O “Crime da Ulen” - quando um Kennedy morreu em São Luís

Foto de José de Ribamar Mendonça, trabalhador brasileiro que se revoltou contra a exploração feita pela empresa imperialista ianque, Ulen Company. Foto: Reprodução

Um interessante e pouco conhecido fato histórico. Em 30 de setembro de 1933, na Rua da Estrela, em São Luís do Maranhão, o bilheteiro de bondes José de Ribamar Mendonça matou com dois tiros um tal de John Harold Kennedy, suposto tio de John F. Kennedy [1], ex-presidente dos EUA; por motivo de honra pessoal e ódio de classe.

Natural da Baixada Maranhense, José trabalhava na empresa norte-americana Ulen Company, que detinha o monopólio de prestação de serviços em infraestrutura (água, esgoto, luz e transporte) e prensagem de algodão. José foi perversamente demitido poucos dias antes de completar dez anos de serviço, o que o asseguraria, de acordo com a legislação de então, estabilidade na empresa. Chegando no escritório ao fim da tarde, teve sua reivindicação de pagamento pelos últimos meses de trabalho recusada pelo contador Kennedy, o que levou a uma discussão acalorada e os tiros à queima roupa. Ao ser levado, José disse “matei agora mesmo o bandido que mais me perseguia, mas não estou arrependido”. O caso foi capa do jornal ianque The New York Times.

Jornal do monopólio de imprensa ianque, The New York Time, noticio o caso do trabalhador brasileiro que matou o funcionário da empresa imperialista ianque. Foto: Reprodução

O registro histórico constata que a Ulen, instaurada em 1923, era uma grande dor de cabeça para o ludovicense da época. Constavam reclamações dos constantes aumentos de tarifas, péssimo trato dos funcionários e salários baixos; além do caráter parasitário da empresa. Na verdade, o contrato era uma das condições para um empréstimo de 1,75 milhões de de dólares do governo maranhense com a ianque Bankers Trust Company. Segundo matéria de “O Globo”, publicada quatro dias antes do assassinato, lia-se: “(...) Mais de um terço da receita pública desaparece no sorvedouro dos juros e amortizações periódicas”.

TRÊS VEZES ABSOLVIDO

Essa condição levou a que o caso resultasse em grande comoção popular, com uma multidão indo assistir à sessão de seu julgamento. José foi absolvido no júri popular por cinco votos a dois, por "perturbação dos sentidos e inteligência”. Como consta em matéria da edição número 37 de AND, de outubro de 2007, “(...) o povo que lotava o Fórum aplaudia alucinadamente, gritando o nome do réu. O advogado de Ribamar lançou sobre ele a bandeira brasileira e o julgamento se transformou num grande movimento anti-imperialista em São Luiz”. Em abril de 1934, o STJ-MA anularia o veredito do júri, marcando novo julgamento; mas neste também José foi absolvido por unanimidade, reconhecendo que José teria cometido o crime para “evitar um mal maior”.

O protesto contra a Ulen cresce. O governo dos EUA, então, tenta intervir no caso, por meio de mais de 38 ofícios e telegramas pedindo pela proteção da empresa e pela extradição de José. 11 anos depois, quando José já morava no Rio de Janeiro e o Código do Processo Criminal do Estado com o qual havia sido absolvido fora revogado, foi preso e levado de volta a São Luís para um novo julgamento. Consta que o famoso advogado Waldemar Brito, na condição de sua defesa, enrolou José numa bandeira do Brasil em uma das sessões. Em 1944, José foi absolvido mais uma vez, por legítima defesa e em 1946 o governo maranhense cancelou o contrato com a Ulen. José morreu oito anos depois, de infarto.

Para saber mais sobre o caso, recomenda-se as obras audiovisuais: “Morte na Ulen Company - 50 Anos Depois”, de José Joffily e o documentário “O Crime da Ulen”, de Murilo Santo.


Notas:

¹ Apesar de não contar na genealogia oficial da família, existe uma suposta confirmação de um cônsul dos EUA de que Harold seria irmão ilegítimo de Joseph Kennedy, ambos do estado de Massachusetts; como noticiado no monopólio de imprensa inglês, The Guardian.

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