Quinta-feira sangrenta no Jacarezinho

Policiais carregam corpos durante operação de guerra no Jacarezinho. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Esta quinta-feira, 06 de maio de 2021, tornou-se tragicamente histórica. Uma operação terrorista desatada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, na favela do Jacarezinho, resultou em vinte e cinco pessoas mortas e inúmeras outras feridas, um dos maiores morticínios de todos os tempos. Pessoas foram baleadas dentro do metrô; outras, foram assassinadas dentro das casas, ou deixadas estiradas nas ruas, como “exemplo”. Notem que causou justa comoção, em todo o mundo, a brutal repressão aos protestos na Colômbia, que deixou um rastro de cerca de 30 mortos até aqui. Matou-se o mesmo em algumas horas numa única localidade do Rio. A escala da orgia sanguinária é impressionante. O toque de surrealismo fica por conta de esta caçada humana ter sido conduzida pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA). Claro, as crianças estão mais seguras depois disso. Engels estava certo quando dizia, comentando a reação à Comuna de Paris, que a burguesia não tem limites na sua “louca crueldade vingativa”. 

Estes são os dias “normais” para quem vive nas favelas, independentemente da pandemia (que, a grosso modo, vitima a mesma população “morrível” de sempre). Relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado há poucos dias, registrava que, em 2020, 5660 pessoas foram assassinadas pelas polícias brasileiras (número que não inclui os dados de Goiás). Das 27 Unidades da Federação, em 17 aumentou a letalidade policial. No Rio de Janeiro, ao contrário, houve redução de 32%, devido à decisão do STF de julho passado que limitou as incursões policiais, exigindo que estas só ocorram em casos excepcionais e comunicados por escrito ao MP. Isto se deu após o assassinato do menino João Pedro, 14 anos, na sua casa em São Gonçalo (ainda assim, foram registradas 1.245 por intervenção policial, uma média de três por dia!). A referida decisão, mesmo limitada, restringiu as mortes, inclusive de crianças, o que explicita que o desígnio principal destas infames operações – e não seu “efeito colateral” – é matar pobres. Trata-se de uma verdadeira guerra preventiva, não declarada, que visa manter sob controle estes enormes cinturões de miséria, verdadeiros barris de pólvora. 

Os matadores, ao que tudo indica, buscaram resgatar numa manhã o saldo de um ano inteiro. Os relatos dos moradores, replicados na imprensa, soam como registros de um território ocupado por tropas estrangeiras: 

"Respeito com os moradores, nunca tem. Isso é uma população, mas acho que eles pensam que estão no Iraque"; 

“Tem muita gente morta”;

“As famílias estão todas desesperadas, tentando chegar perto dos corpos, e os policiais não deixam”;

    “Estão pegando telefone e agredindo morador”.

Esta é a realidade atroz de milhões e milhões de pessoas no Brasil de 2021, chamem-na de velho ou novo “normal”. Eis o nosso potente “Estado de direito”. O atual governo militar de fato, instalado sob a sombra de Bolsonaro, poderia ser bem qualificado como a volta dos que não foram. A verdade nua e crua é que, em lugares como o Jacarezinho, o golpe já aconteceu; ou nunca deixou de vigorar. Esta é uma chave decisiva para interpretar o Brasil, e a onda de revolta e repúdio que veio à tona a partir de Junho de 2013. Não é uma democracia em vertigem. É uma miragem de democracia mesmo, farsesca, seletiva, hipócrita, racista, irrealizada. 

Não é desnecessário frisar que a letalidade policial no Rio explodiu no ano da intervenção militar, em 2018, sob o comando deste inclassificável Braga Netto, quando atingiu a cifra de 1.534 mortes, recorde só superado no ano seguinte, sob os auspícios de AuschWitzel. Entrementes, só se expandiram os territórios controlados pelos grupos paramilitares (“milícias”), que já são a maior facção da região metropolitana. Ao que parece, as experiências acumuladas no Haiti, e depois na época dos megaeventos, durante as ocupações dos complexos do Alemão e da Maré, para vergonha eterna dos governos ditos de esquerda e seus aliados – Sérgio Cabral, Eike Batista e outros então notáveis já tragados pelo lixo da história - parecem ser o ideário de Brasil dos generais golpistas. Um país em que há mais mortos do que vivos; e mais gados no pasto do que mortos.

Em meio ao turbilhão, surge uma imagem à primeira vista desconexa. A câmera filma a linha do trem, do alto; policiais avançam nas suas margens, em posição de combate; sobre os trilhos, talvez sem perceber a cilada em que está metido, um homem de barba e cabelos espessos, as roupas puídas, caminha. Ao redor, balas comendo. Os policiais parecem não perceber ou não se importar com a sua presença, e ele parece não perceber ou se importar com a presença dos policiais. Não saberá que está como que diante do diabo na encruzilhada? Depois, a imagem se interrompe. Impossível evitar a interrogação, cogitar se o anônimo ainda respira – esperamos que sim! – ou terá se tornado mais um dentre tantos Amarildos. Talvez, para ele, tudo não passe de rotina. Algo com o qual já não nos importamos, por estarmos acostumados.

Ainda sob a presença das tropas, moradores protestaram em algumas vias. Só o valor e a coragem - um valor e uma coragem desesperados -, desconhecidos dos algozes, podem dar forças a esta gente num momento tão crítico. Ficamos sabendo que na favela mais negra do Rio de Janeiro, antigo reduto industrial, não há só morte. Há também vida, luta, futuro. Há enfim um Brasil com raízes sólidas, profundas, que aguarda. Logo, ele dirá a que veio, e não falamos do carnaval. 

Leia também: RJ: Operação de guerra da Polícia deixa 25 mortos na favela do Jacarezinho

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