Nelson da Rabeca: expressão do brasil profundo

Trabalhando no corte de cana, o artista Nelson da Rabeca representa a cultura popular genuinamente. Foto: Reprodução

Nasceu no dia 12 de março de 1941 no município de Marechal Deodoro, no estado de Alagoas, o compositor e rabequeiro Nelson dos Santos, mais conhecido como Nelson da Rabeca. Oriundo de família de camponeses pobres, Nelson não pôde se alfabetizar em razão de sua condição financeira muito precária passando os anos de sua juventude e vida adulta cortando cana enfurnado nos extensos canaviais alagoanos. Porém, sua vida mudou completamente após assistir uma apresentação de violino num programa de televisão. “Eu vivia no canavial trabalhando no pesado. Eu já estava com 54 anos de idade, vi uma pessoa tocando violino e achei aquilo muito bonito, né?” relata o compositor. Com isso, seu Nelson, como também é chamado, decidiu fabricar seu próprio instrumento usando o mesmo facão na qual cortava a cana-de-açúcar. Assim ele foi nas matas para a aquisição de madeira e ao voltar para casa confeccionou 6 rabecas! Após muito treino de experimentação aprendeu a tocar Assum Preto, Asa Branca e Vida do Viajante do Luiz Gonzaga. E é desta forma que sua brilhante carreira na música popular se inicia, se tornando então o grande Nelson da Rabeca.

Dada as primeiras confecções das rabecas, Nelson dos Santos se apresentava para os banhistas da Praia do Francês chamando a atenção dos banhistas e dos turistas do local que se impressionaram com as habilidades musicais do rabequeiro. Nelson relatou que com algumas horas de apresentação nas praias ele ganhava mais do que 15 dias de trabalho nos canaviais. É importante ressaltar a situação a qual o rabequeiro esteve submetido durante toda sua vida, sendo mais um dos milhares de homens e mulheres do campo em condições de analfabetismo, miséria e a mais crua exploração da força de trabalho barata destes que não tem uma terra para viver e trabalhar. “Se fosse cana crua eu voltava melado, todo cheio de pelo. E quando era queimada ainda era pior [porque afetava] os olhos, a venta… Era [sujeira] por todo canto.” relata seu Nelson sobre o período sofrido da colheita da cana-de-açúcar. A condição de servidão na qual Nelson dos Santos esteve subordinado durante os mais de 50 anos de sua vida é a realidade de milhões de pessoas do nosso povo, que lutam há mais de meio milênio contra a persistência do problema agrário nunca solucionado pelo velho Estado.

A discografia do brilhante rabequeiro apesar de não ser muito extensa conta com riquíssimas composições em torno do baião, xote e do pé-de-serra acompanhadas pela sua rabeca de sonoridade robusta, marca registrada do Nelson da Rabeca, pois ele confecciona o instrumento usando madeiras resistentes que agrega essa característica única as suas músicas. Seu Nelson escreve suas composições junto a sua companheira, Dona Benedita, que se apresenta com a sua voz eufônica nas gravações. Nelson da Rabeca e Dona Benedita lançaram oficialmente dois álbuns de estúdio cujo os desdobramentos dos temas giram em torno de letras que retratam o amor inquebrantável do casal, seu cotidiano e poesias que soam quase surrealistas como é o caso da canção “Estava Num Campo de Areia”, que se soma a instrumentais excepcionalmente executados. É como música traduzida em cordel. No segundo álbum de estúdio, chamado de Tradição Improvisada, Nelson da Rabeca adentra o universo da improvisação musical em parceria com Thomas Rohrer onde o músico suíço e o mestre da rabeca mergulham na extemporização, combinando suas performances com comunicação emotiva, resultando num trabalho experimental tão bem executado quanto o primeiro álbum. Um dos pontos altos deste álbum pode ser ouvido na faixa “Briga das Rabecas”, onde os artistas usam do instrumento para a reprodução de drones musicais hipnóticos.

Dona Benedita, esposa de Nelson da Rabeca, é compositora e teve contribuições importantes para a obra Nelson da Rabeca. Foto: Reprodução

Nelson da Rabeca é atualmente um dos maiores representantes da música tradicional nordestina do Brasil. Sua árdua jornada e talento imensurável conquistou o respeito de artistas e músicos eruditos do mundo inteiro, surpreendendo-os não só pela sua história de luta mas também pela sua inegável genialidade. Repito as palavras da violinista Catarina de Labouré: “Seu Nelson é um ícone da resistência e da fé da música brasileira.”

Contexto em que se desenvolveu o artista Nelson da Rabeca, o nordeste do Brasil apresenta a permanência de um latifúndio de caráter atrasado. Ali, onde a concentração fundiária é bastante expressiva, se vê um maior embrutecimento de toda a vida do camponês, e também é de onde sai a maior parte da força de trabalho expropriada. No estado de Alagoas, especificamente, a manifestação desse caráter se dá pela forte presença da monocultura canavieira engessada na grande propriedade agrária dos usineiros, gerando relações de trabalho análogas e servis, exprimindo a base da semifeudalidade do nosso país.

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

Nunca recebemos um centavo de bancos ou partidos eleitoreiros. Todo nosso financiamento sempre partiu do apoio de nossos leitores, colaboradores e entusiastas da imprensa popular e democrática. Nesse contexto em que as lutas populares tendem a tomar novas proporções é mais do que nunca necessário e decisivo o seu apoio.

Se você acredita na Revolução Brasileira, apoie a imprensa que a ela serve - Clique Aqui

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de Apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
todo sábado, às 9h30

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda (licenciado)
Victor Costa Bellizia (provisório)

Editor-chefe 
Victor Costa Bellizia

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão 
Henrique Júdice
Matheus Magioli Cossa
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação
Ana Lúcia Nunes
João Alves
Taís Souza
Gabriel Artur
Giovanna Maria
Victor Benjamin

Ilustração
Victor Benjamin