Mais de 1 milhão de mortes: Genocídio planificado na América Latina

A América Latina tem sido, desde 2020, a região onde ocorreu maior número de mortes pela Covid-19. Após o início da epidemia em Wuhan, China, que logo se tornaria pandemia, o início da contaminação na Europa e o número estrondoso de mortes no Estados Unidos (USA), que continua sendo o país número um em mortes pelo novo coronavírus, o subcontinente segue sendo o foco das mortes em decorrência da doença.

De cada 100 últimas infecções contabilizadas em todo o mundo, cerca de 31 foram em países latino-americanos ou caribenhos. Atualmente, a região contabiliza um milhão de novos infectados a cada dez dias.

Para além dos fatores biológicos e sanitários existentes antes mesmo do início da pandemia, uma explicação mais completa do fato passa pela fundamentação da existência de um genocídio planificado contra o povo latino-americano. A negligência dos governos quanto às infecções pelo vírus, consciente ou não, foi o que conformou, indiscutivelmente, esse cenário terrível.

Foram registradas, até o início de agosto, na região, pelo menos 41,071 milhões de infecções pelo novo coronavírus e cerca de 1,77 milhão de mortes.

Esse descompasso macabro em relação ao resto do mundo não se explica somente por “concentração populacional”, “pobreza” ou “crise política”. Fossem esses os únicos fatores a influenciar uma maior contaminação e mortes, seriam a África e a Ásia (principalmente o sul dela) os continentes à frente no quadro dos mais infectados pela Covid-19, o que não ocorre.

Ilusões desmascaradas

A demora no processo de vacinação decorrente do atraso na compra das vacinas foi precedida pela falta de auxílios de renda consistentes e duradouros para o povo na américa-latina. Bem como pelo fato de que a maioria dos trabalhadores informais tinha de sair a cada dia para garantir seu sustento imediato. Ineficiente e demagógica foi a falastronice do “fique em casa” promovida pelos governos de turno e monopólios de mídia, quando na verdade não existiam e não foram criados os meios para que o isolamento social fosse possível para as massas mais profundas.

Os escândalos de desvio de verbas da saúde e vacinação primeira de políticos do velho Estado e militares foram vistos na maioria dos países do subcontinente (não somente no Brasil).

Usando e abusando da “possibilidade” criada pela situação pandêmica, o sistema de saúde privado foi fortalecido (impulsionado por gordas remessas de verbas públicas) em detrimento do sistema público de saúde. Isso se deu no momento mais crítico da saúde pública, gerando revoltas como a que ocorreu na Colômbia contra a reforma da saúde, que foi barrada pelos protestos combativos em abril de 2021.

Foram esses os crimes de lesa-humanidade cometidos pelas classes dominantes em conluio com os Estados reacionários contra o povo latino-americano.

Um grande exército de reserva

No ano de 2020, a América Latina atingiu o recorde de 41 milhões de desempregados e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), insuspeito organismo imperialista, estimava que cerca de 60% dos trabalhadores então empregados na região corriam risco de desemprego. Isso se deu em meio à crise geral de superprodução relativa de capital, que conduziu a demissões em massa pela ruína dos pequenos negócios e fuga das empresas imperialistas da América Latina em direção a regiões onde pudessem atingir o lucro máximo.

A paralisação de fábricas, do comércio e serviços aprofundou a crise econômica e o desemprego no subcontinente. A falta de auxílios, tanto para os pequenos negócios quanto para as massas, que ficaram ainda mais miseráveis, promoveu uma quebradeira sem fim da economia do capitalismo burocrático nos países da região. Além disso, a quantia dos auxílios, tão baixos quando foram aplicados, não conseguiu impulsionar o consumo das massas em geral, pois era suficiente somente para a sua sobrevivência imediata.

Antes mesmo da pandemia do novo coronavírus, porém, existiam fatores que empurravam as massas latino-americanas para a miséria crescente. Um relatório da OIT sobre o ano de 2019 revelou que mais de 25 milhões de pessoas procuravam emprego ativamente e não conseguiam encontrar. Dessa forma, a situação se aprofundou com a pandemia, mas não foi criada por ela.

Também, antes da pandemia se tornar uma realidade, previa-se para a região um crescimento do desemprego para aproximadamente 26 milhões de pessoas em 2020. Já a igualmente insuspeita Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal) estimou que no mesmo período (2019-2020) a pobreza aumentaria de 30,3% para 34,7%, com o incremento de 29 milhões de pessoas. A recessão de 2020 seria pior do que a da Segunda Guerra Imperialista Mundial, e muito pior do que a de 1983, o pior ano da “crise da dívida”. “Sem dúvida, se a crise atual se aprofunda, como é muito provável que ocorra, seria a pior da história”, estimou a época a Cepal. Assim, em toda a América Latina, o aumento do desemprego foi predominante naquele ano de 2019 (pré-pandemia): em 9 dos 14 países o índice subiu.

A OIT considerou, ainda, que a situação dos jovens era alarmante, já que, no terceiro trimestre, um em cada cinco jovens não conseguia encontrar emprego, em uma taxa de desemprego regional de 19,8%. Era o nível mais alto registrado dessa taxa na última década.

Além disso, o mesmo relatório apontou que, desde 2018, o crescimento do emprego assalariado foi menor em comparação com o trabalho autônomo, especialmente o não profissional. A OIT enfatizou que esses são sinais de que, naquele momento, já havia “uma relativa precariedade dos empregos que estão sendo criados na América Latina e no Caribe”.

Também segundo a Cepal, entre 2014 e 2019 tanto a fome, a pobreza, quanto a miséria aumentaram sucessivamente. A fome afetava 47,7 milhões de pessoas. Em 2019 a situação de pobreza também avançava: 191 milhões, aumento de 6 milhões em relação ao ano anterior. Enquanto a pobreza extrema, chegou a 72 milhões em 2019, enquanto que no ano anterior 66 milhões encontravam-se nessa condição.

“O maior risco reside em que se não encontrarmos fórmulas para responder às demandas populares poderemos enfrentar turbulências ainda maiores num futuro próximo”, preocupava-se o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que prosseguiu: “Sabemos que estamos obrigados a pensar e atuar com audácia”.

Nesse quadro, confirmando o diagnóstico desse senhor, mesmo antes da pandemia, irromperam os grandes protestos de 2019 no Chile, Colômbia e Equador. No Brasil também ocorreram protestos nesse mesmo ano, que foi o primeiro ano do governo militar de Bolsonaro.

Tal era, portanto, a tendência pré-pandemia: aprofundamento da crise econômica, assim como da tendência crescente ao caos social e sublevações populares altamente perigosas para a estabilidade dos regimes latino-americanos.

Covid-19 e crise política

A crise política que ronda o subcontinente se intensifica enquanto prossegue a enorme mortandade que assola as massas latino-americanas. Tão logo iniciaram-se os casos do novo coronavírus nos países da região, presidentes e representantes das classes dominantes dividiram-se em dois grupos aparentemente opostos: negacionistas e “humanistas de ocasião”. O presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, no início da pandemia, continuou a sair nas ruas e postar imagens em que cumprimenta populares. Justificando a sua opinião negacionista de que o México “sairia em frente” e resistiria ao coronavírus, o reacionário afirmou que os mexicanos seriam “resistentes a todas as calamidades”. E conclamou: “Continuem levando suas famílias para comer fora. Isso é fortalecer a economia nacional, a economia popular”.

Já Alberto Fernández, presidente da Argentina, demarcou o isolamento social e afirmou: “devemos nos unir para superar esta catástrofe”, impulsionando o discurso farsante de que “o vírus está acima das classes” e, portanto, explorados deveriam se unir com seus exploradores. Enquanto isso, promoveu a repressão aos operários que protestavam contra a carestia e o ajuste com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Países como Peru e Bolívia já tiveram seus ministros da Saúde trocados seis e cinco vezes, respectivamente. Os dois países inclusive mudaram de governos. O Peru, particularmente, teve três presidentes diferentes em sete dias, sintomático quadro de crise geral do capitalismo burocrático nesse país.

O Brasil é outro caso em que a pandemia do novo coronavírus encontrou terreno fértil para intensificar a pugna entre os grupos de poder nativos, todos eles lacaios do imperialismo ianque (Estados Unidos, USA). Destas disputas entre o negacionismo do fascista Bolsonaro e os “humanistas de ocasião” saíram alguns dos elementos que catalisaram o processo de crise política em torno de um plano de genocídio em marcha contra as massas, realizado pelos governos reacionários, sobretudo nos momentos em que as massas saíram às ruas para rechaçar o governo genocida.

Essas diferentes pugnas entre os grupos de poder terá suas particularidades em cada país. Em comum, porém, há a defesa do sistema de opressão e exploração que lança as massas trabalhadoras na pobreza e na fome.

Como já colocado no Editorial Especial Século XXI e Medievo de AND, em abril de 2020, a eliminação das populações consideradas excedentes pelas classes dominantes, de modo geral, significava “destruir forças produtivas, para logo justificarem novos e milagrosos ‘planos Marshall’ em vista de recuperar a economia para nova expansão. A negligência é deliberada, advinda da natureza do imperialismo, porém tergiversada com doses reguláveis de dramatização pelos monopólios de imprensa – Rede Globo à cabeça no Brasil – para mitigar a revolta das massas. É a lei do imperialismo: as crises nesse sistema só são parcialmente debeladas com destruição de forças produtivas, matança de trabalhadores e populações ‘excedentes’, concentração/centralização de capital e conquista de novos mercados (guerra com arsenais bélicos)”.

Rebelião popular na ordem do dia

Os reacionários, contando com o podre papel dos oportunistas em paralisar os movimentos de massas, viram o contágio rápido da doença como uma ótima oportunidade para frear as manifestações que já convulsionavam a sociedade. Porém, frente ao grave quadro econômico-social da América Latina, somou-se a mortandade sem fim e a destruição de dezenas de milhares de empregos. Daí saíram episódios das lutas das massas.

Em Honduras, milhares de pessoas se levantaram contra o desvio de fundos para o novo coronavírus pelo velho Estado no final de 2020.

No Paraguai, durante o mês de março deste ano, o povo se rebelou contra a pauperização da vida e o caos na saúde, e chegou a incendiar duas sedes do partido no governo. No país só existiam 304 leitos de UTI públicos para mais de 7 milhões de pessoas.

Já na Colômbia, na greve geral que começou no dia 28 de abril em resposta a uma reforma tributária que atacaria a pequena e média burguesia em prol dos grandes burgueses, seguida de uma frustrada reforma na saúde (que ampliaria a saúde privada em detrimento da pública), as massas colombianas irromperam qual uma grande onda sob o horizonte de águas agitadiças. Mais de três meses depois do início dos protestos, o povo rejeita as posições capitulacionistas dos oportunistas de atender aos desejos do velho Estado e grandes burgueses na intenção de suspender os protestos e desmobilizar as massas.

Além disso, as recentes mobilizações no Brasil contra os crimes – os mais variados – do governo militar genocida de Bolsonaro indicam que tal torrente da rebelião das massas na América Latina não está por acabar.

Os protestos no Chile (iniciados em 2019) não cessaram até agora, apesar da apresentação de uma “nova constituinte inclusiva e plural” farsante.

Todas essas rebeliões populares na América Latina carregam consigo a justeza da luta contra a fome, a miséria, o genocídio planificado, e por não caírem no esquecimento os já falecidos pela Covid-19.


Concentração populacional, miséria e mortes por Covid-19 nos continentes

Em comparação com o continente africano, que teve cerca de 150 mil mortes, o número do subcontinente latino-americano é quase dez vezes superior. A América Latina, concentrando 8% da população mundial – 569 milhões de habitantes, sendo 27 habitantes por km quadrado (km²) –, apresentou 1,7 milhão de mortes por Covid; enquanto a Ásia e o Oriente Médio, concentrando 4,831 bilhões, apresentaram 825 mil. Os dados são do monitor da Covid-19 da agência Reuters.

O continente africano concentra 17% da população mundial, com cerca de 1,3 bilhão de pessoas. A taxa de pobreza no continente, em 2015, era de 41%, ou seja, quatro a cada dez pessoas no continente africano viviam em extrema pobreza. Reúne 44,35 habitantes por km².

É na Ásia, porém, onde se encontram mais da metade de todas as pessoas enfrentando a fome no mundo (418 milhões). Em 2019, quase 83% das pessoas que enfrentam a pobreza no mundo estão concentradas em duas áreas: África Subsaariana e Sul da Ásia. Isso representa um número de 1,1 bilhão.

Mesmo assim, nenhuma das outras regiões atingiu os números de mortes pela COVID-19 que atingiu a América Latina: a África conta com 172 mil mortes, já a Ásia e o Oriente Médio, juntos, contabilizam 905.000 mortes registradas causadas pelo novo coronavírus até o início de agosto.

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