Inédito: Relatos de camponeses expressam horrores vividos durante chacina em Rondônia

Poça de sangue e boné do jovem Kevin no local onde foi assassinado pelas forças reacionárias. Foto: Banco de dados AND

Chacina: é como podem ser descritos os eventos que aconteceram na Área Ademar Ferreira, em Nova Mutum Paraná, Rondônia, no dia 13 de agosto. Na ocasião, militares da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP), Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque) e do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) de Bolsonaro e Marcos Rocha assassinaram covardemente três camponeses: Amarildo Aparecido Rodrigues, Amaral José Stoco Rodrigues e Kevin Fernando Holanda de Souza.

Denúncias recentes do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo) e da Associação Brasileira dos Advogados do Povo Gabriel Pimenta (Abrapo) expuseram que, nessa ocasião, havia cerca de 23 viaturas, 50 policiais e que as ações foram perpetradas principalmente pelo Bope, comandado pelo capitão PM Felipe Hemerson Pereira. Segundo informações, a ação foi uma verdadeira emboscada: os policiais sequer estavam em patrulha com as viaturas, o que eleva a suspeita de que tenham se deslocado para empreender o massacre. Eles entraram a pé pela mata, com camuflagem e, em certo momento, seguiram agachados, rastejando com seus fuzis em busca dos camponeses.

Por volta de 7h da manhã, um jovem foi abordado por policiais que estavam escondidos na mata: ele foi espancado e torturado para que desse informações sobre o acampamento, e logo depois foi preso. Às 10h, Amarildo e Amaral foram alvejados com tiros de fuzis enquanto trabalhavam. Em outro ponto do acampamento o jovem Kevin foi alvejado com 30 tiros de fuzil pelas costas.

O terror vivido pelas famílias da área, apesar das tentativas das forças policiais e dos portais porta-vozes do latifúndio de ocultar os verdadeiros fatos, envolveu diversas outras ações que vieram à tona com relatos dos camponeses sobre as horas de perseguição, as torturas, as prisões, os tiros, invasões e queima de moradias.

Todos relatam que ainda era cedo quando ouviram helicópteros sobrevoando a área e avistaram policiais e pessoas do Exército adentrando e incendiando barracos e casas, atirando contra as moradias e contra as famílias que estavam no caminho.

Crianças gritando, helicópteros e tiros

Um dos moradores relatou: “Estava na cozinha do Acampamento Ademar e vi dois homens com roupa do Exército se aproximarem. Vi um helicóptero se aproximar da região. Vi uma das pessoas (PM) dentro do barraco de outro camponês. Escutei crianças gritando e barulho de armas de calibre menor. Fiquei escondido na mata e ouvi barulhos de barracos pegando fogo”. O barulho de fogo escutado pelo camponês era a cozinha coletiva, assim como sua moto, fato que ficou sabendo mais tarde. 

Este morador também relatou que passou toda a tarde do dia 13/08 escondido na mata. No caminho para a Vila do Acampamento Tiago dos Santos, ele disse que viu uma mochila e uma garrafa d'água caída junto a uma poça de sangue e sinais de um recente “roçado”. Posteriormente também veio a saber que o sangue pertencia a um de seus companheiros. 

Utilizando cães, policiais caçavam camponeses na mata

Outro camponês relata que por volta das 11h, quando voltava para casa, dois policiais correram em sua direção. Ele e mais duas pessoas se esconderam na mata. O trabalhador escutou então os policiais colocarem fogo em seu barraco. Os militares destruíram quase tudo que ele possuía: barraca, colchão, bíblia, lanterna, roupas e comida. Ali os camponeses permaneceram até 17h, enquanto um helicóptero sobrevoou a região. Os camponeses souberam posteriormente que a polícia colocou cães para caçar os camponeses da área Ademar.

Um outro morador relata que havia dois helicópteros atirando contra as moradias. Disse também que as equipes de militares nos helicópteros, ao avistarem ele e outros dois moradores, os perseguiram. Os camponeses passaram a noite na mata, enquanto ouviam disparos de armas de fogo; eles viram policiais cercando a área e usando cães para caçar quem estivesse na mata. Os trabalhadores denunciam que cinco pessoas permanecem desaparecidas.

Em depoimento, um morador conta que estava tomando café na cozinha coletiva quando viu seis policiais indo em direção ao local. O morador correu em direção à mata e lá foi perseguido. Depois de cerca de três horas escondido, ouviu cachorros latindo e pensou ser de algum outro morador, contudo, ao se deslocar para verificar, o que avistou foi policiais com cães da raça pitbull. Os militares colocaram os cachorros para correr atrás do trabalhador, que fugiu novamente e, escondido, só saiu após o cair da noite, quando as tropas foram embora. O camponês relata diversos machucados e picadas de formiga, pois para sobreviver teve que se esconder em um local com infestação e não pôde se mexer para não ser visto. 

Incêndios e furtos

Em mais um relato, um outro camponês afirmou que estava na beira da estrada junto ao seu pai quando ouviu o helicóptero. Eles se esconderam na mata e viram a polícia rodearem a moradia. Do alto, o helicóptero soltou uma bomba de efeito moral em cima da madrasta dele, que também se abrigou na mata. Quando voltaram ao local perceberam que duas motos e dois celulares haviam sumido. O mesmo aconteceu com outros dois parentes seus que moravam no acampamento: seu tio, que além de ter seu carro e moto furtados teve sua casa incendiada, e um outro tio, que teve dois carros e o barraco queimados. Não bastando, este também foi levado preso. Tempos depois ficou sabendo que o tio e o primo dele foram assassinados enquanto trabalhavam. Segundo a denúncia, eles não conseguiram fugir para a mata a tempo e foram alvejados pelas costas. Eram Amarildo e Amaral.

Perseguição sob fogo vindo do céu

Outro camponês, que estava acometido com malária, teve que fugir junto a outras duas pessoas diante do ataque. Ele conta que ficou com medo de sair da mata, pois “sabia que nos acampamentos a polícia costuma matar trabalhador”. Mesmo assim, após seis horas, se retiraram da mata e foram novamente avistados e perseguidos pelos policiais no helicóptero, que insistiram em atirar contra os moradores por pelo menos uma hora. Apenas durante a manhã conseguiram sair do local e, ao se abrigarem na Área Tiago dos Santos, souberam dos assassinatos e também que haviam perdido todos os pertences pessoais e barracos.

Em um outro relato, um camponês afirma que voltava do trabalho de moto quando avistou dois policiais que correram atrás dele com fuzis apontados em sua direção, gritando “Perdeu! Perdeu!”. O camponês, receoso da abordagem policial, fugiu. Ao chegar em casa novamente, avistou outros quatro policiais. Foi quando abandonou sua moto e se escondeu na mata, mas foi abordado por um deles que dizia: “Parado! Mão na cabeça! Deita no chão”, mas o trabalhador não obedeceu e correu em direção a outra área onde camponeses lhe deram carona. Sua mãe e avó, que estavam em casa, foram levadas pelos militares junto com seus irmãos, crianças de um e oito anos. 

Leia também: RO: Forças policiais de Bolsonaro e de Marcos Rocha assassinam covarde

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