Editorial - As tendências deste golpe militar

EditoriaI de AND 240.

A grave situação econômica de crise geral do capitalismo burocrático, que hoje se abate como a maior crise da história do país, é a base sobre a qual todas as aberrações e desgraças podem se levantar. O fenômeno Bolsonaro, acompanhado do golpe militar em curso desde 2015 (desatado como “Lava Jato”, sempre operada com miúdo acompanhamento do Alto Comando militar e coordenada pelo imperialismo ianque, Estados Unidos, USA), são necessários para a reação. Somente um recrudescimento sem igual do regime político e da negação dos direitos democráticos podem assegurar a elevação da exploração, sem a qual a crise econômica não pode ser parcialmente debelada.

Essas tarefas reacionárias imediatas são uma questão de sobrevivência para o capitalismo burocrático. As classes dominantes, com os grandes burgueses singulares cindidos entre diversos monopólios e grupos políticos de poder (portanto, sem visão do todo) e divididas na pugna pela hegemonia no poder de Estado, exigem da espinha dorsal do Estado reacionário uma visão estratégica. Essa é a podre tarefa que cumpre o Alto Comando das Forças Armadas (ACFA), como um “capitalista coletivo”, de inclusive submeter determinados grupos de poder das classes dominantes para impor linha e direção únicas e assegurar a manutenção da totalidade da velha ordem burocrático-latifundiária e seu sistema de exploração e opressão.

Esse é o golpe que esses gorilas desataram e buscam manter sob sua direção, e aprenderam bem da experiência de 1964. Escalaram os generais da reserva para empalmar o governo de turno (primeiro o de Temer, depois o de Bolsonaro), enquanto, mediante chantagens e ameaças (usando-se para tanto a “Lava Jato” e deixando atuar a extrema-direita para elevar a tensão), constrangem as instituições e as forças políticas em geral (sobretudo a centro-direita e o oportunismo) de modo a tutelá-las e garantir que todo o desenrolar da situação política seja no rumo que previamente decidiram, no cumprimento das tarefas reacionárias.

Portanto, a desgraça na qual vive a Nação hoje deve-se a esses senhores generais, heróis de guerra sem guerra. Primeiro, porque são eles o governo militar de fato. Segundo, porque sempre foram responsáveis por impedir a Revolução Democrática em nossa pátria, mantendo-a nesse estado de decomposição, sobre o qual agora arvoram-se ferrenhos moralistas.

II

A liberação de Luiz Inácio pelo Supremo Tribunal Federal (STF) é um ingrediente muito relevante para o processo perigoso que se tornou a situação política. A decisão do STF é resultado de um acúmulo de forças da centro-direita na Suprema Corte buscando dar um golpe de morte na “Lava Jato” (golpe de morte esse garantido pela desmoralização da mesma com a divulgação pelos “hackers”, da falcatrua e da intromissão ianque).

Diante de tal decisão, a direita militar, embora enfurecida, nada pôde fazer sem que isso precipitasse uma crise institucional muito maior. Agora, só lhe resta aproveitar-se da falsa polarização PT-Bolsonaro para melhor adaptar seu plano de golpe pelas vias institucionais ou justificá-lo por via abertamente ilegal.

Por outro lado, Bolsonaro – o fraco – buscou aproveitar-se da agitação inegável que tal manobra da centro-direita causou em toda a opinião pública reacionária, tanto no governo, na caserna e fora dela. Isolado e percebendo o agravamento das dificuldades para o golpe militar por vias institucionais dos generais, viu nisso a oportunidade para criar instabilidade, galgar posições e, quem sabe, alcançar pequenos êxitos em seu plano de “virar a mesa” no ACFA para, no médio prazo, arrastá-lo para uma aventura abertamente golpista. Fracassou vergonhosamente e teve que engolir a demissão dos três ex-comandantes do Exército, Marinha e Força Aérea, elevando seu isolamento. Agora, Bolsonaro encontra-se detratado na opinião pública, ainda mais refém (consentido) da sanha voraz dos insaciáveis parlamentares sedentos por verbas públicas e ainda mais acossado pelas CPI’s de inumeráveis crimes que tem cometido depois de assumir a presidência.

Segundo os próprios articulistas da imprensa reacionária, Bolsonaro pressionou para que o alto oficialato da ativa se pronunciasse ao “estilo Villas Bôas” por ocasião da liberação de Luiz Inácio. Proposição rechaçada por Edson Pujol e, provavelmente, com o respaldo do ex-ministro da Defesa, Fernando Azevedo, uma vez que o ACFA busca desvincular a imagem das forças com a imagem de um governo genocida. Ato contínuo, a direita hegemônica no ACFA avançou mais posições: manteve postos chave e desmantelou mais um posto avançado que Bolsonaro detinha nas Relações Exteriores, desde onde sabotava as relações internacionais nos negócios de obtenção da vacina, ademais de prejudicar a menina dos olhos da economia, o agronegócio. Por seu turno, Bolsonaro, obstinado, incrementa sua presença nas forças auxiliares (polícias militares) buscando multiplicar suas peças no tabuleiro e ser capaz de pressionar o ACFA como elemento instabilizador ineutralizável (vide a agitação e motins na Bahia).

Portanto, enganam-se os que pensam que os generais Luiz Eduardo Ramos e Braga Netto (novo ministro da Defesa) estão com Bolsonaro e contra os ex-comandantes das forças que deixaram os postos, e também erram os que creem que os substitutos são gente de Bolsonaro. A demissão dos três ex-comandantes das FA – fato alimentado pelo ACFA para desgastar Bolsonaro na oficialidade – deu lugar à nomeação de outros três que, no fundamental, mantêm a mesma posição dos anteriores ou até tomam-na de forma mais explícita. Bolsonaro colhe o enorme desgaste gerado pela sua tentativa, sempre desprezada na caserna, de intrigar para aprofundar a divisão no comando das forças.

Com a fracassada manobra, o isolamento de Bolsonaro é tal que o ACFA está em condição de consolidar a posição de tentar frear a desgraceira da pandemia ocasionada pela política genocida do presidente fascista, com a qual os generais têm sido cúmplices, apaziguando, para não dividir as FA. Tentam reverter os fracassos na obtenção de vacinas e do plano de vacinação, tendo o nome da instituição ligado à ação criminosa do Ministério da Saúde, ademais da incompetência de seu general chefe de logística.

Por seu turno, na ação de governo, a corrida do ACFA é contra o tempo na tentativa de frear a mortandade, pois que, se a sua média diária, que já ultrapassou 4 mil, chegar a 5 mil, pode precipitar a explosão de revoltas que até agora têm sido amortecidas pela busca diária das massas empobrecidas por sobrevivência, por manter-se no emprego e por achar um jeito de ir levando, apesar da falta de atendimento à saúde com o colapso hospitalar. Se tal processo explodir, será insustentável ao presidente da Câmara segurar o trâmite do processo de impeachment de Bolsonaro e, com isto, se darão todas as justificativas para a intervenção militar completa das FA, porém, com grande desgaste e, portanto, cenário não ideal (vide a consigna do ACFA para seu golpe por vias brancas: “estabilidade, legalidade, legitimidade”). Na iminência de tal desordem, é evidente: as FA estarão unidas na intervenção e dificilmente atuarão para afastar Bolsonaro à força, por temor que tal ato divida as FA (desde o Tenentismo é lei da atuação das FA a unidade a qualquer preço, pois sabe seu comando que ela é a garantia de manutenção da velha ordem).

Ademais, de olho em 2022, o plano da direita do ACFA a médio prazo, se o governo se mantiver, pode tomar duas vias: usar da falsa polarização PT-Bolsonaro para abandonar a chapa do capitão fascista e embarcar no timão de uma candidatura de direita com capacidade de atrair toda a opinião pública anti-PT e mesmo alguns setores hoje bolsonaristas (alguns dizem Sérgio Moro, outros dizem que o general Santos Cruz pode vir a encabeçar uma chapa); ou, a depender do grau de putrefação da velha ordem em sua crise geral, os generais podem antes mesmo da eleição armar qualquer patranha ou usar de qualquer elemento da situação política que alarde a opinião pública para justificar a intervenção militar completa. O impeachment pode ser um tal elemento; o levante de massas, outro.

Frente a todos esses cenários, o ACFA está trabalhando desde já o consenso na oficialidade de que seguramente será necessário a intervenção militar completa para restabelecer a ordem se ela descambar, mas advogam que a intervenção sob comando de Bolsonaro é uma aventura que levará as FA para um banho de sangue contra o povo. Todavia, os generais sabem das dificuldades colossais em que o país já mergulhou, situação dentro da qual tem peso relevante a decisão do STF sobre Luiz Inácio, quando o país se encontra dividido e em marcha acelerada rumo à guerra civil, situação impossível já de ser evitada no decorrer do tempo.

Tudo dependerá do desenvolvimento dos acontecimentos e da relação mútua entre as forças em luta: 1) extrema-direita, 2) direita militar e civil, 3) centro-direita (direita tradicional), 4) oportunismo e 5) as próprias massas mobilizadas e, sobretudo, as dirigidas pelo seu elemento consciente.

O oportunismo, por outro lado, colhe muito pouco. A liberação de Luiz Inácio não gerou a tal comoção que imaginavam, demonstrando a derrota de seu projeto do ponto de vista histórico-estratégico. Desse ponto de vista, as massas populares estão temporariamente órfãs de um projeto político, e a disputa por conquistá-las está entre a pregação fascista de Bolsonaro e o caminho democrático-revolucionário de Nova Democracia, que tem o dever de impulsionar ao máximo sua penetração, com a ação e propaganda revolucionárias. É um dever inadiável e qualquer procrastinação revela-se um crime.

III

Tal crise militar que veio como nunca à superfície é, no fim das contas, uma boa coisa. Alguns, cochilando, veem, diante dos fatos, os generais como uma força legalista. São os partidários das ilusões constitucionais. Esses, coitados: só acordarão mesmo quando o diabo pegar-lhes pelos pés. Outros, honestos, vendo a atuação golpista dos generais assustam-se e lamentam a morte iminente da democracia. A esses respondemos: não se pode lamentar a morte de algo que nunca viveu. A velha democracia é uma máscara, atrás da qual nunca deixaram de existir as torturas, as execuções, a miséria, a servidão e a negação das liberdades democráticas – ainda que algumas delas fossem consentidas apenas para alguns e apenas enquanto não fossem inconvenientes. Agora tudo se desnuda. E não há com o que se assustar. Tudo isso é mesmo sintoma e prenúncio dos tempos no qual estamos vivendo e atuando: a época da transformação cabal e completa da Nação como parte da transformação da história humana universal. O curso sinuoso dos acontecimentos promete grandes glórias para os povos que superarem as maiores ignomínias. Se unido a uma sólida vanguarda proletária, esse é o destino selado do povo brasileiro.

Da esquerda para direita, generais Walter Braga Netto, Fernando Azevedo e Silva e Eduardo Villas Bôas, à época dos preparativos para a intervenção militar no Rio de Janeiro, chefiada por Braga Netto. Foto: Reprodução

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