LCP lança declaração sobre os 26 anos da Heroica Resistência Camponesa Armada De Corumbiara

No dia 9 de agosto, após exatos 26 anos da Heroica Resistência Camponesa Armada de Corumbiara, a Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres (LCP) emitiu uma declaração em celebração a data, reafirmando através dos fatos ocorridos por todos estes anos nas terras de Santa Elina, que as massas são capazes de tudo, sempre que estejam organizadas e decididas a vencer em sua luta. A nota está disponível na íntegra no portal Resistência Camponesa.

Faixa deixada no Acampamento Manoel Ribeiro após a retirada das famílias. Foto: Resistência Camponesa

Na declaração, a LCP relembra a fundação do movimento no Norte de Minas e a sua expansão a partir do cumprimento da promessa feita em Corumbiara, onde juraram honrar e fazer justiça àqueles heróis. Afirmam que depois de 15 anos, a maior parte das terras de Santa Elina estavam ocupadas e que ao completar 25 anos, a última parte das terras foram retomadas, momento no qual se formou o Acampamento Manoel Ribeiro organizada por meio mais alta expressão de democracia popular.

Todavia, os reacionários nunca desistiram da espoliação. De acordo com o documento, o latifundiário Antonio Borges Afonso que contratou pistoleiros (entre eles policiais militares), seguiu a sanha de terror, posteriormente assumida pelo próprio governador de Rondônia, o coronel da Polícia Militar (PM) Marcos Rocha junto ao secretário de segurança também coronel da PM, José Hélio Cysneiros Pachá, um dos participantes do ataque em Corumbiara (1995). Fato que tornou a pistolagem, antes ilegal, oficializada pelo velho Estado. 

No relato, o movimento constata que deu-se desde o início da ocupação dos camponeses, a escalada de cerco e ataques ao acampamento, drones, bombas, balas de borracha, inclusive munição letal foram utilizadas. Diversas medidas ilegais foram empreendidas e o pedido de socorro dos algozes que estavam dia após dia sendo derrotados chegou até Brasília, que enviou para combater os camponeses que vigorosamente resistiam, a Força Nacional de Segurança e os chamados “serviços de inteligência – espiões da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), forças armadas e aparatos clandestinos do velho Estado”.

Outros agentes clandestinos da repressão são denunciados pelo movimento, como pessoas camufladas de funcionárias da empresa Elétrica Brasluz que junto a policiais atacaram regiões vizinhas ao acampamento estabelecendo terror, suspendendo aulas e vacinação contra o Covid-19.

Como parte da campanha de demonização e criminalização que se seguia, até mesmo o fascista Bolsonaro citou nominalmente a LCP, difamou o movimento de terrorista e ameaçou-o. A Comissão Nacional caracterizou que tal ataque tratou de manobra de guerra contrainsurgente para justificar a violência contra camponeses, inclusive execuções de qualquer ativista supostamente vinculado à Liga. 

Voltaremos mais fortes e mais preparados!

Todas estas ações que conformavam um cenário de massacre que, segundo a declaração da LCP, “longe de arrefecer, só aumentou o ódio de classe, a combatividade e organização dos camponeses do Acampamento Manoel Ribeiro”. De fato, por meses à fio os camponeses resistiram bravamente a cercos e ataques diários, inclusive de madrugada. Organizados em comissões de auto-defesa, os camponeses repeliram todas as tentativas da polícia de invadir o acampamento, impulsionados pela bandeira da Revolução Agrária e estandartes dos heróis de Corumbiara.

Ao avaliarem a situação diante dos sinistros planos, a LCP relatou no documento: “Entre nós não faltou quem se dispusesse a enfrentar a situação tão extrema e fazer esses criminosos pagarem caro e na mesma moeda”. E seguiu dizendo: “Compreendendo que cumprimos uma jornada vitoriosa para a Revolução Agrária, que tanto forjou a todos do Manoel Ribeiro, contando ainda com tanto apoio de nosso povo na região, por todo o país e de companheiros e companheiras de todo o mundo, decidimos por unanimidade em nossa Assembleia Popular nos retirar de forma organizada para voltar em milhares e mais preparados para varrer os latifúndios da região.”.

Ao invadirem o acampamento, os criminosos se depararam apenas com a faixa escrita pelos camponeses com a frase “Voltaremos mais fortes e mais preparados”, estampada, o que de acordo com o texto, ainda assombra os covardes e abestados.

A Comissão Nacional afirmou que “esta luta de classes – de um lado a sanha repressiva do latifúndio e seu velho Estado, do outro lado a resistência camponesa vitoriosa do Acampamento Manoel Ribeiro – destacou a questão agrária camponesa no debate nacional, elevou a propaganda da Revolução Agrária e mostrou ao povo que é possível vencer batalhas contra tropas reacionárias armadas até os dentes!”.

Liberdade imediata aos 4 presos políticos do Acampamento Manoel Ribeiro!

Outro importante ponto apresentado no documento foi a prisão após uma emboscada contra os quatro jovens acampados Ezequiel, Luiz Carlos, Estéfane e Ricardo. Mesmo com ordem judicial suspensa, o cerco ilegal e a campanha de terror se mantiveram, detalha o texto. Neste contexto, a injusta prisão ocorreu e o judiciário deu início a um “processo farsa” que visa condenar os camponeses por crimes forjados como organização criminosa, roubo de terras, tentativas de homicídio e outros. 

A Liga afirma: “Como não conseguiram prender e despejar todo acampamento nem parar a luta pela terra, o velho Estado tenta vingar nos 4 presos políticos e nos demais presos e processados a derrota política e militar que sofreu”.

Porém, de acordo com a declaração e conforme já noticiado pelo AND, “em várias partes do Brasil e do mundo segue firme a campanha pela liberdade e fim dos processos contra os bravos camponeses do Acampamento Manoel Ribeiro e de defesa da Revolução Agrária, com faixas, cartazes, panfletos, pichações, palestras, abaixo-assinado, manifestações atos e ações em frente a consulados brasileiros de vários países”.

Só a Revolução Agrária entrega terra aos pobres no campo!

Segundo a declaração, a contenda segue e a polícia continua atuando como pistoleiros para o latifúndio Nossa Senhora Aparecida e aterrorizando moradores da região. Tropas da força nacional de segurança e aparatos de inteligência foram deslocados para Rondônia. “O fascista Bolsonaro apresentou um projeto que dá carta branca para agentes do velho Estado assassinarem e não serem nem incomodados com investigação e processos, mais do que já fazem. E decretou nova “GLO” com a desculpa de combate a incêndios”, afirma o texto expondo os novos passos das investidas reacionárias.

Denunciam também os ataques contra as famílias das áreas Tiago dos Santos e Ademar Ferreira, no município de Porto Velho, chegando a agredir e humilhar trabalhadores durante blitz em estradas locais e a atirar de fuzil e escopeta calibre 12 em direção a camponeses, além de prisões e despejos na região.

Famílias inteiras lutam pelo sagrado direito à terra para viver e trabalhar. Fotos: Resistência Camponesa

Contudo, a LCP afirma: “Se engana quem acha que vai parar a luta pela terra com repressão”. E segue dizendo: “Tamanho terrorismo por parte dos inimigos do povo, tendo à frente o fascista Bolsonaro, mais fiel defensor do latifúndio, só nos dá a certeza de que estamos no caminho certo. E ensina aos pobres do campo que conseguirão sua ‘terra prometida’ somente através da Revolução Agrária e não por algum governo ou falastrão de plantão”.

A declaração demonstra que uma onda de avanço da Revolução Agrária se dispõe e que desde 2013, o Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) desencadeou um golpe militar contrarrevolucionário preventivo, que vem avançando passo a passo. O movimento denuncia a farsa e encenação que representarão as próximas eleições e afirma que apenas as mobilizações das amplas massas em luta popular pode barrar o golpe e iniciar uma grande revolução.

A Batalha de Santa Elina nunca será esquecida

Na última parte da declaração, a LCP traz a memória os eventos ocorridos na madrugada de 9 de agosto de 1995, quando “o latifúndio e o velho Estado tentaram afogar em sangue a luta camponesa pela terra e assim paralisar as tomadas de terra na região e no país afora”, porém em uma heroica resistência armada contra a repressão sangrenta e o que era para ser só mais uma chacina virou uma batalha encabeçada por 600 famílias acampadas na antiga fazenda Santa Elina.

Assim como ocorrido recentemente, o texto conta que o latifúndio realizou diversas investidas através de pistoleiros e diante da resistência dos camponeses, a PM sob ordens do governador Valdir Raupp/PMDB encabeçou os ataques. “Os latifundiários da região Antenor Duarte do Vale (militar reformado) e Hélio Pereira de Morais financiaram a repressão.”

Da esquerda para direita, de cima para baixo: Fazenda Santa Elina, 9 de agosto de 1995; Corumbiara, 1995; Manifestação durante 4° congresso da LCP em Corumbiara ­ 2005; Assembleia durante ocupação em 2008; Comissão de camponeses do CODEVISE esteve acampada em Brasília, 2007; Bandeiras do CODEVISE e da LCP. Foto: Resistência Camponesa

Da batalha que após horas de tiroteio, pendeu para o lado dos PMs assassinos quando acabaram as munições dos camponeses, registrou-se diversas atrocidades por meio de humilhações, torturas e execuções à queima-roupa. O documento afirma que 11 camponeses morreram e diversos desapareceram, entre os assassinados estão Vanessa Santos, de 7 anos, Sérgio Rodrigues Gomes e o vereador Manoel Ribeiro, o Nelinho, que apoiou as famílias durante toda a ocupação.


Vanessa dos Santos Silva, Manoel Ribeiro “Nelinho”, Sérgio e Darli Martins Pereira. Foto: Resistência Camponesa

O movimento camponês denuncia que os mandantes e o velho Estado até hoje seguem impunes, e alguns dos oficiais que dirigiram o terror em Corumbiara foram condecorados. Mas assim como no Acampamento Manoel Ribeiro, os camponeses de Corumbiara “nos dias seguintes à batalha, quando as famílias iam se reencontrando, diziam: ‘Vamos retomar Santa Elina!’”, afirma a declaração constatando também que no decorrer destes acontecimentos a repressão virou solidariedade e impulsionou uma onda de tomada de terras pelo país. Isto também demarcou o nascimento do movimento camponês de novo tipo, que rompeu com toda a prática oportunista de negociações com órgãos do governo e traições aos camponeses. 

A declaração apresenta também a história da LCP: “A Liga Operária e Camponesa de então, com a heroica resistência camponesa de Corumbiara, defende a criação do Movimento Camponês Corumbiara e com este decide separar em duas organizações específicas: Liga Operária e Liga dos Camponeses Pobres. Assim a LCP surge primeiro no Norte de Minas na retomada das lutas dos posseiros de Cachoeirinha e com a luta contra o oportunismo no MCC cria a LCP de Rondônia Amazônia Ocidental, se expandindo pelo país o movimento camponês revolucionário.”.

A comissão segue descrevendo as batalhas que sucederam o ano de 1995, como a criação do Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina (Codevise) e o acampamento em Brasília, em 2007. “Após muitas lutas, grande parte do sonho dos camponeses de 1995 realizou-se, nas Áreas Zé Bentão, Renato Nathan, Alzira Monteiro, Alberico Carvalho, Maranatã 1 e 2”. A LCP afirma que os camponeses conquistaram energia elétrica, construção de estradas e pontes, escola, postos de saúde e continuam lutando para conquistarem a titulação definitiva de suas terras, preço justo para sua produção, maquinários, assistência técnica e contra multas e repressão dos diferentes órgãos do velho Estado.

Por fim, a declaração afirma que os combatentes de Santa Elina ajudaram a demarcar o caminho da Revolução Agrária, um caminho “de muitas dificuldades e sacrifícios, o único que dá terra ao camponês pobre, que é capaz de destruir o latifúndio e iniciar a construção de uma Nova Democracia e um Brasil Novo, unindo com a luta dos operários e demais trabalhadores do campo e da cidade”.

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