Avá-Canoeiro: Guerreira sobrevivente fala sobre o massacre - Parte I

Eles não gostam de comentar o assunto. E raramente o fazem. Mas o episódio violento e traumático do primeiro contato oficial do Estado brasileiro (Funai) com o povo Avá-Canoeiro do Araguaia (caso que foi escondido pela ditadura militar) marcou a história da tribo e continua marcando. Por isso foi tão importante receber as palavras de Kamutaja Silva Ãwa, jovem liderança do grupo, num relato especial feito ao A Nova Democracia.

A família de Kamutaja foi uma das poucas, entre os indomáveis guerreiros ãwas, que sobreviveu a esse crime. Pertencente à nova geração, ela divide seu tempo entre auxiliar o cacique no comando político da sua aldeia (que fica na Ilha do Bananal) e os estudos de Pedagogia na faculdade em Palmas, capital do Tocantins. Ela também é membra da Comissão Psicologia e Povos do Cerrado do Conselho Regional de Psicologia.

O RELATO

“Eu sou Kamutaja Silva Ãwa, pertenço ao povo conhecido na literatura como Avá-Canoeiro, regionalmente como Cara-Preta e também como o povo que mais resistiu ao colonizador no século XVIII. A história do meu povo Ãwa não é muito diferente dos demais povos indígenas do Brasil. Sou neta de Tutawa Ãwa e filha de Kawkamy Ãwa, sobreviventes do contato forçado e violento no ano de 1973.”

Lutando pela terra invadida por fazenda 

“Hoje estamos na luta pela retomada da nossa terra tradicional. Meu avô Tutawa deu o nome da nossa TI (Terra Indígena) de Taego Ãwa, em homenagem a sua esposa que morreu de forma repentina numa caminhada em que o grupo realizava na área conhecida como Capão de Areia. Hoje moramos de favor nas aldeias do povo Jê (Javaé e Karajá), porque na década de 1970 meu povo Ãwa estava cercado e sua terra estava sendo dominada pela Fazenda Canuanã.” 

Expedição às pressas

“Por interesses privados (fazendeiros e empresários aliados da ditadura militar queriam que a área ficasse “limpa” das incômodas tribos ali existentes) começaram a realizar uma expedição atrás do meu povo na região do município de Formoso do Araguaia, especificamente na área chamada de Mata Azul, Capão de Areia e Caracol, liderada pelo sertanista Israel Praxedes.

Devido à demora do contato (conosco) e as recomendações do sertanista à Funai pedindo que se demarcasse a área para o nosso povo Ãwa, o mesmo foi substituído (por ordem militar superior) pelo jovem sertanista Apoena Meireles.

O sertanista Apoena fez o contato com meu povo dentro de um mês, época chuvosa do ano de 1973.”

Revólver e foguete

“O sertanista com sua equipe entrou no acampamento da minha família atirando e soltando foguetes (para apavorar as pessoas). (Era um acampamento porque)  durante anos meu povo não mais tinha aldeias. Devido às perseguições constantes (por parte dos brancos) viviam em acampamentos de tapiris.

Durante aquele momento (do contato forçado pela chamada Frente de Atração da Funai, à bala e fogos), meu tio- avô Tuxi flechou um dos Xavante que integrava a equipe de Apoena. 

(OBS: A ação da Funai, ao forçar brutalmente o contato com uma tribo totalmente desamparada e despreparada foi vista como criminosa posteriormente por estudiosos, quando se soube a verdade, escondida pela gerência militar. E mais: indigenistas vêem hoje  o episódio como uma espécie de massacre étnico).”     

Permissão para matar

“Meu avô Tutawa se entregou aos invasores porque tinham capturado sua esposa Watuma e seu filho caçula Juaga. Com a rendição de meu avô, minha mãe Kawkamy saiu de um toco onde havia se escondido, Tuxi e Kapoluaga também se renderam. Os demais, como Tuakire, Agapik, Typyire, Agaek e Kaganego conseguiram fugir, mas Typyire faleceu logo depois porque foi atingida com uns dos disparos realizados pela equipe de Apoena ao adentrar o acampamento.

Em seguida os seis Ãwa que foram capturados andaram amarrados durante a noite a caminho da Fazenda Canuanã, sob ameaça de morte pelos Xavante. Já que meu tio-avô Tuxi havia flechado um dos deles no nariz, então Apoena fez um acordo com os Xavante, se o que foi ferido morresse os Xavante teriam permissão para matar os Ãwa que estavam amarrados.”

Expostos como bichos brabos

“Chegando na Fazenda Canuanã minha família ficou exposta numa casa cercada e a população da região foi conhecer os temidos Cara-Pretas. No ano de 1974 com a ajuda do meu avô Tutawa que entendeu que realizando o contato com os demais que conseguiram fugir iriam ficar no seu território (o resto do grupo foi capturado, num ato de traição da Funai). O que aconteceu foi que todos foram transferidos para a terra dos nossos inimigos históricos, o povo Javaé.” (Obs.: O indigenismo classifica hoje tal medida como um inaceitável atentado cultural contra ambos os povos).”

Na mão do Bradesco

“A área que pertence ao meu povo ficou sob posse da Fazenda Canuanã, que foi vendida ao Incra para fazer um assentamento. E (como) a Funai na época fez um documento afirmando que não havia indígenas na região, então a Fazenda Canuanã conseguiu fundar com o Bradesco a instituição Fundação Bradesco e a minha família passou a viver como cativos de guerra, numa rua marginalizada da aldeia Canuanã e passamos a ficar invisíveis no estado do Tocantins.” 

Retomando a Terra de Taego

“Depois de mais de 40 anos vivendo num território Jê (Javaé/Karajá), e sendo apenas objeto de pesquisa de historiadores, fotógrafos,  entre outros, somente no ano de 2012 realizamos junto à antropóloga Patrícia de Mendonça e à ambientalista Luciana Ferraz o estudo de identificação da nossa TI Taego Ãwa.  E em 2016 foi declarada como de ocupação tradicional do nosso povo. 

Atualmente aguardamos o término do levantamento fundiário que deveria ter acabado no ano de 2019 pela Funai, e o resultado da perícia antropológica solicitada pelos atuais ocupantes da nossa terra tradicional. Lutamos pela retomada do nosso território tradicional e contra o PL 490 (Obs.: Projeto de Lei apresentado pelo agronegócio/bancada ruralista que altera regras na demarcação de terras indígenas e permite outras medidas danosas à sobrevivência das nações nativas) e o marco temporal , que são dois projetos genocidas contra nós povos indígenas. Demarcação Já !!!”

QUANDO O APOENA PEGOU A GENTE

A antropóloga Patrícia de Mendonça Rodrigues em seu artigo Os Avá-Canoeiro do Araguaia e o tempo do cativeiro afirmou:

“Os fatos relacionados à Frente de Atração (o massacre do contato violento de 1973)  causaram uma ruptura definitiva na vida dos Avá-Canoeiro do Araguaia, que se referem ao episódio como “o tempo em que o Apoena pegou a gente”. A experiência do tempo (história) e do espaço (ocupação territorial) vivida pelo grupo divide-se entre o antes e o depois desse evento-tabu, cuja menção até hoje causa um desconforto visível às pessoas que são entrevistadas a respeito, sejam os agentes públicos, os moradores regionais ou os Javaé, como se estivesse abrindo-se uma ferida profunda que não foi cicatrizada, mas que todos querem esquecer. Ao mesmo tempo, como não foi tomada nenhuma providência para se reverter a situação instalada logo no início, que se consolidou ao longo dos anos, foi mais fácil e cômodo torná-la invisível e naturalizada do que realizar uma revisão crítica das decisões e das políticas adotadas no passado.” (*)

OS ÃWA E A GUERRILHA DO ARAGUAIA

Disse ainda a antropóloga Patrícia de Mendonça Rodrigues no mesmo artigo:

“(...) O poder público (Funai) foi acionado no auge dos governos militares e o órgão indigenista enviou uma equipe com o objetivo, a princípio, de investigar se era real ou não a presença dos índios (ver Pedroso, 2006). Diante da constatação da existência dos Avá-Canoeiro, a Funai teria decidido realizar o contato. Há uma sugestiva coincidência de datas entre a ativação da Frente de Atração no Araguaia e o interesse do grupo Bradesco pela Fazenda Canuanã, tendo em vista que há vários anos os fazendeiros locais, incluindo os proprietários da Fazenda Lago Bonito, solicitavam sem sucesso à Funai que tomasse alguma providência em relação aos “Cara Preta”. Como se sabe, a Funai era presidida por militares e, no mesmo ano da captura (violenta) dos Avá-Canoeiro, a região foi palco da repressão armada a Guerrilha do Araguaia, ao norte, e à atuação político-religiosa da Prelazia de São Félix do Araguaia, a oeste, liderada por Dom Pedro Casaldáliga .” (*)

CACHORROS COMIAM FÍGADO DOS ÍNDIOS PARA “TREINAR”

Contou também a antropóloga Patrícia de Mendonça Rodrigues em seu artigo:

“Os sobreviventes do genocídio lembram que seu povo foi caçado (desde a entrada de colonos brancos na região) por homens armados, montados ou não, e seus cachorros ferozes nas matas do Araguaia, testemunhando de perto o assassinato de parentes próximos – pais, irmãos, filhos, entre outros – de formas variadas. Os sertanejos, por sua vez, ainda lembram que os índios eram acuados com cachorros e subiam nas árvores, de onde defecavam descontroladamente. Depois de mortos, o fígado dos “Cara Preta” era dado como recompensa aos cachorros, que assim eram treinados na perseguição aos índios.” (*)

Líder Tutawa ao lado dos sobreviventes, 1981. Foto: André Toral

(*) Patrícia de Mendonça Rodrigues, «Os Avá-Canoeiro do Araguaia e o tempo do cativeiro», Anuário Antropológico, v.38 n.1 | 2013

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