Editorial semanal - Com a palavra, as ruas

O dever de todos os democratas e revolucionários consequentes é brigar sem descanso para manter as massas ativas e mobilizadas, a começar, na luta em defesa de vacina, socorro aos desempregados, comida, emprego, teto e terra aos camponeses. Foto: Banco de Dados AND

Este jornal tem dito, desde sempre, que a única via capaz de impedir a catástrofe que nos ameaça, com a escalada da pandemia e da marcha golpista, é a mobilização popular. A velha aposta nos “acordos de cúpula” para combater o fascismo resultou sempre em fracassos onde quer que tenha sido aplicada. Os burgueses liberais, ditos de oposição, têm no mínimo tanto medo da extrema-direita quanto das massas trabalhadoras. Seu sonho de “democracia” é depurar o Estado das bravatas de Bolsonaro, mantendo a política sanguinária de Paulo Guedes. Portanto, apenas a luta consequente de todos os oprimidos poderá dar um basta ao descalabro que nos assola.

A vida nos deu razão. A resistência heroica dos camponeses no Acampamento Manoel Ribeiro derrotando as provocações combinadas dos governos federal e estadual, de um lado, e a enorme manifestação de rua do último dia 29 de maio, de outro, alteraram de modo significativo o ambiente político nacional. De fato, o governo militar genocida de Bolsonaro foi exposto em praça pública como inimigo maior da Nação, um tigre de papel que ruge e ameaça na proporção inversa de sua força real. As massas, encorajadas, rompendo a camisa-de-força das direções imobilistas, sinalizaram de modo contundente que não aceitam transigir com os facínoras. A extrema-direita vê-se obrigada a acelerar a preparação golpista, com medo de ver o seu chefe derreter politicamente, enquanto a oposição burguesa (incluindo os monopólios de imprensa) passa da posição de censura aos protestos a um apoio tímido à sua realização. De fato, após a decisão de Paulo Sergio, comandante do Exército, isentando Pazuello de punição, até aqueles de contumaz cegueira política são obrigados a reconhecer a gravidade da situação e o golpe em marcha, como temos dito desde 2017. Em suma, foi a entrada em cena do protesto popular, e não a CPI, o que remexeu toda a situação, obrigando as forças políticas a se reposicionarem e agirem abertamente.

O fiasco da moto-passeata-pandêmica patrocinada por Bolsonaro no último dia 12 de junho é indicativo seguro de que caminhamos para momentos decisivos. Perdido o “monopólio das ruas”, fica cada vez mais insustentável para o capitão falastrão defender a tese de que é um líder popular, messiânico etc. Enquanto tinha como adversária apenas a oposição parlamentar, a facção Bolsonaro nadou de braçada, como se diz, mantendo a ofensiva e ditando a pauta das discussões, enfrentando adversários que só faziam choramingar contra a sua truculência. Agora, quando se lhe apresenta a batalha das ruas, vê-se em maus lençóis. A escória que marcha clamando golpe, por mais barulhenta que seja, não passa de uma minoria. Isso ficou claro no dia 29 de maio, mais claro ainda no último dia 12 e será confirmado de modo acachapante no próximo dia 19 de junho. As massas rechaçam os golpistas, e querem uma direção firme que as convoque para combatê-los.

É necessário aprofundar esta brecha aberta e exigir de todos os sindicatos, associações, movimentos, centros acadêmicos e todas as organizações populares, enfim e principalmente de todas as organizações políticas que se definem como esquerda revolucionária, mas de fato e não de retórica, que convoquem ativamente os protestos. Ante a iminência de uma derrota eleitoral, ou mesmo de uma eventual abertura de processo de impeachment, Bolsonaro não hesitará em lançar mão da sua base nas Forças Armadas e polícias para causar distúrbios e atiçar um ambiente que lhe permita justificar o golpe e seu regime militar fascista. À medida em que fique claro seu caráter minoritário, o genocida tornar-se-á mais agressivo, e não menos. Por isso, a linha de desmobilização e passividade serve, de fato, à extrema-direita.

É preciso abandonar, de uma vez por todas, a podre ilusão recorrente nos momentos de grave crise política em nossa histórica, a de que os altos mandos militares, ante ameaça de divisão da Força, se unifiquem numa posição que não seja a mais retrógrada e reacionária. Nossa história contemporânea só comprova o acobertamento e o apaziguamento dos altos mandos de dita corporação com as barbáries da extrema-direita por vísceras suas serem. Se Bolsonaro logra arrastar as Forças Armadas, os generais seguirão com ele no regime fascista; se Bolsonaro fracassar, os altos mandos se servirão da sua arruaça para implementar regime não menos pior, sob as graças de uma constituição esquartejada. Afinal, a diferença entre eles não é de natureza, só de matiz. Portanto, já de muito esse fenômeno deixou de ser mera ilusão para ser um crime covarde.

O dever de todos os democratas e revolucionários consequentes é brigar sem descanso para manter as massas ativas e mobilizadas, a começar, na luta em defesa de vacina, socorro aos desempregados, comida, emprego, teto e terra aos camponeses. Essas são as tarefas urgentes e inadiáveis.

Manifestação ocorrida em 29 de maio, em São Paulo. Foto: Reprodução/Miguel Schincariol

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