Editorial semanal – O Norte da luta popular

Faixa deixada antes dos camponeses do Acampamento Manoel Ribeiro realizarem a retirada silenciosa. Foto: Banco de dados AND

A perseguição implacável, o cerco, as prisões, torturas e assassinatos contra os camponeses do Acampamento Manoel Ribeiro não têm quebrado a resistência das massas em luta. Muito pelo contrário, esta resistência heroica tem não apenas vencido o cerco militar – impedindo o massacre desejado pela reação – como gerado ampla solidariedade nacional e internacional, com proporções inéditas até aqui, como fica claro no Abaixo-Assinado em curso redigido pelo Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo) e Associação Brasileira de Advogados do Povo (Abrapo). Noutras palavras, a mobilização independente das massas populares, em defesa dos seus interesses concretos, afirma-se através deste exemplo contundente como a única via consequente para dar combate ao governo militar genocida de Bolsonaro/generais, como temos dito sempre em nossos editoriais.

O agravamento da pandemia não pode ser motivo para a desmobilização da luta popular. Ora, é justamente esta situação calamitosa que exige a atuação firme de sindicatos, associações, organizações comunitárias, movimentos populares, das universidades, intelectuais e todos aqueles que têm compromisso verdadeiro com a sorte do nosso país. O que se passa, agora mesmo, na Colômbia, serve como exemplo e, ao mesmo tempo, advertência: o rastilho de pólvora que tem atravessado a América do Sul, em particular desde 2019, não deixará de chegar ao Brasil.

Os que propõem a via da espera e das frentes institucionais servem, de fato, à reação. De um lado, são a frustração e o rancor com as promessas não cumpridas da Nova República que explicam a adesão de uma parcela ainda considerável da população a Bolsonaro. De outro lado, a covardia da oposição parlamentar ao governo, expressa na CPI, que até agora tem mais servido a mobilizar as bases do Genocida do que encorajado a população a se manifestar contra ele. O depoimento de Pazuello foi notável neste sentido. Réu confesso, o Carniceiro mentiu à vontade, e foi tratado com deferência por “Suas Excelências”, que se ajoelharam perante a exigência do Alto Comando do Exército (apenas ratificada pelo ministro do Supremo, Lewandowski) de que seu homem não fosse nem preso nem desmoralizado. Três dias depois, o mesmo discursou sem máscara para um aglomerado verde-amarelo, em ato golpista no Rio de Janeiro. Esta é a “consequência” da direita tradicional liberal, cuja natureza de classe tem sido sempre trair. Colhem, com isto, a desmoralização completa.

Enganam-se os que pensam que os clamores da extrema-direita a uma “ruptura institucional” não encontram ecos na sociedade. Vivemos um equilíbrio instável: Bolsonaro, o Genocida, não tem forças para desfechar o golpe de Estado, mas a oposição parlamentar tampouco as tem para derrubá-lo. Trata-se de situação por evidente transitória, frágil, cuja conclusão ainda não está decidida. A potencial entrada em cena do protesto popular poderá ser o fator que rompa este equilíbrio. Não está descartada a possibilidade de Bolsonaro, neste caso, usar a mobilização para precipitar uma quartelada, jogando massas contra massas. Por isso, é preciso desatar desde já, e por todos os meios, a mais ampla campanha de agitação, propaganda e atuação entre os milhões de desempregados e famintos, convocá-los com energia a lutar por terra, por teto, por comida, por vacina. Esta será a única força capaz de deter o avanço do golpe militar em marcha, ou resistir a ele caso tome a forma aberta. A história do século XX, em particular na América do Sul, atesta que os “dispositivos militares”, os “oficiais legalistas”, os “acordos de lideranças” etc., não podem barrar o fascismo. Esta foi a experiência amarga de nossos países, como no Brasil de Jango ou no Chile de Allende, expressão máxima do reformismo e da “via pacífica para o socialismo” naquele momento. Seu desfecho trágico foi o Palácio La Moneda bombardeado, após a reação estar segura de que as massas haviam sido desarmadas, bélica e ideologicamente. Repetir este caminho, hoje, seria mais do que um erro: seria um crime.

Por isso, o povo brasileiro deve acompanhar, defender e propagandear a heroica luta camponesa no estado de Rondônia, que agita a bandeira vermelha da Revolução Agrária contra a ação conjunta dos governos estadual e federal e todo o seu aparato de espionagem e morte. A defesa da Liga dos Camponeses Pobres, e do Acampamento Manoel Ribeiro em particular, é a tarefa prioritária de todos os democratas consequentes do Brasil. Ali se expressa uma decisão firme que não negocia nem se curva às chantagens e agressões. E ante ao novo plano sanguinário do governador Marcos Rocha, com o reforço de forças federais enviadas pelo genocida Bolsonaro, contra os acampados e em causa dos latifundiários, movendo sua parafernália de guerra e fechando o cerco com centenas de tropas, por unanimidade da sua Assembleia Popular, as centenas de camponeses, sob direção da LCP, operaram a retirada silenciosa na noite, passando incólume sob as barbas dos serviços de “inteligência” e comandos especiais à espera da ordem para o assalto, desaparecendo na escuridão. O assalto ao acampamento terminou na insólita e patética cena de guerra: a avalentoada soldadesca, armada até os dentes, defronte a um impávido e hasteado trapo com as inscrições “Voltaremos mais fortes e mais preparados!”

A resistência camponesa na Amazônia é, de fato, nestes dias, o Norte da luta de todo o povo brasileiro.

Faixa deixada antes dos camponeses do Acampamento Manoel Ribeiro realizarem a retirada silenciosa. Foto: Reprodução

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