RO: Camponeses furam cerco militar, se retiram e declaram: 'Voltaremos mais fortes!'

Camponeses do Acampamento Manoel Ribeiro resistem bravamente frente ao covarde cerco ilegal. Foto: Banco de dados AND

Centenas de famílias camponesas do Acampamento Manoel Ribeiro (Chupinguaia, RO, antiga fazenda Santa Elina), que se encontraram sob enorme cerco militar e acompanhados de perto pelo serviço de inteligência de várias forças policiais e federais, realizaram uma façanha: furaram o cerco pela madrugada, bateram em retirada frustrando o plano reacionário de massacrá-los e deixaram uma faixa que dizia Voltaremos mais fortes e mais preparados! Assim declarou a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), que organiza as famílias. A retirada organizada e planificada do Acampamento foi decidida unanimemente pela Assembleia Popular.

O Acampamento foi montado em agosto de 2020 nas últimas terras restantes nas mãos dos latifundiários do que foi outrora a fazenda Santa Elina (hoje Nossa Senhora da Aparecida), onde em 1995 houve a Heroica Resistência Armada Camponesa de Santa Elina.

A retirada silenciosa das mais de 200 famílias camponesas, certamente deixou atônito os reacionários que ansiavam por um massacre. As forças policiais, no dia seguinte, executaram o assalto ao Acampamento, encontrando ali um território vazio e a mensagem altiva dos camponeses.

O pronunciamento no qual as famílias revelam o seu feito foi assinado pela Assembleia Popular do Acampamento Manoel Ribeiro, seu Comitê de Defesa da Revolução Agrária (CDRA), pela Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia e Amazônia Ocidental (LCP) e pela Comissão Nacional das LCPs do Brasil, e nele abordam todos os fatos que levaram ao desenvolvimento da grandiosa resistência empreendida durante estes quase dez meses.

Segundo a LCP, a decisão foi tomada para evitar um novo massacre e o acampamento segue com sua estrutura de organização e mobilização em pleno funcionamento: a Assembleia Popular, o CDRA e todas as Comissões de Trabalho. A promessa dos camponeses é voltar com mais força e organização.

Voltaremos mais fortes e mais preparados!, diz faixa estendida no Acampamento. Foto: Banco de dados AND

A coragem e resistência diante dos ataques

O pronunciamento menciona que havia disposição e coragem para enfrentarem a pistolagem e o velho Estado à serviço do latifúndio grileiro de terras públicas. A prova disto foram todas as ações contínuas de resistência empreendidas frente aos mais sujos ataques que ocorriam desde a entrada das famílias na área.

Esses ataques, que começaram com os bandos armados do latifúndio, passaram a ser protagonizados pela própria Polícia Militar (sob ordens do coronel PM Marcos Rocha, atual governador de Rondônia) depois das prisões de alguns guaxebas. Estes atuaram durante todo o tempo como segurança particulares na fazenda Nossa Senhora Aparecida, perpetuando um cerco ilegal e criminoso com recursos públicos contra o próprio povo em plena pandemia. Dentre os ataques, a LCP relata a verdadeira operação de guerra montada por meses, que envolveu diversas tentativas de invasões, torturas e outros crimes denunciados pelos acampados, todos repelidos pelas famílias ali presentes. 

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A LCP descreve também o aumento dos ataques contra o acampamento após declarações feitas por Bolsonaro contra o movimento camponês e a luta pela terra. A criminalização criada para justificar a repressão precedia o cenário que preparavam os reacionários para enfim concretizar um novo massacre nas terras de Santa Elina (Corumbiara). 

As prisões dos camponeses

Uma importante denúncia é feita no pronunciamento, quanto à prisão dos quatro jovens camponeses. O texto relata que no decorrer da escalada de ataques e perseguições ocorreram as prisões dos trabalhadores. “Para fazer a prisão, os policiais cortaram os arames da cerca e lançaram as viaturas em perseguição dos companheiros e companheiras até atropelar alguns e prenderem os quatro”, diz o texto. Seguem afirmando: “Depois contaram a mentira de que a polícia foi emboscada (como isso é possível num pasto, em campo aberto?) e que os acampados teriam feito disparos contra a polícia. Mentirosos como sempre!”, afirma, confirmando que as provas apresentadas para as prisões foram forjadas.

A decisão

Ao perceberem que o fascista e genocida dava carta branca ao latifúndio que tinha a seu serviço centenas de tropas “sedentas de sangue dos pobres que levantam a cabeça e as encaram com decisão e coragem”, e pelas condições desfavoráveis, as famílias avaliaram, através da Assembleia Popular, a situação e mesmo com coragem e disposição de “enfrentar situação tão extrema e fazer esses criminosos pagarem caro e na mesma moeda”, decidiram se retirar de forma organizada para voltarem posteriormente com milhares para levar ao fim o latifúndio.

A decisão, de acordo com a LCP, foi tomada uma vez que estes compreenderam que cumpriram uma “jornada vitoriosa para a Revolução Agrária, que tanto forjou a todos do Manoel Ribeiro, contando ainda com tanto apoio de nosso povo por todo o país e de companheiros e companheiras de todo o mundo”. Afirmam ainda: “Agradecidos, saudamos calorosamente [o apoio] com a promessa de seguir firmes no combate e voltar em milhares e preparados para varrer os latifúndios da região”.

A exitosa saída e o fracasso dos inimigos

A organização dos camponeses relata ainda que os aparatos e ataques serviram para preparar os que resistiram. Assim, debaixo dos olhos dos inimigos e todo o aparato de guerra preparado para realizar um novo massacre, ocorreu a retirada de todas as famílias, o que eles encontraram ao invadirem o acampamento foi o retumbante recado: “Voltaremos mais fortes e mais preparados!”.

Tal situação revelou-se vergonhosa para as tropas, descritas pela LCP como “tropas de abestados comandados por energúmenos, estrategistas de massacres de gente pobre desarmada” e seus mandatários, como os latifundiários, Bolsonaro, Marcos Rocha e outros, que fizeram questão de não alardear a situação que iria expor o quanto havia sido fracassada a sua tentativa de carnificina.

Os camponeses seguem de cabeça erguida e convictos da vitória, segundo o pronunciamento. Afirmam que esta jornada foi só uma das muitas batalhas pela conquista da terra e que com a certeza que a causa é justa e que é justo se rebelar voltarão.

As lições aprendidas

O movimento declara que as terras do acampamento Manoel Ribeiro já foram cortadas em pequenos lotes para serem distribuídas para as famílias e o sorteio dos lotes já ocorreu.

As famílias relatam que na vida diária do Acampamento aprenderam a elevar muito mais a organização e disciplina de trabalhadores, a resolver problemas e fazer tudo coletivamente com as próprias mãos. 

Descrevendo como era a vida no acampamento, eles relatam que no Manoel Ribeiro as massas decidem tudo coletivamente com discussões, estudos e decisões por votação sobre todos os assuntos tomadas pela vontade da maioria através da Assembleia Popular e aplicadas por seu órgão dirigente, o CDRA, eleito diretamente pelas massas com delegações e mandatos revogáveis no momento que a Assembleia Popular decida, garantindo assim que aqueles com função de direção se mantenham sempre fiéis à aplicação da vontade da maioria. 

Na nota, os camponeses afirmam que todos na área têm direitos e deveres em condições de igualdade para todos e todas. No que diz respeito às mulheres, afirmam que estas elevaram sua participação em todos os níveis de responsabilidades, de base à direção e em todos os assuntos. E relatam que através do Movimento Feminino Popular (MFP) puderam provar seu valor e conquistar reconhecimento de combate e educação, contra a opressão feminina. As crianças do Acampamento tiveram nestes meses amparo da infância, escola e atividades esportivas e recreativas. 

Crianças alertam sobre as condições sanitárias para entrada no Acampamento. Foto: Banco de dados AND

Comissões de trabalho, segundo o relato, foram formadas para todo tipo de tarefa, desde problemas de logística, produção, abastecimento, saúde, educação e atividades culturais, celebrações das datas históricas da luta popular do povo brasileiro e de todo o mundo, dos nossos heróis e heroínas, segurança e defesa, etc. O controle da prevenção sanitária da pandemia e demais cuidados dentro do acampamento em relação à saúde também foi concretizado em todo período.

Os camponeses afirmam que “a organização do povo é muito superior, e é a forma necessária para que a força popular hoje ainda dispersa e desorganizada se converta em potente força organizada e através da sua expansão e multiplicação realizar as transformações que o país precisa”.

O cumprimento das promessas 

No pronunciamento a LCP afirma que não luta só pela terra, mas também por justiça, pelo poder de Nova Democracia e um Brasil Novo para “nossos filhos e netos”. E declara: “a Liga não consegue terra e nem nada para o povo não, a Liga é o povo camponês organizado na luta combativa e independente contra a opressão e exploração imposta pelos parasitas da Nação”. O movimento demarca que quem consegue a terra são as massas organizadas na luta consciente, dispostas a empregar todos os meios necessários para conquistá-la. “Só as massas têm força para remover todos obstáculos de seu caminho e para transformar a sociedade”, afirma.

Diante disso, as organizações que assinam declaram que a batalha pela conquista completa das terras de Santa Elina ainda não terminou e relembram que após os episódios da Resistência Camponesa Armada em Corumbiara em 1995, juraram retomar as terras e travaram lutas por todos os anos que se seguiram para cumprir este compromisso. 

“Nos retiramos agora para voltarmos mais fortes e nunca mais sair. Essas terras reclamadas pelo sangue indígena e camponês sobre elas derramado, sangue que corre em nossas veias, serão retomadas e entregues às famílias de direito e de fato. Quem viver, verá!”, afirma o movimento.

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