Editorial semanal - Fio da navalha

Foto: Waldemir Barreto

A prevaricação covarde do sr. Paulo Sergio Nogueira, Comandante do Exército, que livrou Pazuello – o Carniceiro – da punição por ter participado de ato político-partidário ao lado de Bolsonaro (o que é explicitamente vedado no Regulamento daquela força) foi mais um episódio da crise militar que se instalou com a chegada do ex-capitão à presidência. Esta decisão não ocorreu devido à adesão do Alto Comando das Forças Armadas a Bolsonaro, como dizem observadores superficiais. Trata-se de manobra desesperada, a fim de manter a coesão na tropa, ameaçada de divisão pela agitação agressiva da extrema-direita. Sentados em cima de uma bomba, os generais golpistas insistem na velha política do apaziguamento, que resultou no triunfo das forças mais reacionárias em todos os lugares em que foi aplicada. Os fascistas alimentam-se de sangue, e quanto mais têm, mais querem. Esta é uma cláusula pétrea do processo histórico.

Os analistas burgueses, coadjuvados pelos oportunistas pequeno-burgueses, não querem saber de luta popular. Reclamam a contenção dos quartéis, enquanto desmobilizam as massas. Neste meio, empesteado de um liberalismo cego, o mantra que predomina é exigir que os militares “não se envolvam com política”. Trata-se de formulação tão séria como a que nos fala de uma “ala ideológica do governo”, como se os tecnocratas reacionários das outras “alas” – a de Paulo Guedes, por exemplo - não agissem também de acordo com seus interesses e ideologia. Ora, os militares jamais deixaram de intervir na vida política do País, e sempre ensinaram sua própria versão da história aos soldados e oficiais que ingressam nas forças. Na caserna, para citar um único exemplo eloquente, o golpe militar de 1964 foi um movimento “democrático”, e a juventude e trabalhadores que se insurgiram contra os criminosos verde-oliva não passavam de “arruaceiros” ou “terroristas”. Os senhores generais mantêm em sigilo os arquivos das atrocidades que cometeram – há, até hoje, sigilo sobre relatórios da Guerra do Paraguai! - e impediram qualquer punição aos crimes de lesa-humanidade perpetrados nos porões dos quartéis, com base na Lei de Anistia que o próprio regime militar redigiu e fez aprovar. Isto, por acaso, não é “fazer política”?

O fato concreto é que a decisão de Paulo Sergio produzirá um efeito em cascata ainda não de todo previsível. De um lado, estimula a atuação aberta dos agitadores golpistas nas Forças Armadas reacionárias e polícias militares. Estas, já respondem a uma espécie de “comando paralelo bolsonarista”, como restou demonstrado na repressão brutal à manifestação em Pernambuco. Ali, como já se sabe, foi o comandante geral quem ordenou o covarde ataque, e cinicamente, ao pedir demissão, disse que tais atos não coadunavam com a história “quase bicentenária da corporação”. Cinismo tal como a declaração cometida pelo governador de não saber de quem partiu a ordem. De outro, explicita que Bolsonaro tem conseguido penetrar fundo na caserna, tornando delicada qualquer punição a elementos identificados com ele. Se não houvesse tal penetração, Pazuello seria punido, e ponto final, como ocorreu outrora com o próprio Mourão, quando achincalhou a então Presidente Dilma. Bolsonaro despreza as eleições e os partidos, porque a sua estratégia pressupõe a supressão das liberdades democráticas e a conversão do Exército em seu partido político. Neste sentido, para ele, o episódio Pazuello foi inequívoco passo à frente. Sinaliza para os seus que avancem. Mas se ilude quem pensa que os militares sentados no primeiro escalão são seguidores de Bolsonaro. O axioma dos generais golpistas do Alto Comando é de que com Bolsonaro é muito ruim para o país, mas atacá-lo frontalmente é muito pior.

Com Bolsonaro, marcha a escória de todas as classes sociais. Ele é, mesmo, o chefe do lumpesinato. O escândalo que veio à tona envolvendo a CBF, com os áudios estarrecedores do presidente daquela entidade assediando uma funcionária, dá o tom do que se passa naquele meio, tanto quanto os depoimentos de figuras deploráveis na CPI, como a “Capitã Cloroquina”, Nise Yamaguchi e o figurante Flávio Bolsonaro, vulgo Rachadinha, que parece estar lá mais para policiar os seus do que para defender o governo. A realização da Copa América, em meio aos cadáveres, é ao mesmo tempo provocação e escárnio. Na base da sociedade, multiplicam-se os espancamentos, abusos de autoridade e prisões ilegais cometidos por policiais contra qualquer manifestação oposicionista e mesmo execuções sumárias de jovens pobres, principalmente negros, pela simples razão de serem suspeitos de terem cometido algum crime. A coação física, como elemento de luta política, típica do fascismo, está presente na ação destas hordas e tende a se multiplicar.

Contra esta ofensiva reacionária, só há um antídoto: responder sempre, e em toda parte, medida por medida. A direita civil (representantes da burguesia liberal) e a direita militar (hegemônica no Alto Comando das FA’s), respaldada pelos oportunistas, aposta tudo nas eleições, via morta para transformações genuínas em tempos de paz, ainda mais inviável quando as contradições de classe estão na iminência de se converter em guerra civil. Eleições estas que podem não ocorrer pela intervenção militar justificada mediante situação de desordem criada por provocação fascista das falanges bolsonaristas frente a iminência de derrota eleitoral de seu chefe. Neste cenário, a tática da espera não é apenas um erro, mas um crime.

Temos visto a heroica resistência camponesa pelo direito a terra, como a que tem sacudido as máfias latifundiária e seu governo em Rondônia, bem como vimos no dia 29 de maio a força potencial de nosso povo nas cidades. É preciso persistir na mobilização da luta pela terra e na convocação dos protestos, exigindo de sindicatos e associações que abandonem o caminho do imobilismo. São as massas, e não as notas, que fazem a história. A sua entrada em cena é o fator decisivo, e mesmo único, para romper o impasse a favor das forças democráticas e progressistas. O resto, é cloroquina.

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