Editorial semanal – A importância e o limite das manifestações

O País assistiu, no último sábado, dia 19 de junho, as maiores manifestações de ruas dos últimos anos. Em todas as capitais, em diversas outras cidades e no exterior, centenas de milhares de pessoas protestaram contra o governo militar genocida de Bolsonaro. Trata-se de fato de enorme relevância, a interferir na vida política nacional. O despertar do movimento de massas, que rompe a camisa-de-força das direções imobilistas, promete se ampliar à medida que cresça a proporção de vacinados e o retorno a uma normalidade piorada quanto à fome, à carestia e ao desemprego.

Por ora, são sobretudo os setores médios da sociedade, ao lado das categorias mais organizadas do proletariado, que se movem. A imensa maioria dos que se mobilizam é sem dúvida a parte mais ativa dos que, ano após ano crescentemente, vêm boicotando a farsa eleitoral e anseiam por um novo caminho. Isso não significa que, entre as camadas mais empobrecidas dos trabalhadores urbanos e do campesinato, seja menor o repúdio ao governo de turno. Ocorre que, aí, é tão dramática a luta pela sobrevivência que resta pouco tempo e interesse para o embate político em defesa das genéricas liberdades democráticas, que jamais passaram de uma miragem para estas parcelas da população, seguidamente arrastadas para a ilusão da farsa eleitoral tanto pelo liberalismo quanto pela falsa esquerda oportunista eleitoreira. Sem apoiar e ampliar a incansável e cruenta luta dos camponeses pela terra e sem acrescer as pautas de repúdio ao governo Bolsonaro à defesa bastante concreta dos interesses materiais destes deserdados da terra, será difícil envolvê-los nas mobilizações e pender favoravelmente a balança para o lado das massas.

Ocorre que, às direções burguesas, não interessa tal ampliação. Os monopólios de imprensa, que censuraram de modo desavergonhado as manifestações de 29 de maio, deram um giro, e buscaram ressaltar e pautar as do último sábado. Esta gente, secundada pelos seus acólitos socialistas pequeno-burgueses, quer fazer do movimento de massas um mero apêndice do arremedo de democracia liberal, cada vez mais fragilizado, que aqui existe. Recusam-se a estender a crítica ao fascismo de Bolsonaro à crítica radical da ordem econômica latifundiária-burguesa, pró-imperialista, que ele encarna e defende. E isto tem razão de ser: à direita tradicional, os interesses econômicos que defendem são rigorosamente os mesmos, em essência, dos defendidos por Bolsonaro; enquanto que os oportunistas da falsa esquerda eleitoreira são demasiado acomodados para enxergar que os institutos e procedimentos constitucionais, nos quais depositam toda a esperança para deter a ofensiva contrarrevolucionária preventiva em curso, já não operam com “normalidade”, pois se encontram conduzidos pelas frias pontas das baionetas. Em última instância, defendem seus próprios objetivos eleitoreiros, já natimortos.

Mas voltaremos àqueles primeiros, os que pintam-se por democratas liberais. Criticam a política ambiental de Bolsonaro, mas aplaudem a criminosa concentração de terras e a reprimarização da economia do País em favor do latifúndio, seja tradicional ou produtivo, responsável pela inflação crônica e fome de milhões de brasileiros. Dizem-se a favor do “Estado de Direito”, mas silenciam perante o genocídio praticado pelas forças policiais e paramilitares no campo e nas favelas. Condenam o darwinismo social bolsonarista na saúde pública, mas aplaudem este mesmo darwinismo social quanto às relações trabalhistas e previdenciárias, onde ocorre a vandalização desapiedada dos direitos mais elementares, em nome de um laissez-faire brutal que remonta ao século XIX. Esbravejam contra a natureza cartorial-burocrática do Estado brasileiro, mas não podem admitir que este é o correspondente e necessário guardião de sua velha ordem semicolonial/semifeudal de exploração e opressão e, menos ainda, que este só pode ser superado pela pendente e atrasada revolução democrática, por eles temida e secularmente sabotada.

Em parte, esta contradição da oposição liberal alimenta o próprio Bolsonaro, que explora de modo cínico o legítimo sentimento antissistema presente nos setores mais pobres da população, falando meias verdades sobre o papel nefasto das “sacrossantas instituições” e revelando a sua covardia e capitulação à tutela militar. Notem que, após a chacina do Jacarezinho, que afrontou de modo explícito determinação do STF (e escancarou as portas do inferno para outras ações semelhantes), a “Egrégia Corte” silenciou. Destas forças ditas liberais, burguesas reacionárias, portanto, não há que se esperar outra coisa senão a vacilação e a traição. Quem disser o contrário, estará apenas lançando areia nos olhos das massas, seja qual seja sua intenção.

Uma coisa é certa: há, nas entranhas da sociedade brasileira, um vasto material inflamável acumulado, mas ainda amontoado à margem. Estes milhões, lançados às raias do pauperismo, são como uma reserva de forças frescas, capazes de decidir o embate político no momento decisivo. Da capacidade de atraí-los para o torvelinho histórico depende o futuro do País. Não está resolvido de antemão ao lado de quais forças estas massas perfilarão: a história prova que elas poderão ser tanto a tropa de choque do golpismo como da luta popular revolucionária. Comprova também que só pela via revolucionária, dura e prolongada poderão se libertar da condição de massas de manobra e exercer sua descomunal força transformadora. Nos últimos 70 anos de nossa história elas foram arrastadas, primeiro pelo populismo corporativista, em segundo pelo ufanismo patrioteiro do fascista regime militar de 64, em terceiro pelo “neoliberalismo” social-democrata, em quarto pelo neopopulismo da falsa esquerda oportunista e por último pela reação obscurantista. Todos eles, em maior ou menor grau, regimes antioperário e vende pátria.. Trata-se de uma questão decisiva.

Portanto, por mais importantes que sejam as manifestações de massas, como um componente fundamental para a educação política dos trabalhadores, elas não podem sozinhas deter o golpe posto em marcha pelo Alto Comando das Forças Armadas com uma ofensiva contrarrevolucionária preventiva, desde as massivas e violentas rebeliões de 2013. O golpe, espera vencer pela força, e é em última instância pela força que será derrotado. Na verdade, as grandes rupturas históricas são, de modo geral, precedidas por um período de intensa mobilização e democratismo, quando nenhuma das forças em disputa arrisca-se a dar o próximo passo, até que a ação consciente ou mesmo um acontecimento fortuito venha romper o equilíbrio, demolindo com incrível velocidade e violência o estágio anterior.

Saudamos, desde esta tribuna, as massas jovens de estudantes e trabalhadores que saíram às ruas, e insistimos que é preciso persistir na mobilização e convocação dos oprimidos. Nada ainda se decidiu. Na verdade, está apenas começando.

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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