A cegueira nervosa do monopólio de imprensa nos protestos em 29 de maio

Avenida Paulista tomada por manifestantes durante o ato do dia 29 de maio. Foto: Mídia Ninja

À despeito de toda significância dos protestos de 29M, seja em termos objetivos ou subjetivos, quem tomou os conglomerados de imprensa como referência poderia até imaginar que fosse um sábado vazio de fatos. Não é surpreendente que se tenha de usar desta tribuna para afirmar que, sim, de fato houveram atos oxigenantes nas ruas; mas a forma patética e cínica com que o silêncio do monopólio se deu dessa vez nos demanda algum comentário.

O silêncio

Dos grandes monopólios e conglomerados, Somente a Folha de SP deu destaque às manifestações na capa de sua edição impressa, enfatizando que “(...) em plena pandemia da COVID-19, houve aglomerações”. Em jornais como Extra, Estado de São Paulo, Estado de Minas, Correio Brasiliense e O Globo os atos foram cedidos a espaços minúsculos da capa a despeito de matérias menos urgentes e mesmo irrelevantes, sendo motivo de escárnio nas redes sociais. Na TV, a Record escolheu noticiar as manifestações como “a favor da prorrogação do auxílio emergencial” enquanto a Globo deu o mínimo destaque possível no dia 29 e 30, somente cobrindo de maneira compreensiva na segunda-feira, seja pela pressão, seja para deixar sua marca na disputa política.

Lembra o poema “Aos que virão depois de nós”, onde Brecht escreve “Que tempos são esses, quando falar sobre flores é quase um crime pois significa silenciar sobre tanta injustiça?”. Permanece o diagnóstico de crime, apesar de não se tratarem de flores, mas de “notícias” sobre home office e “reaquecimento do PIB”.

Os interesses

O objetivo do monopólio de imprensa brasileiro tem sido, hoje mais intensamente que no início do governo, polarizar com a figura caricata de Bolsonaro e isentar o máximo possível o Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) e criaturas pontuais como Paulo Guedes, representante da fração compradora da grande burguesia. À despeito das contradições óbvias dentro de toda a reação no poder, as descobertas do envolvimento da ACFA e de Pazuello com a gestão carniceira da pandemia unifica todo o governo frente às massas - que cada vez mais abandonam a posição de “Fora Bolsonaro”, ainda que espontaneamente, para demarcações mais amplas.

Sabemos que quando é de interesse da imprensa marrom ela divulga e até promove manifestações. Seu silêncio não é de apoio tácito a Bolsonaro, simplesmente, mas de autopreservação apavorada frente ao acirramento de todas essas contradições e a impossibilidade de dissociar a crítica ao fascista da crítica aos generais e ao golpe militar contrarrevolucionário em curso. A pauta da direita civil de “desgaste de Bolsonaro” torna-se cada vez mais perigosa e incontrolável, pois a linha de demarcação entre Bolsonaro e os generais “legalistas” se enturvece e entre as massas mais profundas já inexiste.

A estranheza que causa a CPI em curso vem justamente do fato de que os senadores tentam desesperadamente isolar a culpa nos bodes expiatórios de Bolsonaro e Pazuello, além de alguns canalhas irrelevantes, enquanto pedem bênção cabisbaixa ao ACFA sempre que possível. O desenvolvimento da CPI, assim como as manobras escusas do ACFA com relação a Pazuello mostram que é impossível desgastar Bolsonaro sozinho, tudo aponta a um buraco muito mais fundo. A entrada da força das ruas na equação é um elemento que põe essa tentativa de gestão parlamentar da crise em cheque e é por essa razão que a imprensa monopolista, sua subordinada, evita dar um caráter de complementaridade entre a CPI e as manifestações - seja tratando as duas como eventos isolados, seja evitando traçar uma linha que indique qual é a principal.

Sobre quem não tem rabo preso

O oportunismo, mais desavergonhadamente refém da direita civil, defende as manifestações como uma espécie de acúmulo parlamentar e eleitoreiro. A cegueira nervosa do monopólio de imprensa, por outro lado, mostra o quanto são imprestáveis mesmo para expressar as reivindicações básicas das ruas, o que rompe as ilusões pequeno-burguesas de que as “massas nas ruas podem pautar a opinião pública da grande mídia” ou coisa que o valha.

Quem ocupou o papel de expôr e impulsionar as reivindicações foi, de maneira inequívoca, a imprensa popular e democrática, a única que representa os anseios do povo e sua luta pela revolução democrática. Cumpre, como sempre cumpriu a chamada à rebelião e papel de veículo para as demandas populares; mas nesse caso se evidencia claramente a contraposição simplesmente por ter mostrado que houveram atos, por dar a eles o destaque merecido, por não ter se curvado perante qualquer chantagem. Que seja dito em alto e bom som que o que foi feito pelo monopólio de imprensa no dia 29 foi uma forma velada de censura; da forma cínica que é permitida pelo regime demoliberal burguês, favorecendo à “liberdade de imprensa” à despeito da liberdade de informação; o que só tem como remédio o impulsionamento vivaz da imprensa popular e democrática! 

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

Nunca recebemos um centavo de bancos ou partidos eleitoreiros. Todo nosso financiamento sempre partiu do apoio de nossos leitores, colaboradores e entusiastas da imprensa popular e democrática. Nesse contexto em que as lutas populares tendem a tomar novas proporções é mais do que nunca necessário e decisivo o seu apoio.

Se você acredita na Revolução Brasileira, apoie a imprensa que a ela serve - Clique Aqui

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de Apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
todo sábado, às 9h30

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda (licenciado)
Victor Costa Bellizia (provisório)

Editor-chefe 
Victor Costa Bellizia

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão 
Henrique Júdice
Matheus Magioli Cossa
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação
Ana Lúcia Nunes
João Alves
Taís Souza
Gabriel Artur
Giovanna Maria
Victor Benjamin

Ilustração
Victor Benjamin