Mazzaropi, um Jeca contra o latifúndio

Mazzaropi criou um dos personagens mais engraçados do humor brasileiro, o Jeca, e ele é, sem dúvida, o maior humorista do país, tendo produzido e interpretado muitos filmes que ainda hoje fazem a alegria do povo. E embora os filmes de Mazzaropi sejam de humor, um tema muito sério que recorrentemente aparece nas suas produções é a opressão dos camponeses pelo latifúndio, isto refletindo a própria contradição principal que existe em nosso país, expressa mais concentradamente entre camponeses pobres versus latifúndio.

Nos filmes de Mazzaropi, o Jeca - personagem caipira por ele interpretado - vive sob a opressão do latifúndio, pois geralmente habita nas terras de gananciosos coronéis ou em terras cobiçadas por eles, e este personagem aparece geralmente em situação de extrema miséria por conta dessa condição, em oposição à opulência dos ricos fazendeiros. Muitas vezes o Jeca e a família dele realizam serviços gratuitos em troca de moradia e de um pedaço de terra para plantarem, submetendo-se à relação do tipo servil. O que Mazzaropi retrata nas telas é o que é bastante comum no interior brasileiro, a semifeudalidade, que se manifesta pela vigência de relações atrasadas no campo, em particular sua superestrutura semifeudal (coronelismo) e as variadas formas de coerção extra-econômica.

Em filmes como o famoso Jeca Tatu, o conflito entre camponês e latifundiário é apresentado claramente. Arruinado e com dívidas no armazém, o Jeca se vê obrigado a ceder uma parte do seu sítio para o dono do armazém, que logo a repassa para um ambicioso latifundiário que quer expulsar o Jeca e sua família do local para aumentar sua propriedade. Por conta dessa rixa, o latifundiário queima o casebre da família do Jeca, que se vê obrigada a deixar o sítio. 

Em Tristeza do Jeca, o mesmo personagem se vê no meio de uma disputa política entre dois coronéis que estão em lados opostos na política da localidade. Como a filha do Jeca inicia um relacionamento com o filho de um dos coronéis, o coronel que é seu patrão acaba achando que o Jeca está apoiando o opositor e ameaça expulsar ele e a família de suas terras, raptando o filho do Jeca para obrigá-lo a conseguir votos para ele.

No filme Uma Pistola para Djeca, o personagem de Mazzaropi, Gumercindo, aparece em conflito contra um latifundiário cujo filho violentou sua filha. Dessa relação nasceu um menino que é desprezado por todos na cidade por não ter pai conhecido. Para resolver a situação, Djeca recebe uma pistola de uma amiga e usa-a para enfrentar o bando de capatazes do coronel. 

Em O Filho Preto do Jeca, o latifundiário comete estupro contra a esposa de um dos moradores de suas terras, uma negra, e o filho fruto dessa relação vai parar por acidente na família do Jeca, que toma o menino por seu filho legítimo.

Nestes filmes aparecem pelo menos três elementos que Nelson Werneck Sodré utiliza para afirmar a existência de um modo de produção feudal no Brasil, não codificado, que desenvolve-se em semifeudalidade: o laço de dependência entre patrão e empregado, a coerção extra-econômica e o pagamento em in natura na relação de trabalho, pois o Jeca vive de favor nas terras dos coronéis e lhes presta serviços gratuitos em troca de casa e comida. 

Como um profundo humanista, bebendo da influência de Charles Chaplin, Mazzaropi toma parte pelos oprimidos: em seus filmes, o camponês prova que, nessa condição, o camponês cultiva sentimentos democráticos e humanizadores, até por necessidade de sobrevivência, impondo grande e humilhante derrota moral ao latifundiário. Todavia há que notar que os elementos que aparecem na obra de Mazzaropi são parte de contradições históricas que se desenvolvem em nosso país. A resolução para elas necessita, sobretudo, de um conteúdo revolucionário expresso na defesa da liquidação definitiva do latifúndio e de sua opressão, distribuindo as terras para os camponeses pobres em pequenos lotes individuais de estrutura coletiva, num processo ininterrupto de elevação a graus gradualmente superiores de cooperação, até sua efetiva coletivização. Ainda assim, o reconhecimento da contradição e a tomada de posição pelo campesinato confirma uma perspectiva democrática profundamente esperançosa em Mazzaropi.

O ator Amácio Mazzaropi (1912 - 1981) foi um ator, humorista, cantor e cineasta brasileiro. Foto: Reprodução

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