA

Os pesquisadores reuniram palavras e frases sobre as cerâmicas, empregadas pela tribo desde a coleta do barro, sua queima e uso dos recipientes “como um cenário etnográfico” para orientar futuramente uma comparação com outros povos de língua tupi-guarani que não tiveram uma história de isolamento tão duradoura como os Zoé. Os resultados preliminares revelam que a linguagem dos Zoé preserva similaridades com a linguagem das cerâmicas de outros povos falantes das línguas Tupi-Guarani. As vasilhas, porém, apresentam alguns formatos e estruturas que sugerem relações sociais com povos de idioma Karib da região, onde eram predominantes e anteriores aos Zoé. Entre estes estão cerca de 10 tribos, como a Wai-Wai, cuja maioria foi contatada nos anos 1950/1960.

As informações coletadas na pesquisa também farão parte do projeto de um futuro dicionário com formato enciclopédico. O objetivo será reunir neste dicionário, por ora em construção, informações dos vários domínios do saber Zo’é, em colaboração com os próprios indígenas e pesquisadores de diversas áreas, acompanhadas de ilustrações linguísticas, imagéticas e de notas etimológicas.

MULHERES SÃO AS GUARDIÃS

“A transformação de barro em vasilha não é uma tarefa aleatória para os povos Tupí. É uma prática dependente de relações que conectam saberes sistematicamente transmitidos entre gerações de mulheres, como a linguagem, a cultura material e os sentidos” – diz o texto da pesquisa.

E enfatiza: “São elas (as mulheres, as fazedoras das belas panelas) que, zelosamente, são guardiãs dos segredos que garantem a sua perfeição, durabilidade e beleza”.

Tal papel feminino está confirmado desde os anos 1500. Quando o invasor Cabral desembarcou aqui, a maior parte do nosso litoral era ocupada por indígenas que falavam línguas tupi e guarani, sendo que, conforme o arqueólogo André Prous (UFMG), os primeiros cronistas/escritores brancos daquela época mencionaram que eram as mulheres índias que produziam e decoravam os potes de barro.

Até hoje elas são as “donas” da argila e do fazer cerâmico. Tanto que a lamentável extinção da prática ceramista nas aldeias guaranis brasileiras, devido à perda de áreas com barreiros (beira de rios contendo argila) e falta de outras condições propícias a essa atividade, está sendo revertida hoje num paulatino, porém marcante, movimento de mulheres indígenas nos estados do Sul, segundo informou a Funai em março passado.

As guaranis e as kaingangues querem readquirir para si e seus povos, com a feitura das peças, “rituais e conexões espirituais importantes” que tinham sido perdidos. Conforme o antropólogo Sergio Baptista da Silva (UFRGS): “as tradições, o xamanismo, as práticas como a cerâmica, estão todas interligadas à terra. Animais e plantas são considerados ‘pessoas’ com cultura, poder, sentimentos e vontades. Assim, o próprio barro é considerado um ser (vivo), implicando uma relação essencial com o território.”

“NÓS MESMOS” SOMOS ÍNDIOS?

Os Zoé são um grupo da família linguística tupi-guarani que habita uma zona de florestas densas entre os rios Cuminapanema e Erepecuru no noroeste do estado do Pará. Conforme dados do Museu Goeldi, atualmente são 310 pessoas, que se distribuem entre mais de 40 pequenas aldeias. Sua área, a Terra Indígena (T.I.) Zoé, foi homologada em 2009, com 668.565 hectares.

O pronome zo’é, “nós mesmos”, se consolidou aos poucos como sua autodenominação. No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com servidores da Funai, esse termo ainda não era usado, se transformando em etnônimo apenas quando os Zoé aprenderam a se pensar como “índios”, algo antes desconhecido por eles.

Tidos como isolados (ou de recente contato com o homem branco) participaram de uma missão organizada pela Funai, em 1989, para salvá-los de uma epidemia de gripe levada por missionários evangélicos dos USA. O fato por pouco não provocou a extinção da etnia. Quando a Funai chegou à região para intervir e expulsar os evangélicos da Missão Novas Tribos (MNT), sob ordem judicial, havia apenas 131 zo'é nas aldeias. Seis anos depois, o número havia subido para 155. Em 2009 para 245. E hoje já são 310. A MNT, acusada de vários crimes na América do Sul, agora mudou o nome para Ethnos360, conforme acusa o grupo Survival Internacional (SI).

UM CONTAMINADOR NO MANDO DA FUNAI

Neste abril, os Zoé e demais povos indígenas nada têm a celebrar. O governo militar de Bolsonaro/generais nomeou o evangélico Ricardo Lopes Dias, para comandar a Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da FUNAI. Lopes Dias, segundo o SI pertenceu justamente à temida MNT (Ethnos360) que contaminou e quase extinguiu os Zoé.

“Atualmente, a MNT é um dos grupos missionários evangélicos fundamentalistas mais extremos (dos USA). Fundada na década de 1940, seus membros acreditam que a segunda vinda de Cristo só chegará quando as últimas pessoas da terra ouvirem o Evangelho. Os povos indígenas isolados do Chaco, uma mata de planície seca entre a Bolívia, o Paraguai e a Argentina, serviram de laboratório para suas primeiras missões. Mas foi no Paraguai onde alguns de seus crimes mais terríveis aconteceram”, denuncia o SI.

Observação: Eles organizaram verdadeiras caçadas para forçar os índios Ayoreo a sair da floresta. Seu projeto foi uma “conquista para Deus”, que envolveu violentos confrontos que causaram a morte de vários indígenas e a destruição de todo um modo de vida milenar.

 


(*) Índios Isolados, Povos Isolados ou Tribos Perdidas, são comunidades que, por decisão própria ou por determinadas circunstâncias, vivem em isolamento total ou sem contato significativo com a sociedade em geral. De acordo com o Conselho Indigenista Missionário, existem 116 registros de povos isolados ou livres, dos quais 88 ainda não foram confirmados pelo Estado brasileiro – o que de maneira nenhuma descarta a sua existência.

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